A partilha de um segredo chamado Blarmino

O trabalho cénico de Rui Catalão parte dos temas da memória e da percepção do que é privado e público. Em Canções i Comentários, que estreia este sábado no Maria Matos, aborda Blarmino, um dos seus heróis musicais que passou ao lado do grande público, para reflectir sobre uma geração pós-25 de Abril que ou foi apagada ou se autoapagou do espaço público.

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Rui Catalão Patrícia Almeida

Um acto de resgate cultural. Um exercício de interpretação, escuta e encenação. Uma divagação pela memória recente de uma geração que nasceu depois do 25 de Abril. Uma história que nos interpela sobre a fragilidade das relações e sobre aquilo que entendemos como espaço público e dimensão privada. Ou uma experiência de teatro-crítica.

Canções i comentários, exercício teatral de Rui Catalão, à volta da música de Blarmino, projecto desenvolvido no final dos anos 1990 e primeira metade dos anos 2000 que passou quase despercebido do grande público, tem um pouco de tudo isso.

Inserido no 31º festival de Almada, o espectáculo é apresentado este sábado e domingo e na próxima terça e quarta, no teatro Maria Matos, em Lisboa. “Não existe nada mais terrível do que conhecer-se uma coisa que não se pode partilhar” diz-nos Rui, dessa forma acabando por enunciar uma das motivações para o presente trabalho. É que primeiro, como admirador, e depois, como amigo, ele seguiu o percurso de Blarmino e ainda lhe custa vislumbrar tanto talento e tão pouca visibilidade, nunca tendo chegado a editar um disco. 

E ouvindo-se hoje a música de Blarmino percebe-se que existia ali matéria digna de atenção, uma vontade de perfeição técnica, letras de densidade poética e uma flexibilidade surpreendente, que o levou em poucos anos a passar por três fases sonoras diferenciadas – da música de dança electrónica para a electricidade rock e deste para a folk acústica – sem nunca perder o seu centro mais criativo, a escrita de canções.

Foi o amigo Rui Cidra que na segunda metade dos anos 1990 lhe falou de um projecto de música de dança, os Spider, naturais de Coimbra. Os Spider eram Blarmino e Pedro Oliveira, que colabora com Rui no presente espectáculo. “Quando os ouvi achei logo que tinham da música de dança uma perspectiva intemporal, fora de modas, ao nível das texturas, das melodias e do ritmo. E as letras eram fabulosas.”

Ele, um apaixonado por música, ex-crítico musical, passou a segui-los pelo país, passando de admirador a amigo. “Quando conheci Blarmino discutimos bastante, porque eu achava que ele devia cantar em português. A música era personalizada, porque viajavam muito pela história da música, mas ao mesmo tempo conseguiam ter o som deles e não eram nada óbvios, mas ele continuou a optar pelo inglês, o que a nível comercial o deve ter fragilizado. Tendo ele letras tão poderosas, essa forma de comunicar perdia-se um pouco com o inglês.”

O percurso de Blarmino é idiossincrático. Quando os que o seguiam estavam habituados à sua música inspirada no tecno, começou a optar por uma direcção mais rock, acabando por finalmente, depois de uma viagem ao Nepal, optar pela folk.

A dinâmica do espectáculo joga com essas mutações. “Interessou-me reflectir sobre essas mudanças” diz-nos Rui. “Aliás ele está construído quase como uma conversa, onde apresento dez canções que espelham essas transições e onde o Pedro Oliveira tocará por cima das gravações originais. Na escolha das canções estive atento àquelas onde se sente um lado de retrato geracional e também marcas de identidade, na forma como Blarmino se relacionava com valores e pessoas.”

Na altura de tentar perceber porque é que Blarmino nunca suscitou atenção, Rui prefere não fazer julgamentos. Os primeiros anos da década de 2000 foram de grande convulsão para as indústrias culturais. Por outro lado é provável que o próprio Blarmino não tenha feito tudo para se promover. “Via os concertos todos e a minha admiração era grande. Para mim era uma questão de tempo até alcançar projecção. Mas a verdade é que também não existia assertividade na defesa do seu trabalho. Havia timidez e uma procura constante da perfeição, o que também pode resultar numa forma de medo.”

Durante dois anos – entrecortados por várias viagens – Rui partilhou casa com Blarmino e ainda hoje quando olha para trás sente que nunca conseguiu ter uma conversa séria sobre música com ele. “É uma pessoa encantadora, mas parece ter uma espécie de urticária com tudo o que é conversas sérias”, reflecte. “Quando era aflorada a música dele ou a carreira, arranjava sempre maneira de me pôr a ouvir uma nova canção e nunca chegávamos a falar do assunto verdadeiramente.”

“Ele emana confiança, mas há ali uma fragilidade na relação com o trabalho artístico que é desconcertante. Na relação com a música existe qualquer coisa que está para lá da compreensão. Nunca o consegui confrontar. Provavelmente não estava pronto para a exposição. É uma hipótese. Há pessoas que não se querem confrontar com crítica, escrutínios ou injustiças, acabando por não sair de uma espécie de bolha de protecção. Têm mesmo pavor só de pensar no assunto.”

Na folha informativa é dito que este é também um espectáculo sobre uma geração que nasceu depois do 25 de Abril e que parece cultivar o autoapagamento, apesar de Rui não ter uma explicação descartável que sirva de justificação. “Enquanto artista desencadeio uma provocação pública e depois o que tenho é a história desse rapaz, que pertence a uma certa geração, e a possibilidade de mostrar a sua música.  Mas o facto de expor isso não significa que consiga explicar de forma clara esse apagamento. Agora parece-me que é uma geração que teve poucas oportunidades. A peça tenta clarificar isso, mas do ponto de vista discursivo não o consigo fazer. A geração anterior teve trabalho, mesmo não sendo o que queria ter. A geração de Blarmino nem trabalhar consegue, com todas as questões de isolamento com que tem de se confrontar.”

Para além das questões sociais, políticas e económicas, existe também a própria relação de Rui com Blarmino, que actualmente, aos 37 anos, vive em Londres. É bibliotecário, tocando guitarra com uma banda de metal e bateria numa outra de pop britânica. Perdeu a veia de escritor de canções.

“Não teria conseguido fazer este trabalho se ele estivesse em Portugal”, confessa. “Mas a partir do momento em que não quis trabalhar comigo isso libertou-me e fui tomando decisões sobre o que iria tornar público. Isto mexe com ele. É como aquelas pessoas que colocam uma tampa num período da sua vida e neste caso foi a fase em que investiu mais na música.”

Agora Rui retira a tampa e entre as consequências desse gesto, está a hipótese da música de Blarmino chegar a mais pessoas. E até, quem sabe, ser revalorizada. “Não posso ter a pretensão de o afirmar publicamente, mas no fundo fiz esta peça por causa disso, porque não há nada mais terrível do que conhecermos uma coisa que não podemos partilhar.”

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