Jihadistas divulgam imagens de execuções em massa de soldados iraquianos

Governo garante ter recuperado a iniciativa e travado o avanço dos combatentes do ISIS. Atentado no centro de Bagdad levanta dúvidas sobre a segurança na capital.

Fotogaleria

Intensificam-se os esforços para travar o avanço das forças rebeldes do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS), que se instalaram no Norte do Iraque e numa rápida progressão têm vindo a conquistar terreno em direcção a Bagdad. O Exército do Iraque, apoiado por unidades de combate curdas e milícias populares xiitas, montou um cordão de segurança em torno da capital. Os Estados Unidos estacionaram o seu porta-aviões George HW Bush no Golfo Pérsico, e num gesto inédito, o Irão manifestou a sua disponibilidade para cooperar com Washington para garantir a segurança e estabilidade do Iraque.

As movimentações das tropas nacionais parecem, para já, ter surtido algum efeito no que diz respeito à protecção de Bagdad. Os extremistas do ISIS e os grupos sunitas armados que entretanto se juntaram à insurreição foram obrigados a abrandar o ritmo perante a oposição militar em redor da capital. As Forças Armadas iraquianas garantiam ontem que tinham recuperado a iniciativa contra os militantes, recuperando duas cidades a Norte da capital e “eliminando” 279 terroristas em 24 horas, informou o porta-voz do primeiro-ministro Nouri al-Maliki, numa conferência de imprensa transmitida em directo pela televisão.

No entanto, um atentado no centro de Bagdad no domingo de manhã mostrava que a muralha em torno do centro político maioritariamente xiita é tudo menos inexpugnável: um bombista suicida fez-se explodir, matando nove pessoas e deixando mais de 20 feridos – e a capital em ponto de ebulição.

A 50 quilómetros de distância, na localidade de Khlais, um centro de recrutamento do Exército nacional foi atingido por quatro morteiros, que fizeram seis mortos: três soldados e três voluntários que se apresentavam para o combate contra os sunitas, respondendo ao apelo do clérigo xiita , o xeque Abdulmehdi al-Karbalai. Segundo a Reuters, o sermão da última sexta-feira motivou “milhares de xiitas” a procurar os centros do Exército para “pegar em armas e combater os terroristas, defender o seu país, o seu povo e os seus lugares sagrados”, conforme pediu o líder religioso.

Mais a Norte, entre Mossul e a fronteira síria, a violência tomou conta da cidade de Tal Afar, onde convivem xiitas e sunitas mas onde a maioria é de origem turca. Os confrontos agudizaram-se quando os residentes dos bairros sunitas recorreram ao ISIS, acusando a polícia e as forças armadas xiitas de estarem a varrer as suas áreas com fogo de artilharia. Os extremistas reagiram entrando em força na cidade e deixando as tropas nacionais, em minoria, sem reacção.

Fonte governamental disse que o Exército se viu forçado a responder de helicóptero – um avião militar iraquiano foi afastado por mísseis antiaéreos do ISIS. “A situação aqui é desastrosa. Os tiroteios são intensos e a maioria da população está feita refém dentro das suas casas, não pode abandonar a cidade. Se os combates se prolongarem vamos ter um massacre de civis”, estimou à Reuters um dirigente local.

"Este é o destino dos xiitas"

Através do Twitter, os jihadistas do ISIS divulgaram uma série de fotografias que mostram esquadrões de execução em actividade, informando que tinham executado 1700 soldados do exército iraquiano. Nas imagens, cuja autenticidade foi confirmada pelo porta-voz do Exército iraquiano, general Qassim al-Moussawi, vêem-se dezenas de homens a serem conduzidos para valas comuns onde depois terão sido fuzilados. As legendas das imagens informam que os mortos eram desertores do Exército do Iraque, que foram capturados pelos insurrectos - segundo o general al-Moussawi, as fotografias foram tiradas na província de Salahuddin, onde ocorreram violentos combates. Os mortos, diz a BBC, serão soldados que se renderam aos islamistas e não desertores.

“Este é o destino dos xiitas que [o primeiro-ministro] Nouri al-Maliki mandou combater os sunitas”, lê-se numa das legendas. Outra mensagem esclarece que a execução dos soldados iraquianos foi uma acção de retaliação e vingança pela morte do comandante extremista Abdul-Rahman al-Beilawy, que esteve envolvido na captura de Tikrit e Mossul, a segunda maior cidade do país. As duas mantêm-se sob o controlo dos extremistas.

A verificar-se, de forma independente, a sua autenticidade, este não será o único crime de guerra cometido nos últimos dias no Iraque, advertiu a alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Navi Pillay, referindo-se a relatos já confirmados de outras atrocidades.

A agência da ONU para os Refugiados, e a Organização Internacional para as Migrações, voltaram a alertar para a periclitante situação humanitária em que se encontram os mais de 500 mil iraquianos que abandonaram a cidade de Mossul e outras localidades tomadas pelo ISIS e se estão a encaminhar para a região do Curdistão. Um responsável municipal de Erbil, Rizgar Mustafa, dizia ontem à radio Voice of America que mais de 110 mil pessoas tinham procurado refúgio na cidade, e “esse número deverá aumentar nos próximos dias”.

“Estamos a preparar-nos para receber um número grande de refugiados. Temos um plano, em coordenação com a ONU e organizações não-governamentais, para montar um campo de acolhimento para 3500 famílias. Mas a guerra na região não deve terminar tão cedo, pelo que corremos o risco de nunca sermos capazes de responder adequadamente às necessidades”, notava.