Pela primeira vez um computador convenceu o homem que era humano

Programa de computador criado por dupla russa e ucraniana passou no teste de Turing.

Alan Turing é considerado o primeiro informático e o pai da computação
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Alan Turing é considerado o primeiro informático e o pai da computação DR
O programa de computador Eugene Goostman
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O programa de computador Eugene Goostman DR

O teste de Turing foi criado em 1950 por Alan Turing, matemático britânico considerado o pai da informática, sendo considerado um trabalho pioneiro no domínio da inteligência artificial. No teste, um computador entra em conversa com um humano (que não sabe se está a comunicar com uma máquina ou não). O teste é superado se o humano não conseguir perceber se estava a comunicar com outra pessoa ou com um computador. Se o computador for confundido com um ser humano mais de 30% do tempo em que duram as conversações escritas de cinco minutos, passa no teste.

Apesar de já ter sido tentado por várias vezes que um computador se saia bem-sucedido na prova, isso nunca tinha acontecido até agora, segundo reclama a Royal Society, considerada a instituição mais importante para a ciência britânica.

No último sábado, a Universidade de Reading organizou o Teste Turing 2014, onde participaram cinco programas de computadores, entre eles Eugene, desenvolvido em 2001, em São Petersburgo, Rússia, pelo russo Valdimir Veselov e pelo ucraniano Eugene Demchenko. Durante o dia foram realizadas 300 conversas através do teclado entre os computadores e os elementos do júri e Eugene conseguiu passar por humano, enganando 10 dos 30 dos elementos do júri.

“A nossa ideia era que ele [Eugene] pudesse afirmar que sabe tudo, mas a sua idade [13 anos] torna perfeitamente razoável que não saiba. Passámos muito tempo a desenvolver a personagem com uma personalidade credível”, explica Vladimir Veselov, num comunicado divulgado pela Universidade de Reading.

Durante este ano, a equipa que criou Eugene concentrou-se em melhorar o controlo de diálogo do programa que permite uma conversação seja mais próxima de uma entre humanos quando comparado com outros programas que se limitam a responder a questões. “No futuro, pretendemos tornar o Eugene mais esperto e continuar a trabalhar na melhoria do que chamamos conversação lógica”, acrescentou o russo.

Kevin Warwick, vice-chanceler para a Investigação na Universidade de Coventry, esteve no evento de sábado, e explica que apesar do teste realizado ser importante e o resultado obtido ser “excitante”, há questões que se levantam. “Ter um computador que consegue levar uma pessoa a pensar que alguém, ou mesmo alguma coisa, é uma pessoa de confiança é um alerta para o cibercrime. O teste de Turing é uma ferramenta vital para combater essa ameaça. É importante percebermos como online, uma comunicação em tempo real deste tipo pode influenciar um ser humano de uma forma a ser enganado e acreditar que alguma coisa é verdadeira, quando de facto não o é”.

Turing morreu há 60 anos
A realização do teste coincide com o 60.º aniversário da morte de Alan Turing, em 1954. Turing nasceu a 23 de Junho de 1912 em Londres. Em 1936 publicou um artigo determinante para o desenvolvimento da computação onde teorizou uma máquina muito simples que seria capaz de resolver qualquer problema matemático, desde que fosse capaz de ser representado sob a forma de um algoritmo. Tornou-se assim o primeiro informático e o pai da computação.

Mas o maior feito do matemático aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial, quando Turing trabalhou para o Governo britânico e desenvolveu uma máquina capaz de descodificar a Enigma – a poderosa máquina encriptadora que os nazis utilizavam para transformar as suas mensagens em códigos aparentemente não descodificáveis. 

O matemático não deixou de fazer ciência depois da Guerra, continuou a trabalhar em informática e até teorizou sobre temas como a metamorfose na biologia.

Mas, o final da sua vida ficou associado à sua orientação sexual. Turing era gay, uma ofensa e um crime no Reino Unido até 1960. Por causa de um assalto à sua casa, o matemático teve a sua vida pessoal investigada e acabou no banco dos réus, em 1952, onde foi dado como culpado por ter tido relações sexuais com outros homens. Foi castrado quimicamente e assim terminou o seu trabalho para o Governo.

Dois anos depois, o matemático foi encontrado morto na sua casa, com uma maçã trincada a seu lado. Tinha 41 anos. A autópsia mostrou que morreu envenenado por cianeto, que estaria no fruto, e que muitos dizem que é uma metáfora da história da Branca de Neve que sempre fascinara o cientista.