Durão Barroso: "Disse várias vezes ao primeiro-ministro que há limites para uma certa política"

Em entrevista à SIC e ao Expresso, o presidente da Comissão Europeia falou do Manifesto dos 74, considerando ser um "erro" falar em reestruturação.

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Presidente da Comissão Europeia diz acreditar na boa-fé de quem subscreveu o Manifesto dos 74 GEORGES GOBET/AFP

O presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, disse na entrevista à SIC e ao Expresso, transmitida na sexta-feira e publicada este sábado no semanário, que avisou o primeiro-ministro português de que é preciso considerar os "limites políticos e sociais das medidas tomadas" pelo Governo.

Questionado sobre se a classe média ou a classe média-alta portuguesas foram mais atingidas do que os mais pobres pela crise económica, Durão Barroso sublinha a "preocupação" das autoridades de "salvaguardar, por exemplo, as pensões mais baixas". "Em termos relativos, houve um impacto maior na classe média do que nas classes mais vulneráveis", continuou, acrescentando que para as "classe vulneráveis" esse "impacto é imenso".

O presidente da Comissão Europeia diz que há um factor comum a todas as classes portuguesas, o desemprego, e que actualmente há "licenciados e até pessoas com mestrados, ou mais, que não encontram emprego". "É isso que dá à crise um cariz muito diferente de crises que já houve no passado. Desta vez foi uma crise com muitíssimo maior impacto e, obviamente, isso reflecte-se na indignação da opinião pública". 

Durão Barroso deu como exemplo a manifestação contra a Taxa Social Única (TSU). "A TSU gerou em Portugal uma revolta espontânea porque tocou ideias de equilíbrio e de justiça em toda a sociedade e isso deve ser considerado. Eu próprio já disse várias vezes ao primeiro-ministro que há limites para uma certa política, que temos de considerar os limites políticos e sociais das medidas tomadas", acrescentou o antigo primeiro-ministro.

E esses limites estarão a ser permanentemente ultrapassados? Durão Barroso responde que se pode "sempre discutir se o ajustamento foi feito ao ritmo adequado". "Estou convencido de que, se não tivéssemos feito o adiantamento das medidas de correcção orçamental e estrutural não tínhamos recuperado a confiança. Foi mais doloroso a curto prazo, mas foi correcto não fazer um ajustamento demasiadamente gradual. Não se esqueça de que Portugal não tinha acesso aos mercados", afirmou.

Na entrevista, o presidente da Comissão Europeia falou ainda do Manifesto dos 74, documento que defende a restruturação da dívida nacional, e que Durão Barroso admite que o surpreendeu, mas não "totalmente". "Eu acredito na boa-fé das pessoas que subscreveram aquele manifesto, mas há um erro: é falar em reestruturação". Para Durão Barroso,  o documento também serviu para "embaraçar o Governo". "Eu acho que houve, nitidamente, algumas personalidades com o objetivo de embaraçar o Governo, num jogo político, mas eu não quero entrar na luta política".

Para o presidente da Comissão Europeia, o manifesto era esperado porque a "crise está a ter um impacto enorme na chamada classe média". "A meu ver, quer Manuela Ferreira Leite, quer Bagão Félix representam uma certa classe média ou média-alta – pessoas que até têm uma vida relativamente confortável –, mas que foram atingidas por esta situação. Dito isto, acho que muitas dessas pessoas estão de perfeita boa-fé, portanto não critico as pessoas que tomaram essa iniciativa", disse Durão Barroso.

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