Como salvar um condomínio

A Lisbon Skyline Operation é um dos seis projectos na bienal. Reaproveita as coberturas como mais-valias para a reabilitação

JOSÉ MARIA FERREIRA
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JOSÉ MARIA FERREIRA
A mão direita de Ana Jara desenha uma curva no ar, que se endireita até fazer o ponto final. “Queremos colocar um ponto de interrogação sobre o que poderia existir aqui.” Aqui no ar de Lisboa, sobre cada edifício do centro da cidade que queira uma cereja no topo. Jara e Lucinda Correia, do atelier Artéria, levam à Bienal de Arquitectura de Veneza um projecto que olha para Lisboa de cima para baixo e que quer aproveitar os espaços de inércia que são muitas coberturas, terraços, últimos pisos da cidade. Tem nome de arranha-céus espelhado de metrópole endinheirada, esta Lisbon Skyline Operation (LSO), mas é afinal “uma operação urbanística, uma proposta”, diz Ana, “uma estratégia”, completa Lucinda. Uma ideia no ar há cerca de dois anos, com o amigo advogado Tiago Pescarreta e outras mentes a pensá-la, para reabilitar e rentabilizar as coberturas do centro de Lisboa. Um investidor externo ao condomínio de um edifício paga para intervir na sua mais elevada área comum, revertendo as receitas para obras de benfeitoria do prédio. Em tempo de crise, a quota que se deve às escadas, aos elevadores, aos terraços e aos átrios que embrulham os favos das colmeias onde vivemos “é se calhar a primeira despesa que não é paga”, reconhece Ana Jara, pelo que há muitos condomínios em apuros. O projecto chama-se LSO porque “Lisboa não é Amesterdão, é Lisboa”, postula Ana Jara. É um projecto para esta cidade que até há pouco tempo não tinha esplanadas a condizer com a quantidade de rio, de sol e de promontórios que a sua morfologia ondulante lhe dá. Uma cidade com “um relevo e uma topografia que permitem que os últimos pisos sejam visíveis e que possamos ver deles”, muitas vezes, “vistas deslumbrantes”. Isto, a juntar a uma “estrutura jurídico-urbanística que tem por base os edifícios em propriedade horizontal com últimos pisos como área comum, que é um conceito muito particular, de pertença a todos”, explica Ana, criou as bases para este sonho que é mapear os telhados da cidade, juntar investidores e condomínios e diversificar. “Polifonia”, pede Lucinda Correia. Nuns podem refazer-se as antigas casas das porteiras, noutros criar hostels, um bar, um atelier ou até “casas panópticas”. O condomínio, e em última análise a cidade, beneficia do que esses investidores pagarem pelo uso do espaço, legalmente acautelado pela figura do direito de superfície, que permite o usufruto por terceiros de uma área comum durante um prazo determinado, e enquadrado no Plano Director Municipal, que “diz que é possível e desejável mudar coberturas”, esclarece Ana Jara.  Uma espécie de “condomínio maduro e bem intencionado, com dificuldades financeiras, procura investidor sério para convívio durante período a definir”, portanto. Ou seja: o desejo de juntar duas partes para um final feliz, inscrito no site www.lisbonskyline.pt, na mesma lógica das “concessões de praia” — com uma duração fixa e um pagamento pelo uso daquele espaço.

Cidade a vários níveis

Hoje, ver uma cidade de cima com olhos de pássaro é ter satélites no desktop e no telefone, visões Google da geografia humana, dronesque mostram que a quinta fachada de Lisboa, a cobertura, não mudou muito no último século. Telhados, mansardas, trapeiras, águas-furtadas, terraços. “Continuamos a fazê-los como nos séculos XIX ou XX”, explica Ana, que gostaria que a LOS produzisse “uma Lisboa do século XXI”. Introduzindo factores ambientais, “densificando a cidade, mas de uma forma delicada, sem intrusões” no que torna a tipologia do centro tão especial. “Há um enorme ponto de interrogação sobre isto, com cuidado e com respeito”, repete.A LSO chega hoje a Veneza como uma de várias News from Portugal no primeiro número do jornal que concentra a representação portuguesa, e a sua evolução será reportada nos dois números seguintes — para já, há um condomínio e um investidor a negociarem. Focadas em bairros como a Pena, o Bairro das Colónias, a Graça e a Colina de Santana, o projecto trabalha “um território paralelo”. “Os últimos pisos podem ser um território onde a cidade vive — se pensarmos num Blade Runner, a cidade desenvolve-se em vários níveis”, lembra Lucinda Correia. “O desafio que levamos para a bienal é um desafio importante para a disciplina. Pensar as coberturas é fundamental” no tema da bienal Absorbing modernity — 1914/2014. Ana e Lucinda esperam que a ideia se torne viral e sublinham que é reabilitação “literalmentetop-down” e que, socialmente, “mantém a mesma estrutura” dos edifícios que pode tocar, porque nada muda para os moradores. A não ser o que eles quiserem.