O mundo é uma multinacional, chama-se ‘Existe, Lda.’

O primeiro vencedor do prémio Saramago andou arredio da ribalta literária. Não foi acto voluntário. “Voluntário foi não viver em Portugal.” Agora veio a Lisboa e publicou três livros, um deles um romance sem paralelo na literatura portuguesa.

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O romance A Máquina do Mundo foi escrito, durante três meses, quando o autor vivia em São Paulo, em 2006. A realidade do século XXI é mostrada como num jogo de computador José Maria Ferreira

Esta quase ausência de atenção por parte da comunicação social ter-se-á devido ao facto de Miranda ter tomado a decisão de não viver em Portugal. “A minha vida deu muitas voltas. Vivi em muitas cidades e muitas vidas diferentes. Mas isso faz parte da minha história pessoal”, disse ao Ípsilon.

Depois de ter passado alguns anos em Istambul, na Turquia, reside actualmente em Fazenda Rio Grande, no Brasil. “Vivo numa espécie de mato, a 30 quilómetros de Curitiba, a capital do estado do Paraná. Faço o que for preciso ser feito. Nunca fui professor universitário, hebdomadário ou persegui qualquer tipo de poder. Não quer isto dizer que seja contra quem é professor universitário, bem pelo contrário, mas não aconteceu comigo. Comigo aconteceu não saber onde vou estar e muito menos o que vou fazer. Se for preciso tocar guitarra, toco guitarra; se for preciso ensinar a ler, ensino a ler. Só agora, quase aos 50 anos é que tenho uma casa e alguma – pouca – estabilidade. Digo isto sem qualquer ressentimento ou mágoa, tão pouco o digo com algum estúpido orgulho, digo-o porque é assim.”

Nunca deixou de escrever. Desde que saiu de Portugal, publicou cerca de meia dúzia de livros (prosa, poesia e teatro). Agora esteve em Lisboa para o lançamento (pela editora Abysmo) de mais três, todos de uma assentada – o romance A Máquina do Mundo, o volume Todas as Cartas de Amor, e a colectânea de poemas Exercícios de Humano. Não é a primeira vez que publica num ano várias volumes, acontecera-lhe já em 1998, 4 livros. Mas desta vez foi para que pudesse estar presente nos lançamentos, pois não lhe seria possível vir três vezes a Lisboa em curtos intervalos de tempo. “Meses atrás, o João Paulo Cotrim [editor da Abysmo] veio a minha casa”, conta. “A intenção dele era editar-me o romance A Máquina do Mundo, mas depois deparou-se com o Todas as Cartas de Amor e quis também publicá-las, dizendo que seria uma edição dupla, com a lírica e a épica. Depois, já com ele em Lisboa, comecei um livro de poesia e escrevi-o em quatro meses, e ele convenceu-me a editá-lo.”

O romance A Máquina do Mundo foi escrito, durante três meses, quando o autor vivia em São Paulo, em 2006. A realidade do século XXI é mostrada como num jogo de computador. A personagem principal, Türker (também conhecido como “Camaleão”), uma espécie de James Bond turco, é um matador profissional, especialista em explosivos plásticos, a quem são dadas tarefas. De acordo com a dificuldade da missão, é-lhe atribuído um número de vidas, que vai perdendo de cada vez que comete um erro. As vidas só são recuperáveis de duas maneiras: de cada vez que a personagem se apaixonar com reciprocidade ou se inventar algo que não exista ainda no jogo. Ao longo do romance encontramo-lo em missão em Istambul, Chipre ou Hong Kong, sempre em cenários de thrillers. Mas Türker não é apenas um executante, tem ideias muito próprias sobre a violência, a tortura e a natureza do medo. “A minha violência começa sempre com palavras, com um discurso – nem que seja um simples ‘vai’, como se diz a um cão.” Daí não ser de espantar quando o ouvimos ter também pensamentos como este: “A beleza não anda de mãos dadas com o bem, contrariamente a ancestrais teorias. Entre o bem e o belo há um abismo imenso, infinito. Também não penso que sejam opostos; são duas linhas que caminham lado a lado e que nunca se encontram.”

Desde o seu primeiro livro de ficção, Um Prego No Coração, que Paulo José Miranda parece preocupar-se em entender aquilo a que chama “formas do tempo”, as formas narrativas que correspondem a cada período. No caso presente, o facto de o nosso mundo ter sido colocado num videojogo, é um truque narrativo que funciona bem, arrastando consigo a acção. É um mundo virtual que não é o oposto da realidade, antes a inclui. “Sempre pensei que a forma e o conteúdo de um tempo preciso têm algo que os liga de modo muito subtil”, afirma. “E neste nosso tempo, parece-me que uma das formas que pode dar conta dos conteúdos, que pode narrar com precisão e escândalo o nosso mundo é precisamente o jogo, que é simultaneamente prazer e alienação. Prazer e alienação é também, parece-me, a silhueta dos nossos dias. E hoje em dia o jogo é fundamentalmente jogo virtual, jogo de computador. As gerações mais novas do mundo estão ligadas à máquina.”

Tratado sobre a violência
A Máquina do Mundo é um romance muito singular e sem comparação na literatura portuguesa – se quisermos referir um título para o aproximarmos de uma família literária, esse será o magnífico Zona, do francês Mathias Énard – não apenas pelo imaginário mas pela violência que perpassa a acção alucinada. Paulo José Miranda diz que sempre leu mais filosofia, ensaio e poesia, do que romances. E ao nível da ficção as suas maiores influências vêm sobretudo do centro da Europa, de uma escrita mais reflexiva – não será por acaso que o livro abre com uma epígrafe do monumental ensaio de Elias Canetti, Massas e Poder.

O escritor Valério Romão, na apresentação do livro, chamou-lhe “um tratado de filosofia heterodoxa acerca da violência”. Paulo José Miranda parece concordar, mas nega qualquer fascínio pelo acto violento. Confessa, antes, “um fascínio pelo nosso mundo, um fascínio pelo humano, que faz história deixando sempre um rastro de violência.” E é também por causa disso que se pode dizer que o romance ensaia uma dissecação dos mecanismos do poder, qualquer que ele seja, sempre sustentado por uma qualquer forma de violência. “Podemos pensar que a violência e o exercício do poder acontecem apenas nas chamadas ‘altas esferas’, mas não. Há casos de quem usa esse pequeno poder para tentar chegar a um poder maior, um poder mais eficiente, mais político. Tudo isto são formas da violência na sua protecção do poder. É também disto que o livro trata, obviamente.”

O mundo, neste romance de Paulo José Miranda, funciona como uma empresa, a “Existe, Lda.”, uma multinacional da qual 90 por cento dos habitantes são assalariados e só o resto participa dos lucros. Os seus habitantes (nós) têm a ideia de que são livres, mas não passa tudo de uma estratégia de manipulação daqueles que realmente mandam. A realidade teima em sobrepor-se à ficção. Este é um livro que incomoda o leitor, não tanto pelas descrições de cenas violentas, mas por deixar a pairar aquele desassossego trazido pela possibilidade da tragédia. Os acontecimentos descritos no romance tiveram de facto lugar nos países referidos, e Paulo José Miranda confirma. “Alguns vi-os de perto. Mas obviamente que o livro tem um componente de imaginação, ainda que partindo do conhecimento de pessoas com quem vivi perto algum tempo.” O mundo é, obviamente, um lugar onde há mais pessoas preocupadas com a possibilidade de morrerem na hora seguinte, do que preocupadas com a literatura. “Na grande maioria desses lugares onde vivi nunca tive conversas literárias. As preocupações eram com a vida em si mesma, a sobrevivência. Infelizmente, com o tempo, a vida foi sendo cada vez mais o que me movia a escrever, ao invés dos livros e dos autores. Aconteceu assim, não foi uma escolha. Há quem julgue, e assim vive melhor, que aquilo que é descrito no meu livro não existe. Mas essa violência, esse desprezo pela vida humana existe mais do que literatura.”