União Europeia lança primeiro grande ataque económico contra a Rússia

Novas medidas passam pelo corte do acesso de bancos estatais aos mercados europeus. Angela Merkel disse que este passo era “inevitável” e Obama disse que o objectivo é “tentar prevenir o derramamento de sangue no Leste da Ucrânia”.

Foto
Vladimir Putin está cada vez mais cercado pela guerra económica da UE e dos EUA MIKHAIL KLIMENTIEV/AFP

Os líderes da União Europeia (UE) chegaram a acordo para aplicarem um novo e mais duro pacote de sanções à Rússia por causa do conflito no Leste da Ucrânia, em grande parte motivado pelo abate do voo MH17 da Malaysia Airlines.

Paralisada durante meses entre os cálculos de uma guerra económica com um dos seus maiores parceiros e a necessidade de provar que é capaz de responder a uma só voz perante um conflito cada vez mais instável nas suas fronteiras, a UE decidiu nesta terça-feira levar as sanções contra a Rússia para outro nível.

A chanceler alemã, Angela Merkel, que foi durante muito tempo vista como um dos principais travões ao endurecimento das medidas, afirmou que este passo era “inevitável”.

Para trás ficaram as listas com nomes de personalidades proibidas de viajar para a UE e cujos bens foram congelados; para Bruxelas, chegou a hora de pôr à prova os principais sectores da economia russa, e esperar que a punição económica seja suficiente para inverter a situação na Ucrânia, que líderes europeus e dos EUA dizem estar a ser alimentada pela Rússia.

Na prática, a chamada “fase 3” das sanções a aplicar à Rússia vai afectar a banca, a indústria do armamento e o sector energético. Os pormenores da maior ofensiva económica da UE contra a Rússia desde o fim da Guerra Fria só serão conhecidos na quarta-feira, mas o quadro geral das sanções foi sendo pintado ao longo do dia nos corredores de Bruxelas.

As novas medidas vão limitar o acesso dos bancos russos detidos pelo Estado aos mercados de capitais europeus; suspender a venda e compra de armas; e proibir a venda de material tecnológico para a modernização da indústria petrolífera da Rússia. As sanções foram concebidas para estarem em vigor um ano, mas serão revistas ao fim de três meses.

Em linha com a estratégia revelada pelo presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, o novo pacote de sanções tem como objectivo causar os maiores danos possíveis à economia russa e limitar ao máximo as consequências para a UE. Para minimizar essas consequências, as sanções vão prejudicar a exploração petrolífera da Rússia, mas vão continuar sem tocar no gás natural, de que dependem vários países da UE. Também o embargo à venda de armas será limitado aos negócios que se façam a partir de agora — negócios como a venda de dois navios militares franceses da classe Mistral à Rússia, que tem causado fricções entre Paris e alguns dos seus parceiros europeus, vão poder prosseguir.

O Presidente francês admitiu na semana passada travar a venda de um segundo navio à Rússia se a UE endurecesse as sanções, mas disse que cancelar a entrega do primeiro navio está fora de questão, porque o negócio foi acordado em 2011 e Moscovo cumpriu a sua parte.

Se o acordo alcançado nesta terça-feira pode ser visto como uma parte importante do cerco económico que as lideranças políticas da UE e dos EUA estão a tentar implementar à volta da Rússia, no mundo empresarial o tema é ainda menos pacífico.

Gigantes como a britânica BP e a francesa Renault têm repetido que o endurecimento das sanções será um autêntico tiro no pé da UE, devido à dependência entre as economias.

A BP, por exemplo, detém 19,5% da maior produtora de petróleo russa, a Rosneft, que já é alvo de sanções dos EUA. “Se forem impostas mais sanções à Rosneft, ou se forem impostas novas sanções à Rússia e a outras personalidades russas ou empresas, isso poderá ter um efeito adverso na nossa relação e no nosso investimento na Rosneft, nos nossos objectivos estratégicos e comerciais na Rússia, e na nossa posição financeira e nos resultados das operações”, alertou a empresa petrolífera britânica.

Apesar das fricções entre os países da UE e dos receios do mundo empresarial, as dúvidas dos líderes políticos parecem ter sido desfeitas após a queda do voo MH17 no Leste da Ucrânia a 17 de Julho, provavelmente abatido por um míssil numa zona controlada por separatistas pró-russos.

A morte das 298 pessoas que seguiam a bordo foi o “momento de viragem”, disse o porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest. “É razoável assumir que o abate deste avião comercial contribuiu para a determinação dos europeus em endurecerem a sua posição e tomarem o mesmo tipo de medidas que esta Administração tomou há umas semanas”, disse o responsável, referindo-se às sanções de Washington contra bancos e empresas energéticas russas, como a Rosneft.

Novas sanções dos EUA

Ao fim da tarde, o Presidente dos EUA, Baracak Obama, anunciou que o seu Governo tinha também acabado de aprovar um novo conjunto de sanções, que vão continuar a afectar os sectores russos da banca e da defesa.

Questionado sobre se se pode já falar numa nova Guerra Fria, Obama foi taxativo ao responder com um rotundo “não”. Menos taxativa foi a resposta a uma questão sobre o possível apoio militar à Ucrânia. Obama disse que este não é o momento para se falar em apoio ao Exército ucraniano, que descreveu como “mais bem preparado e equipado” do que os separatistas. O objectivo é “tentar prevenir o derramamento de sangue no Leste da Ucrânia”, disse.

Mesmo sem ser conhecida a resposta da Rússia às sanções anunciadas pela UE, vários analistas avisam que as medidas podem mesmo ter consequências sérias para a economia europeia.

“O impacto nas relações comerciais é relativamente pequeno. O risco maior é o de uma quebra da confiança económica. Uma espiral de sanções, em conjunto com uma quebra na confiança, pode ser suficiente para travar a já frágil recuperação económica da Europa”, estima Gregor Eder, da multinacional Allianz, citado pela agência Reuters.

O mesmo analista lança uma pergunta e dá uma resposta que pode deixar muitas empresas europeias à beira de um ataque de nervos: “Como é que a Rússia reagiria se os bancos europeus não fossem autorizados e conceder crédito a empresas russas? Poderia haver uma ameaça de confiscação de instalações de empresas europeias na Rússia.”