Dominic Ebenbichler/Reuters
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Megafone

“Élections, piège à cons?”

Sim, façam como diz o tio Luís, se têm queixas atirem-nas para a caixa de comentários que a urna, a urna não é vossa

Desabafem na Internet, não nas urnas, ensina-nos o ínclito Marques Mendes (respiro fundo para não gritar…).

Quase 1000 anos de história em comum, 700 anos de feudalismo, 300 anos de Santa Inquisição e 40 anos debaixo do Botas. Chegamos a 1974 com uma agricultura medieval, uma indústria incipiente, 13 anos de guerra e 40% de analfabetos. Temos 18 meses revolucionários (fonte de todos os problemas da nação, segundo alguns) e decidimo-nos criar uma democracia nórdica e moderna entre a Galiza e Marrocos. A II República abana abana mas não cai, “entramos para a Europa” (sabem o Mário e o Ernâni Lopes como) e abrem-se as torneiras de Bruxelas apenas a troco de desistirmos da indústria (para os alemães), da agricultura (dos franceses) e da pesca (os espanhóis tratam disso). Mas o Zé Povo folga as costas na ida da vara, o tio Aníbal alcatroa a pátria, passamos a ter classe média, uma taxa de mortalidade infantil escandinava, já não se pode matar mulheres adúlteras legalmente, o liceu é para todos e adicionamos mais dois nomes à lista das 10 famílias a quem pertence o país.

Entretanto as “jotas” do Centrão regurgitam de candidatos ao poder, a prazo dar-nos-ão alegrias como o “engenheiro” Sócrates, o “economista” Passos ou o “gestor” Seguro; criamos uma nova elite política, cheia de barões e senadores para substituir o reumático a preto-e-branco de antigamente: rapazes que transitam escorreitos e impolutos entre grupos parlamentares, empresas públicas e conselhos de administração do sector privado; o “arco da governação” é martelado nas mentes até se tornar uma quase realidade constitucional, a social-democracia do PSD vai para a mesma gaveta que socialismo do PS e alguém deita fora o armário.

A diminuta “intelligentsia” também desiste, concentra-se a fazer “workshops” em New York, compras em Paris e a debater o sexo dos anjos que o antigamente de ir apanhar pulgas para sindicatos e comissões de moradores já chateava; discute-se antes porque é que o povo é burro em “wine-bars” do Bairro Alto e da Ribeira.

A corrupção e o compadrio (que não aparecem magicamente em 1974, como julgam os mesmos) grassam como bichos esfomeados, mais para roubar só significa maiores ladrões, que não há modo de extinguir a santa fome de ouro de alguns. Mas só o Isaltino é que é posto à sombra e mesmo assim Oeiras vota nele, antes o diabo que conhecemos.

Nisto tudo sai-nos uma divisa de ricos e mais um cíclico soluço do capitalismo financeiro e pimba: os banqueiros que ontem nos ensinavam a cartilha do “menos estado melhor estado” estão hoje à mama a nacionalizar os prejuízos das suas falcatruas bolsistas.

O Zé Povo nem tem tempo de notar o paradoxo antes de ser carimbado como mau aluno pelos alemães e de levar com vagas de deputados da maioria, economistas da TV, comentadores do Diário Económico (e a tia Jonet a cavalo para compor o ramalhete) a fazerem coro para nos explicarem como a culpa do estado da nação é de nós termos um telemóvel de cada rede e desperdiçarmos água a lavar os dentes. 23% de abandono escolar precoce, 15% de desemprego (mais de 34% antes dos 25 anos), 300 “portugueses no mundo” por dia todos os dias dos últimos dois anos e ainda temos que levar com o relógio do Paulo, as hesitações do Tózé, a comemoração do fim do saque do Pedro, a absoluta necessidade de consenso do Aníbal e o Abrunhosa a chorar pela mãe.

Sim, façam como diz o tio Luís, se têm queixas atirem-nas para a caixa de comentários que a urna, a urna não é vossa.