Quem era Carmen Miranda? O Real Combo Lisbonense elucida

Mais do que um concerto, um espectáculo em torno de Carmen Miranda, a cantora luso-brasileira que julgamos dominar, mas que em parte continuamos por conhecer, quase 60 anos depois da sua morte. Este sábado, na Gulbenkian, o Real Combo Lisbonense reinterpreta o seu repertório.

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Este sábado, pelas 21h30, o anfiteatro ao ar livre da Fundação Gulbenkian vai-se encher de marchinhas, sambas e outros ritmos tropicais de balanço suave ou insinuante.

 Em palco estará o Real Combo Lisbonense, no contexto do festival Próximo Futuro, para reinterpretar canções de Carmen Miranda, a cantora luso-brasileira que nasceu em Marco de Canaveses, foi para o Rio de Janeiro, cresceu brasileira e nunca mais voltou à terra onde nasceu. Morreu há quase 60 anos e em grande parte continua a ser uma quase desconhecida para muitos portugueses.

Esse desconhecimento foi aliás uma das razões que levou o Real Combo Lisbonense a esta abordagem, diz-nos João Paulo Feliciano, músico, artista, editor e um dos fundadores do colectivo, ao lado do irmão Mário Feliciano. “É um pouco incompreensível esse desconhecimento para uma personagem que tem ligações a Portugal”, diz-nos João Paulo. “A questão não é se ela é portuguesa, brasileira ou americana, porque é tudo isso. Ela é Carmen Miranda, cidadã do mundo. Mas não faz sentido que tenhamos em Portugal uma relação tão próxima com a música brasileira em que toda a gente conhece Caetano, Buarque, Jobim, João Gilberto ou Elis Regina e uma figura maior da música brasileira, que por acaso também era portuguesa, continue em grande parte quase incógnita. Sim, algumas pessoas poderão conhecer uma série de canções, mas o seu repertório é vasto. E foi um dos motivos pelo qual embarcámos neste trabalho.”

O espectáculo é totalmente novo. Foi criado de raiz. E tem um princípio, meio e fim. Nesse sentido difere daquilo que a formação tem vindo a efectuar ao longo dos últimos anos, no sentido de recuperar o espírito das antigas orquestras, a partir de uma perspectiva actual. “O que fazíamos até aqui eram bailes, com repertório que podíamos ir misturando conforme a dança, digamos assim. Este não. Este é um espectáculo construído em torno do património musical da Carmen e daquilo que ela interpretou. Tem mais de hora e meia e uma forma não linear, não cronológica, mas faz um pouco a resenha do percurso e vida da Carmen, de forma não ilustrativa. No início temos coisas que podem remeter para a música que se faria em Portugal no princípio do século XX. Não é que a Carmen a tenha ouvido, porque foi para o Brasil com nove meses, mas há essa referência contextual, que vai até à Carmen mais globalizada que mais tarde viria a viver em Los Angeles, ao mesmo tempo que circulava pela Europa e EUA. O espectáculo faz um pouco essa viagem musical.”

Nessa jornada vão embarcar as cantoras Ana Brandão, Joana Campelo e Margarida Campelo e os músicos Bruno Pernadas, David Santos, Ian Mucznik, João Pinheiro, Mário Feliciano, Rui Alves, Tomás Pimentel e João Paulo Feliciano. Serão eles a reinterpretar o repertório de Carmen. “O mais difícil foi encontrar um registo de reinterpretação para aquelas músicas”, confessa João Paulo, “mas acabámos por encontrar o som, a instrumentação e a nossa abordagem. Era muito claro para nós, desde o início, que não somos músicos brasileiros, não temos a escola do samba e das marchinhas. Temos outra linguagem musical e outra prática. Mas isso interessava-nos, porque ninguém em Portugal tentou tocar aquilo. Tentámos encontrar um ponto a meio caminho entre o que são estes 12 músicos de 2014 e o que foram aquelas músicas nos anos 30, 40, 50.”

Em Setembro será lançado um álbum à volta das quase três décadas da história musical de Carmen, com edição da Pataca Discos, e em Outubro haverá mais espectáculos ao vivo, onde se poderão ouvir canções como Disso é que eu gosto, Saudade de você ou Sai da toca, Brasil, envolvidas por cuidado cénico, “porque este é um espectáculo que tem de ser agradável de ver enquanto se ouve.” Este sábado Lisboa será mais exótica.