Muitas pessoas acham difícil ficar a sós com os seus pensamentos, sem fazer nada

Mais vale auto-administrar-se um choque eléctrico do que ficar inactivo, considerou grande parte dos participantes num estudo de psicologia.

A contemplação poderá ser uma experiência desagradável para a maioria das pessoas
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A contemplação poderá ser uma experiência desagradável para a maioria das pessoas Nelson Garrido

Meditar, sonhar acordado ou fazer introspecção durante alguns minutos, sem fazer mais nada, é algo difícil para a maior parte das pessoas, conclui um estudo norte-americano. Segundo os seus autores, a mania dos ecrãs seria disso uma consequência e não uma causa.

Várias experiências realizadas por psicólogos das universidades da Virgínia e de Harvard (ambas nos EUA), e cujos resultados foram publicados na revista Science com data desta sexta-feira, sugerem que a maior parte das pessoas prefere antes desenvolver uma actividade qualquer – que até pode consistir em se auto-aplicar ligeiros choques eléctricos – do que ficar a sós com os seus pensamentos.

A equipa realizou 11 testes junto de públicos diferentes – um pouco mais de 200 pessoas no total –, nomeadamente de estudantes e de pessoas com 18 a 77 anos. Os voluntários foram recrutados num mercado de rua e numa igreja. E em todos os casos chegou-se "ao mesmo resultado”, segundo um comunicado.

A maior parte das pessoas – a quem fora pedido para ficar sem fazer nada, numa sala vazia ou em casa, e para pensar durante seis e 15 minutos – declarou que a experiencia “não foi agradável e que teve dificuldades em concentrar-se”.

Uma grande maioria teria preferido fazer qualquer coisa, tal como ouvir música ou utilizar o seu smartphone. E de facto, um terço dos participantes “fez batota”, ao consultar o seu telemóvel ou levantar-se da cadeira.

E quando foi proposta como “actividade” a possibilidade de se auto-administrarem ligeiros choques eléctricos – indolores e previamente testado pelos psicólogos –, a maioria dos homens, mas não das mulheres, preferiu esta alternativa à inacção.

Os autores não atribuem estes resultados ao turbilhão da vida moderna nem à utilização crescente de smartphones e outros gadgets electrónicos. “Os utilizadores intensivos de telemóvel e de redes sociais não se sentiram mais incomodados do que as pessoas que os utilizam com menos frequência”, disse à agência AFP Erin Westgate, co-autora do estudo.

“A nossa obsessão com os smartphones e os ecrãs poderá antes ser o sintoma de um problema pré-existente [o facto de ser difícil ficar sem fazer nada] do que a causa do problema”, sugere esta cientista.

A introspecção, a meditação e a solidão têm sido regularmente praticadas ao longo da História, lembra Erin Westgate, citando Jesus, Maomé e Buda, mas “talvez se trate de um chamamento e não de algo nos vem naturalmente ou facilmente”.

Seja como for, a questão já gerou debate. Uma outra psicóloga, que não participou no estudo - Sherrie Bourg Carter, do Instituto de Ciências do Comportamento e da Lei (EUA), considera que “a sociedade recompensa aqueles que fazem várias coisas ao mesmo tempo” com os tablets e os smartphones.

“As pessoas começam a sentir-se menos incitadas a marcar tempos de ‘pausa’ ou a desempenhar uma única actividade de cada vez”, disse esta especialista à AFP.