Entrevista

António Sartini: "A língua portuguesa está vivendo um momento muito interessante"

O Museu da Língua Portuguesa de São Paulo, no Brasil, está a preparar uma exposição interactiva em homenagem a Eça de Queirós. Ainda não há uma data exacta, mas o projecto é para avançar “com certeza”. A garantia é do director do museu, Antonio Carlos Sartini, que esteve recentemente em visita a Portugal. Em entrevista ao PÚBLICO, Sartini adiantou ainda que a exposição permanente do espaço cultural vai sofrer “uma grande reformulação” até 2016.

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Museu da Língua Portuguesa "tem uma média de 1500, 1600 visitantes por dia" Fernando Veludo/nfactos

Não é a primeira vez que o Museu da Língua Portuguesa dedica uma exposição a um autor português. Em 2010, o homenageado foi Fernando Pessoa. O museu é um dos mais visitados do Brasil e da América Latina. Desde a inauguração, recebeu mais de 3,5 milhões de visitantes. Algumas das marcas de todas as exposições são a interactividade e o recurso às tecnologias multimédia para a apresentação dos conteúdos.

Sartini acredita que a língua portuguesa está a tornar-se cada vez mais apetecível. Não só porque o número de falantes está a aumentar nos próximos dez anos, seremos 300 milhões no mundo , mas também por razões económicas. Há, por exemplo, o facto de reservas petrolíferas terem sido identificadas em territórios lusófonos. “A cada ano, o Brasil tem de exportar professores para a China, porque há um interesse do Governo chinês em que se fale cada vez mais português”, explica o director do Museu de Língua Portuguesa.

Foi veiculada na imprensa brasileira a informação de que o Museu de Língua Portuguesa, em São Paulo, estaria a preparar uma exposição sobre Eça de Queirós para o final de 2014. Pode dar-nos mais detalhes?
Não sei bem se será no final do ano. Ainda não há a data fechada. Este é um ano bastante atípico para o Brasil é um ano de Copa do Mundo e de eleições também. É um ano mais difícil em termos de captação de recursos [financeiros]. Muito provavelmente, a exposição de Eça de Queirós vai ficar para 2015. Isto é também para fazer as coisas com mais calma e tranquilidade. Temos aqui uma responsabilidade muito grande para com o Eça de Queirós e para com os nossos públicos, o brasileiro e o português, uma vez que o Eça é um património das nossas culturas. Já tivemos uma experiência anterior que foi a de trabalhar com [a obra do poeta] Fernando Pessoa e que foi muito bem sucedida. Criámos uma exposição de grande sucesso no Brasil e que, depois, veio para a Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, e foi eleita a melhor exposição do ano em Portugal. É uma responsabilidade muito grande e por isso não podemos ter pressa os projectos têm de amadurecer no seu tempo. Mas a exposição vai acontecer, com certeza absoluta.

No caso da exposição sobre Fernando Pessoa, foram convidados dois curadores um brasileiro (Carlos Felipe Moisés) e outro radicado em Portugal (Richard Zenith). A exposição sobre Eça de Queirós vai seguir o mesmo modelo? Já há nomes em cima da mesa?
A ideia é replicar o modelo anterior e ter sempre um especialista brasileiro e um português. Já temos alguns nomes levantados, mais ainda não está nada fechado.

A exposição vai explorar a relação de Eça de Queirós com intelectuais brasileiros?
Sem dúvida. Em todas as exposições em que são homenageados grandes autores, nós procuramos sempre apresentar ao público o que eles têm de mais interessante, ou seja, a sua obra. Se você pegar [por exemplo] nas nossas exposições [anteriores] – Guimarães Rosa, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Clarisse Lispector, Jorge Amado... –, você vai ver que nós sempre fazemos com que o nosso público entre no universo do escritor a partir da sua obra. Então esta nova exposição vai apresentar a obra do Eça de Queirós com essa familiaridade com os brasileiros.

Quais são os desafios de apresentar um autor português consagrado ao público brasileiro?
Acho que é importante pensarmos que o Museu da Língua Portuguesa é um dos mais visitados no Brasil. Desde a inauguração, tem uma média de 1500, 1600 visitantes por dia. Mais de 65% do nosso público são jovens estudantes da rede pública, jovens que nunca visitaram antes um museu. O Brasil é um país onde temos problemas muito graves de Educação. Menos de 4% da população tem hábitos constantes de leitura. Então quando você pensa em levar um nome como Fernando Pessoa, ou Eça de Queirós, para estes públicos, você está lidando com pessoas que não têm contacto nenhum com o autor e a sua obra. Podem ter ouvido falar – no caso do Eça de Queirós, houve uma mini-série muito famosa da Rede Globo, Os Maias.

Todo mundo já ouviu falar de Machado de Assis, mas ninguém leu, até porque infelizmente a escola apresenta Machado de Assis no momento errado, quando os alunos ainda são muito jovens. Há uma obrigatoriedade: você tem de ler o Machado de Assis porque ele é o nosso clássico. Então o museu tem de ter muito cuidado na hora de aproximar estes públicos dos grandes autores. A melhor maneira de apresentar um autor é através da sua obra. O caso do Machado de Assis é exemplar. O Machado de Assis é muito engraçado, ele desconstrói tudo, inclusivamente a sua própria obra. E é isso que nós levamos para o público. Dizemos: “Olha, o Machado de Assis, aquele escritor sagrado que criou a Academia Brasileira de Letras, na realidade ele era muito gozador, ele era um grande crítico, tinha um senso de humor maravilhoso”. Isto vai criando uma empatia muito grande do público com o autor. Com o Eça de Queirós é a mesma coisa. Temos de achar esses pontos de conexão entre o nosso grande público e os nossos autores.

O museu completa uma década de existência em 2016. O que estão a preparar para assinalar a data?
Os 10 anos são tão importantes como os 11 ou os nove. Um museu vai sendo construído no dia-a-dia. Constrói-se com várias camadas de acção. Temos as relações internacionais do museu, por exemplo, que são tão importantes como o trabalho junto da comunidade, do trabalho educativo e das exposições. Mas eu diria, para adiantar em primeira mão, que o que o museu prepara para os seus dez anos é uma grande reformulação da sua exposição de longa duração. O museu completa oito anos e meio com a mesma exposição [permanente]. Quando foi inaugurado, pouquíssimos museus se dedicavam a um acervo como esse. Nenhum outro museu se dedicava a um idioma – e nesse ponto nós continuamos pioneiros.

Não há um museu na África do Sul dedicado ao africâner?
Há, mas ele é muito distinto do Museu da Língua Portuguesa. Na verdade, é um memorial do africâner, de 1975. Tem uma finalidade política muito diferente do Museu de Língua Portuguesa; veio marcar um período muito angustiante da História da África do Sul. Então nós ousamos dizer que, enquanto museu com os nossos objectivos, a nossa tecnologia e maneira de expor, somos um museu único no mundo. Quando o museu foi inaugurado, não tínhamos parâmetro. O grande questionamento que nós tínhamos era: quanto tempo dura uma exposição de longa duração de um museu que trata de um património intangível mas ao mesmo tempo dinâmico?  Nós achávamos que [duraria] uns cinco anos. Mas já vamos com oito anos e meio e o nível de visitação e de ineditismo continua muito forte. Até 2016, o nosso grande trabalho vai ser renovar a exposição. Não vamos renegar o passado, apenas vamos introduzir novos conteúdos, actualizá-los, trazer novas tecnologias que sejam pertinentes à comunicação do nosso conteúdo.

Fala-se na possibilidade de o português tornar-se uma das línguas oficiais das Nações Unidas. Como representante máximo de um museu dedicado à língua, como vê esse processo? É um sonho ou uma possibilidade real?
Politicamente, é extremamente importante. O mundo da lusofonia caminhou bem nesse sentido. Temos aí o novo Acordo Ortográfico de 1990, que demorou muito tempo a ser implementado. No Brasil, desde o ano passado que a nova ortografia era para ser obrigatória e isto foi estendido até Janeiro de 2016. Estamos agora com duas ortografias. Eu sei que tem muita gente a favor e muita gente contra, mas politicamente é interessante. Isto permite que a língua portuguesa se torne uma língua oficial em organismos internacionais. A língua portuguesa está vivendo um momento muito interessante. O Brasil é um mercado em crescimento de 200 milhões de pessoas. Angola tem experimentado um crescimento económico astronómico, de 13% ao ano. Moçambique tem um crescimento um pouco mais moderado, mas também positivo.

Isto tem tornado a língua portuguesa mais apetecível?
Sem dúvida. Isto cria interesses em torno da língua portuguesa. Os chineses são excelentes comerciantes e pessoas “antenadas” com o mundo. Hoje temos mais de 20 universidades chinesas com cursos de Português. E o aumento do número de alunos na China é incrível. A cada ano o Brasil tem de exportar professores para a China porque há um interesse do Governo chinês em que se fale cada vez mais português. Há muitas reservas de petróleo que foram descobertas em território lusófono. Tudo isso tem criado um interesse económico muito grande e dá uma vitalidade enorme à língua. Acho portanto muito justo que esta língua se torne oficial nos organismos internacionais. É lógico que esse processo sempre gera descontentamentos [devido ao Acordo Ortográfico]. Mas para que ela seja oficial é preciso que seja coesa, pelo menos na sua forma culta, normativa. Ela não se tornou oficial até hoje porque há uma forma de escrever no Brasil, outra em Portugal... Para chegarmos a uma forma única, alguém tem de abrir mão de alguma coisa – e isso deixa as pessoas desconfortáveis. Mas eu tenho a certeza de que em pouco tempo as pessoas vão esquecer isso.

Como é que o Acordo Ortográfico “entrou” no Museu da Língua Portuguesa? De que forma isto ficou registado na exposição?
Eu não diria registado, o Acordo Ortográfico foi absorvido. Na realidade, sempre que existem acordos ortográficos, eles vêm reflectir a evolução da língua. Existem fenómenos que são muito mais importantes do que o Acordo Ortográfico. É por isso que você tem acordos ou reformas ortográficas que são um pouco melhores. Às vezes demoram 20 anos, às vezes 40 anos. De alguma forma, essa reforma vai oficializar alguma coisa que na prática já vinha existindo. Interessa-nos muito mais essa evolução natural, essa prática do que a cristalização trazida por uma reforma ou um acordo. Nós tivemos o cuidado de, quando o acordo foi assinado, encomendar um guia ao professor Ataliba Teixeira de Castilho, o nosso consultor linguístico, junto com as FMU [Faculdades Metropolitanas Unidas]. Esse guia foi distribuído para todas as escolas públicas do estado de São Paulo e para os 200 mil visitantes que foram [nessa altura] ao Museu da Língua Portuguesa.