Learning from Barcelona

Entre resiliência e colonização (Lisboa esteve no lado da resiliência, Barcelona está colonizada) deverá existir um estado intermédio para a cidade europeia

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Em Bye Bye Barcelona demonstrava-se os resultados de mais de vinte anos de políticas de valorização urbana que, paradoxalmente, acabaram por transformar a cidade catalã num dos destinos mais desejados e vulneráveis do turismo massificado

Circulou recentemente pela redes sociais um documentário chamado Bye Bye Barcelona (Eduardo Chibás, 2013), onde se demonstrava os resultados de mais de vinte anos de políticas de valorização urbana que, paradoxalmente, acabaram por transformar a cidade catalã num dos destinos mais desejados e vulneráveis do turismo massificado. A transformação há muito que se sentia para além do fluxo permanente na Rambla. Desde as janelas com cartazes a dizer “I Hate Barcelona” até à contribuição de arquitectos, sociólogos, geógrafos, procurando alternativas a esta artificialização da vida quotidiana e ao abandono dos lugares. A comparação com Lisboa emergiu de imediato. Mas as diferenças ainda estão para além dos números e 2014 é um ano charneira. Um ano para pensar e aprender com Barcelona.

Ao contrário de Lisboa, em Barcelona o centro da cidade nunca deixou de estar habitado. A cidade histórica sempre incluiu um considerável espectro social de habitantes, apesar dos sucessivos processos de gentrificação. A vida de rua, de bairro, os mercados, o pequeno comércio e o arrendamento a uma população mais jovem conviveu com grandes obras de valorização do espaço público e de equipamentos culturais como o museu MCABA e o Centro de Cultura Contemporânea CCCB. Um dos hospitais principais da cidade está precisamente junto à linha de costa que gerou as novas praias. Foi aliás dessa complexidade entre princípio de realidade, afirmação da obra pública e desejo de posicionamento internacional que a cidade se alimentou e reinventou durante as últimas décadas.

O sucesso dos projectos e dos números produziu agora em Barcelona uma evidência, uma consciência, do perigo de destruição da vida real. Os preços dispararam, os moradores afastam-se, os comerciantes procuram todos o mesmo filão de negócio, o turismo mais exigente recua – fica apenas a homogeneização da massificação. A experiência do outro eclipsa-se. Hoje existem associações de moradores e grupos organizados que contribuem para pensar e contrariar o problema.

Os números relativos ao turismo em Lisboa no primeiro semestre de 2014 ainda não são conhecidos. Em 2013 foram cerca de 10 milhões de dormidas segundo o dados do INE. Isto significa várias vezes a sua população residente. Mas é evidente que em 2014 este valores vão atingir o pico positivo. Entre navios de cruzeiro, rotas low-cost, arrendamento de apartamentos, hosteis, hotéis, a cidade encheu-se de pessoas como talvez nunca tenha acontecido antes. E tudo isto acontece porque Lisboa é uma cidade singular pela sua densidade dos tempos históricos e arquitectura, pelo perfil afável dos seus habitantes, pelo seu clima, e, não menos importante, porque existiu um esforço político municipal nos últimos anos para a valorizar no seu domínio público evidenciando aquilo que a cidade tem de melhor permitindo uma economia emergente neste campo específico. Onde está então a vulnerabilidade de Lisboa face ao turismo massificado?

A sua vulnerabilidade está no facto deste processo encontrar um centro histórico em espera (de dimensão considerável e grande heterogonieidade patrimonial mantido pela inflexibilidade dos regulamentos que entretanto se flexibilizaram), perfeito para uma mono-tematização da sua estrutura urbana. É claro que este processo tem décadas e nunca foi possível reinventar o centro da cidade sem ser pela vertigem de uma ocupação única com retorno financeiro quase imediato. Onde antes existia pouca heterogeneidade é fácil fixar a absoluta homogeneidade.

Outro ponto de vulnerabilidade é também o facto de Portugal estar numa situação de profunda crise social e económica onde o valor do trabalho foi desvalorizado, onde a opinião pública não se faz ouvir e coincide com o abandono dos deveres da cidadania. Onde qualquer forma de negócio, ou oportunidade de trabalho, justifica os fins sem qualquer reflexão acerca dos meios. Muitos que criticam a massificação arrendaram as suas casas no centro, em versão short-rental, e mudaram de bairro. Mas isso também acontece porque para muitos é a forma de sobrevivência directa ou indirecta.

Agostinho da Silva defendeu que “A liberdade política é perfeitamente ilusória enquanto não se tem liberdade económica, pela coacção exercida por quem dispõe dos meios de produção, de transporte e de crédito”. Nesse sentido a crise pode conduzir a política a uma mera técnica de gestão de forças de mercado abandonando a sua capacidade de lançar reptos com a devida contribuição das várias áreas de quem pensa a cidade. Muitos pensarão que é ingénuo questionar a única actividade que demonstra vitalidade numa economia sem capacidade para gerar riqueza. Mas este é o momento de o fazer precisamente porque existe uma vitalidade conferida pelos números – e é inevitável que o turismo seja uma das formas de criação de riqueza em Portugal. Das palavras ocas que ressoam nos discursos institucionais podemos dizer que aasim fica um tipo de empreendorismo estereotipado e cai a inovação.

Ao contrário da afirmação corrente sobre a criatividade passível de emergir da escassez, neste caso podemos afirmar que a reflexão e a contribuição conceptual para um problema da vida urbana pode partir da abundância. O desafio passa pela contribuição dos arquitectos numa forma de pensar os espaços do turismo. Passa pela política capaz de fazer política afirmando, ou continuando a afirmar, em simultâneo o domínio do publico – escolas, centros de dia, lojas do cidadão, residências de estudantes, e, com alguma coragem, a habitação de interesse social. E também propiciando formas de conceber os hotéis e a sua relação com cidade. Ou apostando na criação de programas híbridos como hotéis-escola ou pólos das universidades mais prestigiadas (nacionais e internacionais) em lugares estratégicos onde possam gerar significado. Do vasto património municipal poderão emergir experiências que outras cidades ainda não tentaram.

A vulnerabilidade maior em Lisboa é que este processo de construção de uma indústria do turismo se realiza sem qualquer contribuição erudita e estratégica do ponto de vista programático de modo a tornar a cidade um destino capaz de sobreviver ao processo de consumo e extinção. O que ficará no dia seguinte?

Depois de décadas de turismo massificado no mundo ocidental sabemos que esta indústria destrói não poucas vezes a razão existencial do seu primeiro assentamento. Com os sistemas naturais de linhas de costa este processo de consumo e extinção é conhecido de todos – hoje o trabalho é reinventar essas cidades de praia. Mas quantas cidades europeias estão também no processo de se tornarem potencialmente cidades souvenir? Todos conseguimos apontar mais do que gostaríamos.

A nostalgia, como afirmou o filósofo Daniel Innerarity, é o mote do turismo de massas. O seu paradoxo reside no facto de o turista procurar partilhar a experiência de uma realidade que contribui para extinguir. Se por um lado permite uma economia ágil por outro actua como uma espécie infestante. Entre resiliência e colonização (Lisboa esteve no lado da resiliência, Barcelona está colonizada) deverá existir um estado intermédio para a cidade europeia.