Carlos Fiolhais acusa Governo de liquidar a ciência em Portugal

Físico critica duramente o ministro Nuno Crato e a Fundação para a Ciência e a Tecnologia após a divulgação das classificações dos laboratórios de investigação.

Carlos Fiolhais, físico da Universidade de Coimbra
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Carlos Fiolhais, físico da Universidade de Coimbra Sérgio Azenha/arquivo

O cientista Carlos Fiolhais considerou esta segunda-feira que a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e o Ministério da Educação e Ciência “estão a liquidar” a ciência em Portugal, criticando as classificações das unidades de investigação e os cortes de financiamento resultantes dessas classificações, anunciados na última sexta-feira.

O Governo “está a matar a árvore do desenvolvimento”, disse à agência Lusa Carlos Fiolhais, conhecido físico da Universidade de Coimbra, referindo que se “está a tentar criar uma política científica de alienação e de separação, onde reina a pura arbitrariedade”.

Carlos Fiolhais contestou os critérios utilizados pela FCT que levaram a que quase um quarto das unidades (ou laboratórios) de investigação, que tiveram classificação inferior a “bom”, ficasse sem agora um financiamento-base anual. “A classificação que está a ser dada é perfeitamente arbitrária e nem atende aos critérios de excelência da FCT”, sublinhou o físico, afirmando que as notas foram dadas “sem qualquer explicação, sem diálogo e sem conhecimento da realidade” de cada centro de investigação.

Na sexta-feira, a FCT anunciou que 71 unidades de investigação, de um total de 322 que se candidataram em 2013 a fundos públicos, não vão receber um financiamento-base nos próximos cinco anos. Estes são os resultados da primeira fase da avaliação das unidades de investigação. Os resultados da segunda fase deverão ser anunciados em Janeiro de 2015, revelando-se nessa altura que unidades serão classificadas com “excepcional”, “excelente” e “muito bom”.

Portanto, 251 laboratórios irão ter um financiamento-base, consoante a sua classificação, que irá de “bom” a “excepcional”. De acordo com as tabelas definidas pela FCT, uma unidade poderá receber entre 5000 e 400.000 euros anuais consoante o seu tamanho, os custos do tipo de investigação que faz e o resultado da nova avaliação.

“A FCT já não regulava bem. Tinha acabado com a história da ciência. Agora ensandeceu. Quer acabar com a ciência em Portugal. Quer acabar, por exemplo, com a física no Minho, no Porto e em Coimbra”, escreveu Carlos Fiolhais no blogue De Rerum Natura, de que é um dos fundadores, referindo-se a estas avaliações.

Este processo de avaliação, em que “há falta de transparência” na sua realização, “escolhe uns e os outros deixa morrer, condenados de forma sumária”, observou por sua vez à Lusa Carlos Fiolhais, recordando que, em Coimbra, o Centro de Física, resultado de uma fusão entre duas unidades de investigação “que tinham a classificação de ‘muito bom’”, pela FCT, ficou agora excluído de financiamento.

O Centro de Física Computacional e o Centro de Difracção de Raios X fizeram o que lhes foi pedido e juntaram-se num só centro, explicou Carlos Fiolhais, “e agora o Governo diz que não os quer e dispensa pessoas que trabalhavam entusiasmadas na sua área”.

“Não há lógica nenhuma. É uma embrulhada sem sentido nenhum”, sublinhou o físico, notando que a FCT, “que já teve direcções que prezavam a cultura científica, tem hoje uma gestão burocrática, feita por burocratas, que recorrem a folhas de cálculo”.

No blogue, Carlos Fiolhais disse ainda: “A mim, que apesar de saber pouco sei mais de física que a FCT (que não sabe coisa nenhuma de nada), parece-me antes que temos de acabar não com a FCT mas com esta FCT. O ministro da Ciência, Nuno Crato, demitiu-se há muito de o ser e agora, quando vê os ‘coveiros da ciência’, parece não querer fazer mais do que deitar terra para cima.” E concluiu: “A FCT e o ministro Crato estão a escrever uma página negra da ciência em Portugal, como que querendo voltar aos tempos da Inquisição. Não conseguirão, até porque em breve o seu tenebroso mandato político vai expirar.”

No seu entender, o recente processo de avaliação visa também potenciar a centralização da investigação. O Governo “não tem uma ideia de futuro para o país”, sendo que, com a actual política científica, “perde-se variedade, dispersão territorial e ligação ao ensino superior”.

“Não há confiança na política científica”, reforçou, lembrando ainda “a redução do número de bolsas” de doutoramento e pós-doutoramento anunciada no início do ano. A ciência era “uma das poucas áreas em que Portugal se aproximava da Europa”, mas as actuais medidas “só desbastam, podam e acabam com aquilo que existe”.