Voz e violão em onda nova

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Leo Aversa

O espectáculo que nasceu em Portugal com "Olhos de Onda" levou Adriana Calcanhotto a um novo patamar interpretativo, com o violão mais grave e a voz a ecoar o vibrato dos blues

A onda abriu os olhos de Adriana mas também o canto e a forma de tocar violão. Desde a estreia do espectáculo Olhos de Onda na Culturgest, a 14 de Abril do ano passado, até ao dia 1 de Fevereiro de 2014, data do registo que agora é editado em CD e DVD, muita coisa mudou. O violão está a tender para os graves e médios graves, tem uma presença física maior. E a voz recorre mais ao vibrato nos finais das frases, à semelhança dos blues. Ouçam-se Três ou, com maior relevo, a versão deBack to black, de Amy Winehouse, com ecos vocais de Billie Holiday. “Achei sempre a Amy uma autora, uma artista, extraordinária, e acho esta canção, especificamente, uma das maiores de todos os tempos, é incrível!” Mas isso só explica a atracção pela canção, que Adriana Calcanhotto absorveu entre outras que, como diz, gostaria de ter escrito e não escreveu (por isso as canta, e recria, tornando-as suas).

O som do violão e as mudanças vocais, por seu turno, não são racionalmente explicáveis: fazem parte de um processo que se desenrolou depois do regresso ao instrumento, do qual esteve muito tempo afastada devido a uma complicada lesão na mão direita. “É uma coisa que está a acontecer”, diz ao Ípsilon. “Eu fiz o concerto Olhos de Onda em Porto Alegre e o crítico Juarez Fonseca comentou: ‘Ela é tão louca por Portugal que agora estava fazendo uns vibratos de fado’.” Adriana espanta-se ao falar disto, porque os vibratos a que ela agora recorre e que lhe dão uma outra densidade dramática à voz pouco ou nada devem ao fado. Tal como pouco ou nada deverá ao fado a forma como soa e vibra agora o seu violão, feito corpo vivo. “Eu não sei se é por causa da mudança do violão, depois da paragem, mas tenho sentido mais a necessidade de graves. Estou afinando o violão em mi bemol e já pensei até em fazer um violão para mim, mais grave, numa outra afinação.”

No palco, com os ouvidos e os olhares centrados nela, voz e violão como em Público (o registo ao vivo de 2000) mas a transpirarem a emotividade física de sons à flor da pele, Adriana “é” onda até no verde marinho dos tecidos que veste. As canções? As águas que escolhe. E que vogam por vários discos (desde Senhas, de 1992, até O Micróbio do Samba, de 2012) ao sabor das marés do seu pensamento. Antes de Back to black, por exemplo, ela canta Me dê motivo, do repertório de Tim Maia (cantor de voz possante e extraordinários graves), depois de revisitar Maré (2008) em Três, Para lá e Sem saída e de cantar Olhos de Onda, inédita escrita a pensar em Portugal e estreada em Lisboa, precisamente na Culturgest.

Não é a única inédita deste lote, há outras: Motivos reais banais, com poema de Wally Salomão (Mariana Moraes, neta de Vinicius, gravou-a num disco seu); Maldito rádio (há um aparelho de rádio no palco, em busca de sintonias no momento: “Em cada lugar há uma rádio naquela hora que nunca vai ser igual e isso passa pela malha, pelo acaso, por alguém falando, um anúncio…”); E sendo amor (“Foi composta há dois ou três anos em Londres, fiz sem nenhum projecto mas tive ciúme de mandar para outro cantor e guardei para mim”); e, por último, Canção de novela: “Escrevi-a num desses momentos baixando a afinação, foi feita num violão de aço mas achei um jeito de fazê-la em violão de nylon. Foi feita de encomenda para uma novela, saiu numa colectânea minha no Brasil, mas eu nunca a tinha cantado numshow. Como desde que fiz a canção baixei a afinação, ficou perfeita para este show, porque não tenho que mexer em nada, já estou naquela afinação!”

As apresentações em Lisboa e no Rio de Janeiro, onde foi gravado o CD e DVD, diferem em pequenos pontos. “Abri a estreia aqui com o poema 7, de Mário de Sá-Carneiro, que como canção se chama O outro; no Rio, abro com O nome da cidade; em São Paulo foi outra coisa. A primeira canção é pensada para o lugar onde estou. E tenho gostado disso.”

Um convite decisivo

Nada disto teria sucedido, no entanto, se algo não tivesse mexido com ela num momento de hesitação. “É muito interessante esse processo. Eu estava fazendo fisioterapia e tocando guitarra eléctrica, muito alto, para voltar ao movimento sem fazer esforço. Porque me dei conta de que o violão tem um esforço que a guitarra não tem. Quando voltei para o violão, toquei uma canção inteira e a mão doeu. Pensei: tudo certo, posso tocar violão. Mas quero tocar violão? Ou está encerrada a minha carreira no violão e posso agora só cantar? Ou tocar tuba, qualquer coisa? Passei três dias pensando nisso, gostando muito dessa ideia de dar por encerrada a carreira de violonista. E aí recebi o convite da Culturgest. Então pensei: se vou parar não é agora. Vamos a Portugal, adorei o convite, pensar num concerto para uma sala que eu conheço… Aquilo foi virando um sonho, chegar o dia de tocar na Culturgest, onde já estive no palco, onde já estive na plateia...” 

Com esta fixação, Adriana esqueceu a desistência e voltou a tocar violão, com os resultados que vimos na altura (num concerto de boa memória) e com os desenvolvimentos que vieram depois e só agora nos chegam registados em disco. “Eu tinha esquecido o violão e comecei a pensar: não tenho mais que carregar uma coisa. Fiquei assim, para não sofrer. Mas depois que voltei, parece que o escolhi mesmo. E há uma coisa bem interessante: eu tinha sempre um violão extra, um clone, para se suceder alguma coisa continuar a tocar sem parar o show. E agora não tenho: é só este. Se ele se partir…” Isso até mandar construir um novo? “Mas se construir um novo vou com ele. O som que ficou é mais ou menos o que eu sinto com o instrumento ressoando no meu corpo. E é para continuar. Agora estou na estrada e estou adorando.”

 

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Adriana 
Calcanhotto
Olhos de Onda
CD+DVD Sony Music