A Améria Latina (não) é uma abstracção

Visão sobre a identidade, a história e a arte do continente estiverem em debate no jardim da Fundação Calouste Gulbenkian. À volta de um Totem e à espera do Próximo Futuro.

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Obra da artista brasileira Berna Reale DR

A América-Latina. A arte. O Brasil. O centro e a periferia. A violência. As ditaduras. Estas foram palavras evocadas e comentadas na mesa-redonda que inaugurou na sexta-feira a Festa da Literatura e do Pensamento da América Latina, na Fundação Calouste Gulbenkian.

Integrada no Programa Próximo, a conversa, realizada ao livre sob uma estrutura intitulada Totem, não terá originado a discussão desejada (o tempo e a agenda dos convidados não ajudaram), mas a informalidade do ambiente e a urgência das intervenções asseguraram o interesse e a curiosidade do público presente, num vaivém entre a língua portuguesa e a língua espanhola.

O moderador, o curador e professor brasileiro Luiz Camillo Osorio, foi o primeiro a tomar a palavra, afirmando a América Latina como uma abstracção. “Não há uma identidade latino-americana, mas várias. Não há uma arte latino-americana, mas várias. A América Latina é uma construção colorida. Estaremos aptos a afirmar a sua diversidade como um conjunto de vozes?”, perguntou. O curador abordou, então, as dicotomias universal/particular, modernismo/pós-modernismo, para reivindicar outra via. “Devíamos pensar numa perspectiva pluri-universal que dialogasse com a cultura global, devíamos propor uma pluri-universalidade”, sugeriu.

Mas existem obstáculos: a indiferença que pauta, por vezes, a relação do Brasil com os seus vizinhos – motivada pela identidade linguística do país ou pela inclinação “europeia” da sua arte (Hélio Oiticica foi citado) – e sobretudo na relação problemática que no continente ainda se constrói entre a sociedade e indivíduo. “Se o jogador europeu joga com a equipa. O jogado sul-americano joga com a bola”, disse Luiz Camillo Osorio. Contrariar ou interrogar esta metáfora, pensando as relações entre a arte e a sociedade, pode ser, no entender do curador, o desafio futuro dos artistas que trabalham no Brasil, na Argentina, na Colômbia ou no Chile.

Do Chile veio Carmen Romero, directora da Fundação Teatro a Mil, que assinalou na criação sul-americana a diferença na identidade a partir da política e da memória da repressão das ditaduras. Em seguida, focou-se na realidade chilena, dando a conhecer os progressos sociais e políticos do país, a ausência de medo no interior das novas gerações de artistas chilenos ou a defesa e o envolvimento do povo mapuche. Nesse retrato, ressaltou uma realidade contrária àquela que Portugal conhece hoje. De país de emigração, o Chile passou a ser um país de imigração. “Mas os desafio que se colocam são muitos”, lembrou, antes de anunciar o fecho de estruturas culturais chilenas por falta de apoios. “Este é um processo que pode ser interrompido”.

Violência e poesia

Outro mediador cultual chileno, Christian Ahumada, enfatizou as dificuldades que se colocam ao contexto da dança chilena contemporânea, sublinhando que existem várias Américas Latinas dentro de território chileno. Como Luiz Camillo Osorio, considerou problemática a categoria de uma arte latino-americana, mas defendeu a importância de uma força comum que agregue as diferentes sensibilidades da América Latina. E ofereceu um exemplo: o papel mediador da União das Nações Sul-Americanas (Unasaru) no conflito entre a Venezuela e a Colômbia.

A precariedade laboral dos artistas, a relação nem sempre pacífica com um público pouco familiar ou sensível a certas manifestações artísticas, o confronto com o passado político também foram assunto glosados. E por momentos, a descrição da cena artística chilena (embora centrada na dança) parecia a da cena artística portuguesa.

Foi com Christian Ahumada que a violência “entrou” na mesa-redonda: no Chile, os artistas “convivem” com os fantasmas da ditadura de Pinochet. Não os podem esconder e eles não se escondem.

A intervenção da artista brasileira Berna Reale, que explora amiúde nos seus trabalhos a violência, começou nos jardins da Gulbenkian, regressou a Belém (Amazónia) e saiu pelo mundo. Elogiou a relação entre o jardim e os edifícios modernos que descobriu na fundação, assumiu a condição periférica da sua cidade (Belém) e da sua actividade (só com 29 anos teve a oportunidade de visitar São Paulo) e rejeitou identidades definidas para as suas obras. “Venho da Amazónia e estou dentro da arte brasileira, mas a minha arte tem uma identidade muito grande, faz parte de um universo maior. Sinto isso quando visito países africanos ou falo com artistas africanos, os problemas, a violência são muito parecidos. Por isso, sinto que estou fora e dentro do Brasil e da América do Sul.”

Findada a divagação polémica, embora confusa, do artista colombiano Miguel Jara que denunciou a arte latino-americana como mais uma categoria promotora da mercantilização da arte, a mesa-redonda concluiria com a resposta enigmática de Luiz Camillo Osorio a uma pergunta da audiência. “O que as novas tecnologias podem trazer aos artistas, sabendo que as novas gerações só usam as novas tecnologias?” "Esta é a tecnologia”, disse, sorrindo e apontado para dois livros. E depois de colocar os óculos, o curador leu dois poemas. Um escrito numa língua nativa do Norte do Brasil, o outro em “portunhol”.