Berlim, uma cidade que não quer ser só para alguns

No centro do poder europeu, há quem não tenha dinheiro para viver na sua cidade de sempre. As rendas sobem e as expulsões aumentam. Em Berlim, o tema é a gentrificação.

Berlim está em guerra contra os senhorios que estão a tornar as rendas insuportáveis, contra negócios imobiliários que estão a tornar bairros em centros elitistas, contra os alemães do Sul que com o seu dinheiro compram os apartamentos que há para comprar, contra os turistas que vão beber os seus latte macchiatos nos cafés caros.

Num semáforo, um autocolante transforma o famoso “I love NY” com uma cruz em cima do coração: “Berlim não gosta de ti” ou mesmo “Berlim odeia-te” é a mensagem.

“Como é que vocês dizem gentrificação lá em Portugal?”, pergunta Lucie Matting, estudante alemã de origem brasileira, activista no colectivo berlinense Kotti & Co. A resposta não é fácil: discute-se muitas vezes se o termo gentrificação já entrou no léxico comum ou não. No Brasil, onde o problema se agudizou com encarecimento da vida provocado pelo Mundial que está quase a começar, é “elitização”, conta Lucie. No fundo, o fenómeno é o mesmo em todo o lado. A culpa não é dos turistas. É de uma lógica de investimento na cidade em que quem tem os apartamentos quer ter lucro.

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Lucie Matting Joana Bourgard

Estamos em Kreuzberg, à saída do metro, numa praça com um ar decadente mas que agora toda a gente procura. Antes ninguém queria morar aqui. A proximidade do muro que dividia a cidade da terra de ninguém, os prédios todos iguais, a atmosfera decadente. Os preços eram baratos – e foram os imigrantes, especialmente turcos, que foram morar para Kreuzberg. Os anos passaram, as antenas parabólicas foram aparecendo como cogumelos em muitos dos prédios, estes imigrantes começaram a ter família. A vida do bairro tornou-se ainda mais viva com a chegada de quem vinha aproveitar as rendas baratas – jovens, artistas, etc. Começaram a surgir os cafés, restaurantes, as rendas começaram a subir… E Kreuzberg começou a ser paragem obrigatória para todos os que queriam ver a Berlim multicultural. Agora tem galerias, grandes graffiti de artistas como Os Gémeos ou Blu, e já ninguém tem dinheiro para lá morar. Passou-se em Kreuzberg, agora está a passar-se em Neukölln, o dominó da gentrificação continua a seguir.

Mas é em Kottbusser Tor que o protesto contra a subida das rendas se solidificou, na forma de uma casa, chamada Gecekondu, um piscar de olho à influência turca – a maioria das famílias que estão ameaçadas pelos aumentos das rendas são de origem turca. O protesto dura já desde Maio e não dá sinais de parar. A casa foi feita inicialmente de apenas duas paredes, mas com madeira e pedaços tirados daqui e dali parece estar ali para ficar.

Quando falamos de números, encontramos situações muito diferentes. Diz Lucie: “Varia muito conforme o ano do contrato. Mas um exemplo: uma família com três filhos que vive numa casa de 80 m2 estava a pagar 450 euros há uns sete, oito anos, e hoje pedem-lhes 900 ou 1000 euros”.

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Berlim Joana Bourgard

Isto não acontece só aqui, claro, mas por toda a cidade. Martin Hagemeier, 37 anos, vivia em Mitte a dividir um apartamento com um amigo. Cada um pagava 240 euros por quarto. Em 2010, o novo dono pediu mais 100 euros por quarto. “Não achei justo”. Ele saiu para criar a sua própria solução de habitação, já lá vamos.

Matthias Coers, 45 anos, um dos realizadores do filme Mietrebellen (que fala da rebeldia de inquilinos), que encontrámos numa manifestação contra o aumento dos preços das rendas, em Kreuzberg (onde haveria de ser?), divide um apartamento com um amigo e o irmão há cinco anos. “De repente, a renda aumentou 85%” – tudo porque o dono decidiu fazer obras de renovação, e agora estão com uma renda de 950 euros.

As obras de renovação, particularmente as “verdes” de que a Alemanha tanto gosta, estão a ser cada vez mais um pretexto para os investidores que compram prédios com inquilinos subirem depois as rendas. Vidros triplos, aquecimento mais eficiente, etc. trazem depois aumentos de renda, muitas vezes superiores a 100%.

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Matthias Coers Joana Bourgard

O que é grave em Berlim é que a cidade assenta mesmo no mercado de arrendamento. Em 2011, apenas 15,6% dos habitantes tinham casa própria (um número bem abaixo da média alemã, de 53%). Uma esmagadora maioria de 85% alugam casas.

O debate tem ficado marcado por casos dramáticos. Há pouco mais de um ano, Rosemarie F. (não é dado o apelido) morreu de causa desconhecida dois dias depois de ter sido expulsa de casa por não conseguir pagar a renda, num caso que foi tomado por activistas como exemplo máximo do que pode acontecer a quem é obrigado a deixar a casa onde viveu toda a vida. Ottmar Mayer foi um caso mais discreto. A viver num apartamento de Prenzlauer Berg ameaçado por um aumento de renda de mais de 300% (de 370 euros para 1200), Mayer morreu devido a um problema de coração a meio de todo o processo (vários inquilinos puseram o caso em tribunal).

Matthias Coers diz que no seu documentário encontrou casos extremos, como o de “uma reformada que por vezes tinha de escolher entre ligar o aquecimento ou comer”.

Martin Hagemeier fartou-se de estar à mercê dos investidores e vive agora em Wedding, uma zona multicultural como Kreuzberg mas que não teve a explosão de galerias de arte-bares cool-restaurantes, numa casa que é também um panfleto político.

PÚBLICO - Manifestação em Berlim contra contra a expulsão de inquilinos que não conseguem pagar a renda
Manifestação em Berlim contra contra a expulsão de inquilinos que não conseguem pagar a renda Joana Bourgard
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Ainda é preciso andar uma boa meia hora depois de sair da paragem de metro até começar a procurar a morada indicado por Martin. Uma rua, comprida e sem marcas especiais, alonga-se em prédios repetitivos.

A dada altura, surgem jardins como aqueles nos arredores que serviam para as famílias alemães darem largas ao seu amor pela jardinagem e cultivo. O número indicado parece um estaleiro, com sacos de cimento e carrinhos de mão. Descrentes, entramos, e é mesmo ali: há obras de renovação.

Os sapatos, sujos do pó, ficam ao lado da porta, como em qualquer casa alemã. Martin serve chá enquanto explica que os donos/arrendatários daquela casa (que para complicar são na verdade três casas) criaram uma empresa e é a empresa que compra a casa, e por sua vez a arrenda aos sócios. Assim, são donos e arrendatários ao mesmo tempo.

Esta é um dos projectos no âmbito do Mietshäuser Syndicat, que tem outros 40 por toda a Alemanha.

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Martin Hagemeier Joana Bourgard

Pontos-chave: ninguém pode vender a sua parte (para evitar a motivação do lucro), e o colectivo decide quanto cada um paga de renda conforme o seu rendimento. A renda serve para pagar o empréstimo, que foi gasto maioritariamente nas obras de renovação.

Claro que nem tudo são rosas, diz Martin, que se define como um filósofo desempregado e que após o doutoramento está a receber subsídio de desemprego. A auto-organização leva muito tempo. E viver em conjunto traz os seus desafios.

Aqui vivem “onze adultos e quatro crianças”. Estamos na casa que é a área comum, a cozinha/sala de jantar/sala de estar. Na parede, há folhas de papel: um horário com divisão de tarefas e um questionário que foi a base para uma das últimas reuniões que pretendia ver o sentimento do grupo na vida do dia-a-dia e no modo como as decisões da casa são tomadas.

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Martin Hagemeier Joana Bourgard

Viver assim não é para todos, reconhece Martin. Há muito interesse por organizações deste género quando os custos das rendas se estão a tornar insuportáveis. Mas na maioria dos pedidos de informação que recebem no Mietshäuser Syndicat de Berlim, as pessoas querem sobretudo a parte do financiamento e encontrar casas baratas… e já quase não há.

A ideia original é um pouco mais ambiciosa: “Este é um projecto político”, sublinha Martin: “Lutamos por casas baratas para todos.”

É o mesmo objectivo do protesto Kotti & Co. Não se trata apenas daquelas famílias ameaçadas de expulsão e do seu problema ligado sobretudo à privatização das empresas de habitação social que detém os edifícios em causa, diz Lucie. Trata-se de uma discussão alargada sobre o problema da habitação social.

Na casa Gecekondu, perto do samovar com chá quente, está um livro de turnos para assegurar que há sempre gente ali, e tem havido, desde Maio. As pessoas afectadas trabalham, por isso o protesto continua com outros berlinenses que se solidarizaram.

O movimento alargou-se muito e tem contribuído para a discussão da questão da habitação – não só criticando mas fazendo estudos sobre o tema e propondo soluções que não criem mais problemas do que os que resolvem. Ganhou também apoio de vários académicos

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Casa Gecekondu Joana Bourgard

Andrej Holm, sociólogo da Universidade Humboldt de Berlim que tem um blogue sobre gentrificação (http://gentrificationblog.wordpress.com), dá crédito ao Kotti & Co por ter começado um debate sério sobre o tema da habitação municipal, ausente da política da cidade até 2011. “Agora, há discussão sobre o papel preciso das associações de habitação municipais, até sobre onde é preciso construir.”

Por exemplo, aqui em Kotti, as rendas já ultrapassaram o valor médio da cidade, aponta Lucie. Famílias que sejam expulsas mudam-se para bairros mais baratos, como Marzahn, antiga Berlim-Leste, conhecida pelo racismo. Tirar uma família de origem turca da sua comunidade e pô-la num sítio tão distante, já na periferia de Berlim, e no meio de uma comunidade que lhes é hostil, vai certamente criar problemas para todos.

Esta é a sétima de 11 paragens na Europa que vai a votos. Amanhã, Amesterdão.