Aprender a ser humano

É esta a “história” do filme: alguém, uma alienígena interpretada por Scarlett Johansson, que descobre um mundo e aprende o modo como o seu próprio corpo encaixa nesse mundo
Foto
É esta a “história” do filme: alguém, uma alienígena interpretada por Scarlett Johansson, que descobre um mundo e aprende o modo como o seu próprio corpo encaixa nesse mundo

Debaixo da Pele faz de Scarlett Johansson uma predadora ET nas ruas de Glasgow. Jonathan Glazer explica porque é que fez uma experiência sensorial que polariza as reacções dos espectadores.

Aviso prévio à navegação: este filme não deixa ninguém indiferente. Goste-se ou não – e o próprio realizador Jonathan Glazer admite que o filme é polarizador - quem sair de Debaixo da Pele vai sair a perguntar-se “o que raio é isto que acabei de ver?”

“Isto” – outra vez, goste-se ou não – é um dos mais extraordinários objectos formais que o cinema contemporâneo nos propôs nos últimos anos. Uma espécie de quebra-cabeças sem solução pré-definida, deixado ao sabor do que o espectador nele quiser ver. E era isso que Jonathan Glazer queria fazer: “Um filme que exige participação e um diálogo com o espectador. Acredito piamente num cinema que respeita as pessoas, que lhes permite sentir e lhes oferece uma experiência.”

É isso que Debaixo da Pele é: uma experiência sensorial, onde a narrativa e o diálogo são secundários, onde o filme é transportado pela modulação precisa do jogo entre imagens e sons. Partindo de um romance de Michel Faber, Glazer eliminou as marcas mais ou menos convencionais da narrativa até não restar nada a não ser um ambiente, um desconforto, um “mal-estar existencial” nas suas próprias palavras. No livro, Faber acompanhava uma caçadora de corpos extra-terrestre em missão na Escócia. No filme, uma irreconhecível Scarlett Johansson encarna (é a palavra) essa extra-terrestre, mas o porquê da sua missão é completamente eliminado. Ficamos apenas com a experiência de uma criatura alienígena num sítio que não conhece – de uma predadora que se deixa tornar vulnerável, de um ser que aprende a ser humano. Porquê ou como não vem ao caso. Não é o fim que interessa, é a viagem.

“É isso que estávamos a tentar fazer,” diz Glazer ao telefone de Londres. “Algo de experiencial, como um sonho, uma droga, algo que nos transporta para outro sítio, que podemos decidir acompanhar, ou não. É perfeitamente possível, ao fim de dez minutos, o espectador pensar ‘isto não é para mim’, e outro espectador deixar-se transportar pelo filme, entregar aos rostos no écrã os seus próprios pensamentos. É assim que o filme funciona.”

Em Veneza, onde Debaixo da Pele estreou em competição em 2013, as reacções foram extremadas; agora, que começa a estrear por todo o mundo, continuam a sê-lo, mas emprestando ao filme uma aura de “acontecimento” alimentada pelas reacções entusiasmadas (e, a nosso ver, perfeitamente justificadas) de alguns críticos. A palavra “obra-prima” foi usada umas quantas vezes. A comparação a Stanley Kubrick também. (Quem conhecer o seu teledisco para The Universal, dos Blur, com umas quantas citações directas de Laranja Mecânica, não ficará forçosamente surpreendido.)

Do outro lado da linha, Glazer pausa, parece tentar fazer sentido da pergunta. “Tinha esperança que houvesse interesse suficiente no filme para que as pessoas o quisessem ver. Mas tinha perfeita consciência, desde o início, que não fazia ideia do modo como elas iriam reagir. Sabia que ia haver reacções muito fortes tanto a favor como contra. Mas as reacções positivas têm sido bem mais fortes do que eu estava à espera. Espero que as pessoas estejam a reagir ao que há de muito honesto e singular no filme.”

O ponto de vista do alienígena

Glazer, londrino de 49 anos, é conhecido pelo seu trabalho na publicidade e nos telediscos (Nick Cave, Massive Attack, Blur, Radiohead, Jamiroquai); mas mesmo aí, a sua sensibilidade sempre foi um pouco esquinada. “Não estou interessado em repetir-me, uma vez que tenha feito uma coisa não me interessa voltar a fazê-la. Gosto do lado de corda bamba sem rede, de estar no intervalo entre o sucesso e o fracasso, do risco criativo.” Numa entrevista ao jornal inglês Guardian, evocava-se um anúncio que dirigiu para a marca de chocolates Cadbury com o actor francês Denis Lavant que foi rejeitado pela companhia por ser demasiado estranho. “O medo abunda hoje” nas agências de publicidade, disse àquele jornal (e não só nas agências de publicidade, diríamos nós). O que torna ainda mais notável como um filme tão radical, tão alheio a qualquer tipo de exigência comercial, como Debaixo da Pele conseguiu ser feito no actual mundo do cinema anglo-americano. E com uma actriz de Hollywood no papel principal.

“Nunca senti nenhum tipo de pressão para tornar o filme mais acessível ou mais inteligível,” diz Glazer. “Foi uma situação ideal que espero poder voltar a ter. Foi a primeira vez que tive este tipo de apoio, em que o Filmfour [divisão de produção do Channel 4 inglês] e o British Film Institute [principais financiadores] tiveram a presença de espírito suficientes para me deixar fazer o filme que eu queria. Tive muita sorte.”

Particularmente porque Debaixo da Pele levou dez anos a montar, desde que Glazer leu o livro, logo a seguir à sua estreia na longa-metragem em 2000 (com o aclamado filme de gangsters Sexy Beast, com Ben Kingsley e Ray Winstone), até à estreia em Veneza. Pelo meio, houve mais anúncios, mais telediscos, um outro filme (Birth – O Mistério, 2003, outro objecto fora do baralho, filme de culto com Nicole Kidman no papel principal) e uma década em busca da solução para colocar no ecrã aquilo que Glazer procurava, que passou por uma série de guiões que foram progressivamente depurados. “Mantive-me muito fiel ao filme que quis fazer desde o primeiro dia. Tinha uma ideia muito clara do que queria, mesmo que não necessariamente da forma que lhe ia dar... Durante muito tempo não tive bem a certeza como fazer o filme – uma vez essa metodologia descoberta, tornou-se evidente que tinha de ser a Scarlett [a interpretar a extra-terrestre].”

A “metodologia” derivou da ideia central que assombrava Glazer: “ver as coisas pelos olhos de um alienígena, fazer um filme desse ponto de vista – não só contando a sua história, mas contando-a através dos seus olhos. E, através disso, fazer um filme que estivesse fora de tudo. Representar essa estranheza. Foi aí que tudo começou, tentar transpor esse sentimento para o écrã. O que quer que esse sentimento seja, é isso que o filme é. Uma espécie de mal-estar existencial, o paradoxo do corpo e da alma. Estar vivo e o que é isso de estar vivo.”

É, no fundo, essa a “história” de Debaixo da Pele: alguém que descobre um mundo e aprende o modo como o seu próprio corpo encaixa nesse mundo. Scarlett Johansson foi “largada” “à paisana” nas ruas de Glasgow, a pé ou conduzindo uma Ford Transit, com uma câmara escondida atrás – “trabalhar com uma actriz conhecida, trazê-la para um sítio onde a introduzimos quase como espia, filmá-la sem se dar por isso” tornou-se no dispositivo do filme, num “espelho” da premissa narrativa. A sua predadora extra-terrestre é a verdadeira “mulher fatal”, “viúva negra”, “comedora de homens”, uma sedutora que arrasta os homens para a sua perdição – mas que, aos poucos, parece ganhar consciência (dir-se-ia, quase, humana) do que está a fazer. Como se a sua “absorção” da humanidade começasse a alterar a sua própria maneira de olhar para este mundo.

Talvez por isso, por esse jogo de identificação gradual do alienígena com o nativo, Debaixo da Pele recorde tanto um outro filme “alienígena” em todos os sentidos da palavra – O Homem que Veio do Espaço, de Nicolas Roeg, com o ET David Bowie a deixar-se seduzir pelos prazeres da Terra. Glazer percebe a referência, mas mantém-se à distância. “Adoro a sensibilidade marginal desse cinema inglês – Nicolas Roeg, claro, mas também Lindsay Anderson, Ken Russell, Derek Jarman... E hoje isso não existe o suficiente. Sou um cineasta inglês, este é o mundo em que nasci e cresci, e certamente que isso está sempre presente; e não quis rodar um filme como se fosse um turista, quis rodar um filme que estivesse imerso num lugar. Mas este filme funciona fora de tudo o resto, e foi aliás sempre essa a minha intenção. Não estava a tentar integrar influências, antes o contrário: tentar afastá-las todas. Não posso fazer nada contra isso, as pessoas verão o que quiserem.”

Ainda assim, admite “um único momento” onde há uma referência consciente a outro cineasta. “Os primeiros três planos vieram de uma necessidade de encontrar uma linguagem com que as pessoas estivessem familiarizadas para começar o filme. E claro que teria de ser o melhor filme de ficção-científica de sempre, que é o 2001 de Stanley Kubrick. Era uma maneira de levar as pessoas a pensar que estariam a ver um filme de ficção-científica, mas pelo quarto plano as pessoas ficam surpreendidas e descobrem-se num sítio completamente diferente.” Um sítio onde nunca estivemos antes e onde não temos certeza de querer voltar – mas que não se parece com nenhum outro. Que se infiltra, para citar o título do filme, “debaixo da pele”.

Jonathan Glazer tem razão: goste-se ou não, Debaixo da Pele existe por si só, à parte de tudo. É um milagre que este filme exista, assim, hoje. E, como milagre que é, deve ser acarinhado.