Morreu aos 92 anos o poeta e dramaturgo polaco Tadeusz Rózewicz

Resistente durante a ocupação nazi e, depois crítico do regime comunista, a sua peça O Arquivo é considerada uma obra-prima do teatro do absurdo

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O poeta e dramaturgo polaco Tadeusz Rózewicz, várias vezes candidato ao Nobel da Literatura e um dos autores mais importantes da literatura polaca do pós-guerra, morreu esta quinta-feira, aos 92 anos, em Wroclaw, no sudoeste do país, onde vivia desde meados dos anos 80.

Também romancista, argumentista e tradutor, Rózewicz recebeu em 2007, pelo conjunto da sua obra, o Prémio Europeu de Literatura,

Nascido em 1921 na cidade de Radomsko, perto de Lodz, era filho de um funcionário judicial e, tal como o seu irmão mais velho, Janusz, executado pela Gestapo em 1944, militou na resistência polaca durante a segunda guerra. O seu irmão mais novo, Stanislaw Rózewicz (1924-2008) foi um cineasta polaco da geração de Andrzej Wajda, e o próprio Tadeusz escreveu vários argumentos para o cinema.

Publicou alguns poemas ainda antes da guerra, em 1938, mas o seu primeiro livro, cujo título é traduzível por Ecos da Floresta, foi escrito em 1943 e 1944, quando combatia no Exército Nacional (Armia Krajowa), o principal movimento da resistência polaca, usando o significativo nome de código “Satyra”. Recebeu várias medalhas pela sua bravura durante a ocupação nazi, e no pós-guerra estudou História de Arte, sem nunca ter chegado a licenciar-se, e envolveu-se no meio artístico de vanguarda, acamaradando com criadores como o pintor Tadeusz Kantor ou o realizador Andrzej Wajda.

Os livros de poemas que publicou no final dos anos 40, como Niepokój (Ansiedade) ou Czerwona rekawiczka (A Luva Vermelha), testemunham a tentativa de reconstruir uma possibilidade de sentido nesse pós-Auschwitz que, segundo Theodor Adorno, não suportava já qualquer genuína criação poética. Alguns acusaram-no de nihilismo e de se deixar contaminar excessivamente por autores como T. S. Eliot ou Ezra Pound, mas outros, como o Nobel da Literatura Czeslaw Milosz, sublinharam o carácter inovador da sua poesia.

Rózewicz saiu do país em 1950 e passou um ano na Hungria, mas regressou depois à Polónia com a mulher. Crítico do regime comunista, viveu com grandes dificuldades, e completamente afastado dos meios literários, ao longo de toda a primeira metade dos anos 50.

Com a relativa abertura política que a Polónia viveu no final de 1956, após a morte, nesse ano, do líder comunista Boleslaw Bierut (Stalin já morrera em 1953, e Kruschev liderava a União Soviética), Rózewicz teve oportunidade de seguir mais de perto a cena artística ocidental e, em particular, a vanguarda parisiense. Fascinado com o trabalho de dramaturgos como Samuel Beckett e Ionesco, escreve a peça Kartoteka (O Arquivo), considerada uma obra-prima do teatro do absurdo.

Parte da extensa obra de Tadeusz Rózewicz, que se prolonga pelo século XXI e inclui dezenas de títulos, entre livros de poemas, peças de teatro, e narrativas, está hoje traduzida em quase meia centena de línguas e recebeu vários prémios, dentro e fora da Polónia.