Na nova Ribeira das Naus, Lisboa reencontra a sua história e o Tejo

Manuel Salgado diz que "não é preciso ser-se bruxo para adivinhar que esta intervenção será muito premiada", enquanto António Costa frisa que há um prémio já conquistado: haver centenas de pessoas a apropriar-se deste novo espaço público em Lisboa.

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Para assinalar o fim da requalificação da Ribeira das Naus, a Câmara de Lisboa organizou uma visita ao local Miguel Manso
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Miguel Manso
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Depois de removida “a camada de esquecimento e de destruição” que a cobria há várias décadas, a Ribeira das Naus, em Lisboa, quer afirmar-se como um espaço de reencontro, não só com o Tejo, mas também com a história da cidade. A Doca Seca está agora a descoberto, a Doca da Caldeirinha foi retomada e permite, através de um passadiço em madeira, a ligação ao Terreiro do Paço, e os relvados que evocam as rampas outrora usadas pelas embarcações atraem já centenas de pessoas.

A conclusão da segunda fase da obra de requalificação da Ribeira das Naus foi assinalada ontem, numa visita ao local, com a presença do presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, e de vários dos seus vereadores. Além das dezenas de convidados que marcaram presença nesta iniciativa, muitas outras pessoas houve que ali se deslocaram, não para assistir aos discursos de ocasião, mas para usufruir de tudo aquilo que este novo espaço público tem para oferecer.

Deitados na rampa em pedra que vai descendo para o Tejo, ou até com os pés dentro de água, a fazer a pé ou de bicicleta o percurso entre o Terreiro do Paço e o Cais do Sodré, sentados ou mesmo deitados em fato de banho nos relvados existentes, centenas de portugueses e estrangeiros lá estiveram, demonstrando que agora este espaço à beira rio plantado é também seu.

Dizendo-se “orgulhoso” do resultado final desta obra, o vereador do Urbanismo, Manuel Salgado, destacou a qualidade do projecto, da autoria dos arquitectos paisagistas João Nunes e João Gomes da Silva, dizendo que “não é preciso ser-se bruxo para adivinhar que esta intervenção será muito premiada”. O presidente do município foi igualmente elogioso, afirmando que há um prémio com o qual os autores deste “notável projecto” podem desde já contar: ver que há “centenas de pessoas” a apropriar-se daquilo que criaram.

Elogios à parte, Manuel Salgado admitiu que esta foi uma obra “bem mais longa do que se esperava” e agradeceu a “compreensão” da Marinha Portuguesa e dos cidadãos que se viram “prejudicados” por ela. No seu discurso, o autarca sublinhou “o quão difícil é mexer no chão de Lisboa” e a dificuldade que representa compatibilizar empreitadas como esta “com calendários, orçamentos e exigências do QREN [Quadro de Referência Estratégica Nacional]”.

“A relação com a Direcção-Geral do Património Cultural nem sempre foi fácil. Houve muitas paragens, avanços e recuos”, admitiu ainda Manuel Salgado. “No final, esta é uma obra que nos orgulha a todos”, concluiu.

Também um dos autores do projecto agora concretizado, e cuja primeira fase tinha sido inaugurada em Março de 2013, reconheceu que este foi “um demorado processo”, uma “odisseia”. Para João Nunes, a requalificação da Ribeira das Naus permitiu “remover uma camada de esquecimento e de destruição” que desde meados do século passado cobria esta zona ribeirinha.

O arquitecto paisagista sublinhou que esta obra permitiu “retomar um contacto muito directo entre os cidadãos e o rio”, mas também “retomar as geometrias e os espaços que antes existiam”. São disso exemplo a Doca Seca, onde desde o século XVII eram recuperadas embarcações e que está agora visível, e a Doca da Caldeirinha, uma estrutura que remonta a 1500 e que está hoje coberta de água, podendo ser atravessada através de um passadiço em madeira. A juntar a isso, em frente aos edifícios da Marinha, há dois novos prismas relvados, que evocam as rampas varadouro de outros tempos.    
Já o Chefe do Estado-Maior da Armada congratulou-se com o facto de ter sido possível chegar a um projecto que garantisse “a salvaguarda da segurança física e funcional da infra-estrutura de natureza militar”, sem comprometer a solução arquitectónica. Do presidente da Câmara de Lisboa, o vice-almirante Luís Macieira Fragoso ouviu ontem a garantia de que podia contar com o seu apoio para a criação, junto à Doca Seca, de um pólo museológico do Museu da Marinha dedicado aos Descobrimentos.

António Costa frisou, por sua vez, que “esta obra não é desligada de um todo”, devendo ser vista como “mais um contributo para a revitalização da Baixa”. Entre os trabalhos já concluídos nesse mesmo sentido, o autarca mencionou a requalificação do Terreiro do Paço, a nova sede do Banco de Portugal (na Rua do Comércio) e a “rede de elevadores” que ligam a Rua dos Fanqueiros à Costa do Castelo.

A visita à Ribeira das Naus contou ainda com uma cerimónia de entrega de medalhas de mérito municipal a quatro personalidades que, segundo António Costa, “deram um contributo excepcional para podermos ter uma nova relação da cidade com o rio”. Uma delas foi Natércia Cabral, ex-presidente da Administração do Porto de Lisboa, a quem o autarca agradeceu por ter posto fim a “longas décadas” em que entre as duas entidades tudo o que houve foi “contencioso e mau viver”.