Opinião

Como despertará a Turquia amanhã?

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Erdogan transformou estas eleições numa questão de “vida ou morte” Adem Altan/AFP

Deveriam ser meras eleições locais. Mas não são. “Porque estes não são tempos normais. Vamos despertar na segunda-feira com uma nova Turquia”, escreve o colunista Semih Idiz no diário Hürriyet. Que Turquia? Não sabemos.

Tayyip Erdogan transformou estas eleições numa questão de “vida ou morte” e na luta contra uma “aliança do mal” que o quereria destruir. Pede que o eleitorado lave o seu nome das acusações de corrupção. “Mas a luta real, sejam quais forem os resultados de domingo, serão as eleições presidenciais deste ano e as legislativas previstas para o próximo ano”, conclui Idiz. A oposição aceitou a batalha de “nacionalizar” as eleições locais. Está em jogo, dizem os seus dirigentes, a escolha entre democracia e um regime autoritário.

O rastilho do confronto remonta a 17 de Dezembro, com a eclosão daquilo a que se chamou uma “guerra civil islâmica”, entre Erdogan e a comunidade religiosa e educativa Hizmet (Serviço), de Fethullah Gülen, um pensador sufi que reside nos Estados Unidos desde 1998 e acusa o regime de ser “crescentemente autocrático”.

Um procurador de Istambul — suspeito de estar ligado a Gülen — ordenou dezenas de detenções por corrupção, atingindo personalidades próximas do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP, no governo), provocando a demissão de três ministros. A seguir, foi a vez de Erdogan e os filhos serem postos em causa. O primeiro-ministro acusa Gülen de liderar um “golpe de estado” e de controlar um “estado paralelo”, na magistratura e na polícia.

A Justiça foi colocada sob tutela governamental. Foi cerceada a liberdade de informação. Foram “saneados” milhares de polícias e magistrados. Está em curso “uma caça às bruxas”, escreve o analista liberal Mustafa Akyol.

Erdogan tem uma concepção “maioritária” da democracia: quem vence as eleições não deve ser limitado nem pelos direitos da minoria nem pela liberdade de imprensa, nem sequer pela separação dos poderes. Desvaloriza a legitimidade da Justiça face ao veredicto eleitoral: “Na Turquia é o povo quem decide.” Figuras do AKP, como o Presidente Abdullah Gül ou os vice-primeiros-ministros, Bülent Arinç e Ali Babacan, afirmam que a democracia é algo mais do que eleições. Divergem de Erdogan mas temem dividir o partido. Erdogan está em declínio, ferido na sua legitimidade, mas é quem está no comando. E é esse comando que se joga nas eleições de hoje.

Cenários
As sondagens realizadas a partir de Dezembro são confusas: o AKP obteria entre 38 e 50% dos votos. Huseyin Celik, vice-presidente do AKP, colocou a fasquia da vitória nos 38,8% dos votos obtidos nas eleições locais de 2009. Os analistas da oposição consideram que o AKP sofrerá uma derrota se ficar abaixo dos 47% obtidos nas legislativas de 2007, para não falar nos quase 50% de 2011. As duas grandes batalhas travam-se em Ancara e, sobretudo, em Istambul.

A perda de Istambul — que é improvável — significaria o fim de Erdogan, porque é “o seu berço e o seu trono”. Também uma votação abaixo dos 40% seria “o princípio do fim do AKP”, escreve Semih Idiz. Os dirigentes do AKP seriam forçados a pensar na mudança de líder para evitar um desastre nas legislativas.

Um estudo da Brookings Institution, realizado pelo politólogo Ali Çarkoglu (Turkey goes to the Ballot Box), constata que o apoio ao AKP desceu oito pontos nas intenções de voto desde o princípio de Dezembro: passou de cerca de 50% para 42. Um resultado de 42% permitiria a Erdogan proclamar vitória. Esta percepção seria reforçada pela larga vantagem do AKP em relação aos partidos da oposição, estagnados e sem iniciativa. Mas não seria a vitória esmagadora que ele quer e os “gulenistas” temem.

O Hizmet de Gülen, que ousou afrontar Erdogan e promete continuar a batalha, não é nem quer ser um partido político. Uma sondagem indica que 70% dos turcos crêem na corrupção do Governo mas não abandonam o AKP por não encontrarem alternativa credível e temerem os efeitos económicos da sua queda.

Há outro factor que cria imprevisibilidade. Os “gulenistas” apelam ao “voto útil” nos candidatos mais bem colocados para derrotar o AKP. Como reagirão os eleitores ao voto em inimigos históricos como os kemalistas do Partido Republicano do Povo? Por sua vez, em “guerra contra Gülen”, Erdogan procurou o apoio dos militares — de má memória para as suas bases.

O líder do AKP fez a campanha mais mobilizadora e também paranóica. Descreve a Turquia como um país cercado. A “aliança do mal” vai de Gülen aos EUA, passando por Israel, pela CNN e pela banca internacional.

“A estratégia de Erdogan quando está em conflito é torná-lo maior e alargá-lo até ao combate total”, diz ao Financial Times Ibrahim Uslu, seu conselheiro eleitoral. “Se a oposição se queixa da corrupção, ele transforma isto numa questão de vida ou morte.” Mas observa o analista Sinan Ulgen: “Erdogan só tem duas escolhas: ou mantém-se no poder ou terá de responder pelas acusações de corrupção. É o que torna esta situação tão perigosa. Não é só o poder político que perderia.”

Governo ou presidência?
Como garantir o poder? Salvo desastre em Istambul, Erdogan tem duas opções para durar. Alimenta a ambição de se tornar Presidente até 2022, ano do centenário da República — ser “o segundo fundador” a par de Ataturk. Mas não conseguiu ainda a revisão constitucional que criaria um regime presidencialista “à francesa”, porque quer ter nas mãos as alavancas reais do poder.

Por outro lado, uma vitória “mediana” nas eleições locais pode pôr em causa este cenário. A sua estratégia para as presidenciais de Agosto consistia em obter os 50,01% votos na primeira volta. Um voto na casa dos 40% seria a indicação de que os partidos da oposição poderiam escolher um candidato credível capaz de o derrotar na segunda volta, dizem analistas turcos. Huseyin Celik explica: “Temos duas opções: ou Erdogan concorre à presidência ou nós obrigamo-lo a concorrer a um quarto mandato [no governo].”

Os estatutos do AKP proíbem um militante de exercer um mandato mais de três vezes. É uma proibição estatutária, não constitucional. Logo, passível de revisão. Neste caso, Gül permaneceria na chefia do Estado.

Os europeus têm os olhos postos na Ucrânia. Mas, na outra margem do Mar Negro, abre-se mais uma ameaça nas suas fronteiras. A Turquia tem a experiência de longos períodos de turbulência. Parece estar no horizonte mais um. O conflito Erdogan-Gülen está para durar. Anota Ali Çarkoglu no seu estudo: “Um regime repressivo na Turquia mantê-la-ia inexoravelmente distante da UE e enfraqueceria o poder de dissuasão da NATO.”