Níveis de produção elevados seguidos de explosão de pragas arrasam a cultura de pinhão

O fruto do pinheiro-manso assegurou, em 2010, uma receita de 84 milhões de euros. Para 2014, espera-se que a fileira facture apenas entre oito a dez milhões de euros, devido aos ataques de insectos sugadores.

A mancha de pinheiro-manso é uma importante riqueza nacional
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A mancha de pinheiro-manso é uma importante riqueza nacional Daniel Rocha

Os dados preliminares do último Inventário Florestal Nacional divulgados referem que os povoamentos de pinheiro-manso ocupam 175.742 hectares do território florestado em todo o país. E as árvores “estão melhor que nunca” realça Severino Lourenço, gerente da empresa A Preparadora de Pinhões, sediada em Pegões, concelho do Montijo, por terem beneficiado nos últimos anos de intensa pluviosidade. No entanto, não há bela sem senão. As árvores estão saudáveis, mas o fruto, a pinha, tem sido afectada por diversas pragas, a mais nefasta provocada pela acção de um insecto sugador (Leptoglossus occidentalis) que se alimenta de pinhas e flores de dezenas de hospedeiros, entre eles o pinheiro-manso.

O Leptoglossus occidentalis é oriundo dos Estados Unidos da América e Canadá e foi detectado, pela primeira vez, na Europa, no norte de Itália, em 1999, tendo-se aclimatado e disseminado rapidamente por vários países europeus. Em Portugal, a sua presença foi detectada em Outubro de 2010, quase em simultâneo na península de Troia e na região norte.

As consequências do insecto sugador fizeram-se sentir de imediato na produção. Em 2010, foram recolhidos 120 milhões de quilos de pinhas e extraídos quatro milhões de quilos de pinhão, que proporcionaram uma receita de 84 milhões de euros. Nos anos seguintes, a recolha de pinhas baixou de forma drástica e, em 2014, o valor global resultante da produção de pinhões não deverá ultrapassar os 10 milhões de euros.

Severino Lourenço admite que a produção de pinhas “já poderia estar entre os 150 e os 200 milhões de quilos se não fossem as pragas”, realçando o peso que a fileira já representa na economia do país, sobretudo pela mão-de-obra que é envolvida na apanha manual das pinhas e que recebe “cerca de metade do valor da produção”. Qualquer pessoa “pode ganhar 100 euros se apanhar uma tonelada de pinhas por dia”, refere.

Pedro Silveira, director-geral da União da Floresta Mediterrânica – UNAC, não revela excessiva apreensão pela situação anómala que está a afectar a produção de pinhão, alegando que apesar da “explosão de pragas” estas “já existiam antes” e surgiram depois de dois anos de grande produção, um fenómeno que classifica de contra-safra. A perspectiva deste técnica é que a produção seja retomada nos próximos anos, frisando que os pinhais portugueses têm um rendimento “muito superior” aos de Itália, Espanha e Marrocos. E isso leva-o a defender que Portugal é o habitat privilegiado para o pinheiro manso.

Talvez esta constatação explique por que é que, há 40 anos, Portugal “dominava o mercado mundial do pinhão que agora está nas mãos da Itália” como o principal ingrediente de um molho que acompanha o esparguete, observa Pedro Silveira, explicando que, antes do 25 Abril de 1974, o negócio do pinhão estava as mãos de cooperativas que faliram na sequência da revolução dos cravos e que o know-how se perdeu para os italianos e os espanhóis. Aliás, é neste dois países que, segundo dados fornecidos pela UNAC se concentra a quase totalidade do pinhão exportado (Espanha 72,1% e Itália 24,1%), depois vem Angola 2,1%, França com 1% e Luxemburgo com 0,1%.

O director-geral da UNAC lamenta que Portugal continue a ter que exportar mais pinha que pinhão, devido à baixa capacidade de processamento que continua a existir no país, sabendo-se que o valor do pinhão tratado é muito superior ao ganho obtido com a exportação da pinha. No âmbito da produção nacional de frutos secos, o pinhão é já o segundo principal produto exportado, mas passa a primeiro se foi incluído o valor da pinha.

A escassez na produção de pinhão que se tem registado desde 2010 acabou por reflectir-se no preço do produto, que aumentou exponencialmente. A procura é cada vez maior e, no mercado português, “começou a surgir pinhão chinês e paquistanês que custa menos de metade do que é produzido no nosso país” assinala Severino Lourenço.O preço do pinhão à saída do produtor ronda os 17 euros por quilo e nas grandes superfícies é comercializado numa base que ronda os 90 euros por quilo.

A série especial "Portugal, Um País Sustentável" tem o apoio da Caixa Geral de Depósitos