Bringing up baby

Com J'ai Tué Ma Mèreestreou-se em Cannes (2009). Com Mommy foi premiado no Palmarés (2014). As mães são o seu tema, mas agora está no lugar delas.

Foto

À pergunta sobre uma possível filiação ou reivindicação do património do “cinema gay” — o que quer que isso seja: Derek Jarman, o New Queer Cinema de Gregg Araki, Todd Haynes ou Isaac Julien, e ainda Bruce La Bruce...? —, Xavier Dolan respondeu numa entrevista que não lhe fora difícil fazer o coming out, que não era herdeiro de nada mas que sabia bem o que dizer sobre a crueldade das relações entre mãe e filho.

Tinha 20 anos quando, sem passar por curtas ou videoclips, se estreou com J’ai Tué Ma Mère (2009). Isso levou-o à Quinzena dos Realizadores de Cannes, numa daquelas sessões que ainda hoje faz vir à baila os longos aplausos finais, e iniciou-se aí uma relação do festival com ele, através do director artístico Thierry Frémaux, que foi parecendo assunto demasiado familiar, coisa entre eles. No passado houve outro “bringing up baby”, Gilles Jacob acarinhando o punk Lars von Trier, e sabe-se como acabou, com o filho a vandalizar a casa paterna, a matar o pai. Mas o Made in Cannes de Dolan teve contornos exasperantes, com cada reinvenção capilar do realizador/actor a desencadear mimos do calibre enfant terrible — foi apenas ponto de partida, já vamos no “neo-Fassbinder”, “starlette art et essai”, “diva hipster gay narcísica”, “flamboyantly coiffed Quebecois” — os cabelos não dão descanso... — “who put the auteur into hauteur”...

Os Amores Imaginários

, em 2010, e

Laurence para Sempre

, em 2012, fizeram Xavier passar para a Selecção Oficial, na secção Un Certain Regard,

Tom na Quinta

foi o

flirt

com a competição de Veneza 2013 e este ano Xavier, 25 anos, subiu à competição oficial da Croisette com

Mommy

— ao agradecer o Prémio do Júri, não mordeu a mão que lhe deu de comer, como Lars foi fazendo até ser açoitado (a declaração de persona non grata), e agradeceu a amamentação. Este regresso que viria a ser em grande, com sinais de entronização (prémio ex-aequo com o

Adieu au Langage

de Godard, cineasta que não conhece), era esperado tendo em conta os sinais que dera com

Tom na Quinta

: a gravidade foi algo que se sentiu pela primeira vez nesse filme, parecia um começar de novo, e agora a sério, realizador não apenas starlette — a forma como investe com os caracóis, louros para fazer

ton sur ton

com um campo de trigo, ainda participa de uma vertigem narcísica, mas Xavier abre-se à autodestruição, à violência.

Mommy

confirma esse sentimento de novo começo. (Peter Debruge, na Variety, escrevia que Dolan parece ter esquecido o que andou a “aprender” com os outros filmes, para encontrar a sua voz de cineasta.) Até porque, depois do filme em que matou sa mère, voltou a chamar Anne Dorval para mãe e Suzanne Clément para professora participante activa da crise que se gera entre a mãe e o filho que, desta vez, não é interpretado por Dolan mas por uma criatura de energia perigosa, irredutível, Antoine-Olivier Pilon — com quem Dolan filmara um videoclip para os Indochine, College Boy, onde já se notava um ar de família (certamente não procurado, Xavier diz-se ignorante cinéfilo) com o Malcolm McDowell de

Laranja Mecânica

e de If (caso específico do videoclip).

Essa ausência de Dolan como intérprete é decisiva: suspende qualquer tentação narcísica, o que é uma das conquistas de Mommy. O realizador traz a possibilidade de se olhar para Mommy como reescrita de J’ai Tué Ma Mère: argumenta que o filme de 2009 era sobre a complexa relação com a sua mãe, Geneviève Béatrice Dolan, e que a personagem da mãe do filme de 2014, Diane, nada tem a ver com ela. Ele é que sabe, mas isso não exclui que se olhe para aquele passado e para este presente: a autobiografia foi transcendida e deu lugar a algo de amplo e universal de que Dolan quer falar. A Mãe: é a relação que o obceca, ele que cresceu numa família monoparental, que só se reencontrou com o pai, o cantor e actor de origem egípcia Manuel Tadros, mais tarde. Por isso é que Manuel, aparecendo nos filmes do filho, com quem mantém relação “amigável”, tendo até relatado para a TV do Quebeque o sucesso na Croisette, é afecto não problemático, relação que “apenas existe”, pela qual Xavier nunca sentiu curiosidade. “É o tema que me inspira mais, a mãe. Se calhar porque tento vingar a figura das mulheres ou da minha mãe em particular. As mães são a minha coisa”, confirmou ao Ípsilon.

Mas isso é Mommy (estreia em Portugal no final do ano), isso ainda não era J’ai Tué Ma Mère/I Killed My Mother. É como se Mommy concretizasse o que ainda não era possível no primeiro filme, onde Dolan dizia coisas dolorosas (“Quando penso na pior mãe do mundo, não encontro ninguém melhor do que tu”) sobre uma relação paradoxal que é isto de “ter uma mãe que somos incapazes de amar mas incapazes de não amar”, isto de não deixarmos ninguém tocar na nossa mãe sob pena de matarmos o invasor e no entanto sermos capazes de contabilizar cem pessoas no mundo de quem gostamos mais, mas impunha à frente disso a insustentável leveza do narcisismo. Víamos, antes de tudo, Xavier a olhar para o seu filme, sem espaço para os outros, meros veículos. O seu emotivo discurso de premiado em Cannes, “temos esta profissão para amar e ser amados”, uma forma de dizer o que já dissera na conferência de imprensa, que o cinema serve para “vingar”, para fazer “o que a vida não nos deixa fazer”, é sinal de que talvez Xavier Dolan tenha encontrado o lugar do outro. Aconteceu a educação pelo cinema — está em Tom na Quinta, está em Mommy. Em Mommy está visível, por exemplo, o for que Dolan dizia estar invisível no título I Killed (for) My Mother. O cinema fez o seu trabalho, bringing up baby.

PÚBLICO -
Foto
"Mommy", o filme com que Dolan recebeu o Prémio do Júri em Cannes 2014