Gaza teve um raro momento de paz, mas as sirenes voltaram a soar

Uma trégua de cinco horas permitiu que os palestinianos voltassem às suas ruas e às suas casas. No Cairo mantém-se o impasse entre Israel e o Hamas.

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Os palestinianos aproveitaram para voltar a casa, mas algumas já não estavam lá Mohammed Salem/Reuters

Mantêm-se as negociações entre Israel e o Hamas para pôr fim aos combates que já duram há dez dias, mas as hipóteses de um cessar-fogo permanente parecem reduzidas. A acalmia chegou esta quinta-feira à Faixa de Gaza, mas apenas durante cinco horas de tréguas para fins humanitários — e nem mesmo este período foi respeitado.

As hostilidades foram suspensas entre as 6h da manhã (menos três em Lisboa) e as 15h, a pedido da ONU, um período que foi aproveitado pela população da Faixa de Gaza para se abastecer. Desde que o primeiro rocket foi disparado pelas Forças de Defesa Israelitas (IDF), a 8 de Julho, que as ruas do território controlado pelo Hamas têm estado desertas, com a população a evitar a todo o custo sair à rua. 

No entanto, mesmo o cessar-fogo temporário foi quebrado por ambos os lados. O exército israelita revelou, segundo a Reuters, que três morteiros foram disparados a partir de Gaza, ferindo um soldado que se encontrava perto da fronteira, o que motivou uma resposta do lado israelita. Ainda assim, os residentes de Gaza puderam juntar alimentos e outros bens e conseguiram reparar algumas linhas de abastecimento de água e de luz.

Poucos minutos após o fim do cessar-fogo, as hostilidades recomeçaram com um rocket a atingir a cidade de Ashkelon, perto da fronteira, segundo o IDF. Na resposta, um ataque aéreo israelita atingiu uma casa na cidade de Gaza, matando três crianças. Na véspera, tinham sido quatro as crianças mortas numa praia do território.

O Presidente israelita, Shimon Peres, lamentou o sucedido, justificando o ataque com relatos obtidos pelo exército de que naquele local havia “uma grande concentração de armas”. “Penso que [o ataque] não foi intencional e lamentamos muito ver quatro crianças a ser mortas”, disse Peres, numa entrevista à BBC. O exército israelita garantiu que vai lançar uma investigação ao incidente, mas manteve que, “de acordo com resultados preliminares, o alvo deste ataque eram terroristas operacionais do Hamas”.

Telavive tem acusado o Hamas de esconder os seus alvos militares entre a população civil e esta quinta-feira a ONU veio dar força a estas acusações. A Agência da ONU para o Apoio aos refugiados Palestinianos revelou ter encontrado 20 rockets numa das suas escolas em Gaza e “condenou veementemente” o grupo que as colocou nesse local.

Entretanto, continuam no Cairo as negociações entre o Governo israelita e o Hamas, mediadas pelo Egipto, para alcançar um acordo que leve ao cessar-fogo definitivo. Ao início do dia foi noticiado que as tréguas estavam muito perto de serem acordadas, mas ambos os lados vieram refrear essa expectativa.

Um oficial israelita havia dito que um cessar-fogo permanente teria início na sexta-feira, mas o ministro dos Negócios Estrangeiros, Avigdor Lieberman, veio afirmar que essa notícia era, “de momento, incorrecta”. Um porta-voz do Hamas negou igualmente as mesmas notícias, limitando-se a confirmar que “há esforços em curso” para um “entendimento global”.

O Egipto – que tem apostado forte no seu papel como mediador internacional – propôs na terça-feira um cessar-fogo permanente, obtendo o apoio de Israel. No entanto, o impasse mantém-se porque o Hamas insiste em manter algumas condições. O grupo islamista que controla a Faixa de Gaza pretende que sejam levantadas as restrições fronteiriças impostas por Israel e pelo Egipto ao território de 1,8 milhões de habitantes e quer uma libertação de prisioneiros.
Washington prometeu, por sua vez, que iria intensificar os esforços diplomáticos durante os próximos dias para colocar fim ao conflito que em apenas dez dias já fez mais de 200 mortos do lado palestiniano e deixou 18 mil desalojados em Gaza.