Torne-se perito

Juntas e associações tentam que ninguém deixe de lavar a roupa por causa da crise

Lavandarias sociais aliviam o orçamento das famílias carenciadas. Em Lisboa há cinco e a procura é superior às expectativas.

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Pelas mãos de Isaura Pedro (à esq.) passa toda a roupa entregue na lavandaria social da Associação de Moradores do Bairro Padre Cruz Rui Gaudêncio

Cheira a roupa lavada na loja 1 do Mercado Municipal do Bairro Padre Cruz, em Carnide, Lisboa. Passa pouco das 10h e nas máquinas já rodopiam lençóis, que Isaura Pedro há-de dobrar cuidadosamente depois de secos. É pelas mãos enérgicas desta mulher de 59 anos que passa toda a roupa entregue na lavandaria social. Não lhe falta trabalho – em menos de cinco meses, encheu mais de 750 máquinas de lavar e secar. Mais do que o triplo em relação ao previsto por ano.

A lavandaria criada pela Associação de Moradores do Bairro Padre Cruz é uma das cinco que a crise fez nascer em Lisboa. Neste que é o maior bairro social da Península Ibérica, construído na década de 1950, residem 5500 pessoas. Muitas não têm máquina de lavar roupa (ainda há quem tenha tanques), outras não têm orçamento para a pôr a funcionar. A lavandaria abriu a 15 de Outubro de 2013 e superou as expectativas. “Há dias em que os sacos ocupam o chão até à porta”, conta José Monteiro, da direcção da associação.

Com o orçamento a minguar e as despesas a crescerem, o tratamento da roupa deixou de ser prioritário para muitas famílias. “Há pessoas que passaram anos sem lavar roupa”, garante José Monteiro, lembrando os sacos que vão chegando cheios de roupa amarelada, bafienta e com nódoas antigas. “Agora fazem questão de trocar o edredão porque até a casa fica a cheirar bem”, conta o responsável, destacando também a função “pedagógica” do projecto.

Pensada para apoiar sobretudo idosos e famílias desestruturadas - que há de sobra naquela zona multicultural -, a lavandaria foi conquistando outros públicos. Até a roupa de cama e banho do hostel do bairro tem sido lavada ali. O objectivo inicial era fazer 231 serviços por ano. “Pensámos que era um número ambicioso, porque há uma barreira. Quem tem máquina em casa precisa de um argumento forte para mandar lavar a roupa fora e expor a sua intimidade”, explica. A desconfiança inicial foi-se desfazendo.

“As pessoas começaram por ir passando à porta. Algum tempo depois entravam para dois dedos de conversa. Foram trazendo o cobertor, depois o edredão.” Já há quem leve a roupa toda. Cada lavagem custa um a três euros (inclui detergente, amaciador e tratamento anti-nódoas), consoante o peso, e a secagem dois euros. A roupa de cada cliente é lavada individualmente.

O projecto teve o apoio da Câmara de Lisboa mas a associação ainda não sabe se terá verbas municipais em 2014. “Se não, teremos que ajustar o preço aos rendimentos dos clientes”, lamenta a presidente, Elisete Andrade, sublinhando que o objectivo não é ter lucro mas sim um projecto auto-sustentável.

A primeira lavandaria social de Lisboa nasceu no Beato pela mão da junta de freguesia, em 2010. As freguesias de Belém, Benfica e Santo António seguiram-lhe os passos, na tentativa de aliviar o orçamento das famílias. Em Alcântara, a solução está em cima da mesa e deve avançar para breve.

“A lavagem da roupa é uma tarefa dramática para muitas pessoas”, observa o presidente da Junta de Belém, Fernando Ribeiro Rosa. Nesta freguesia, um quarto da população tem mais de 65 anos e vive com dificuldades económicas, segundo o autarca. “Há muita solidão e ainda mais pobreza escondida.”

Os preços são simbólicos e nalguns casos variam consoante os rendimentos. Em Belém, os idosos com rendimentos mensais até 420 euros pagam um euro por mês e têm a roupa lavada e engomada, enquanto que os restantes clientes pagam 2,5 euros por lavar e secar. Na lavandaria da freguesia de Santo António, as 287 pessoas identificadas como carenciadas não pagam e para as restantes há uma tabela de preços por quilo.

Em Benfica não se olha à folha de rendimentos dos clientes: todos pagam um euro para lavar 12 quilos de roupa e um euro para secar. A junta abriu o espaço em Junho de 2013 na rua das Garridas e já teve que duplicar as máquinas. O sucesso do projecto levou à criação de uma segunda lavandaria no bairro social da Boavista, gerida pela associação de moradores local.

No Beato, o método é semelhante: lavar custa 1,5 euros e todos pagam apenas um euro para secar. A freguesia tem 13.500 habitantes, dos quais 4000 têm mais de 65 anos. "Muitos residem nas antigas vilas operárias, onde as casas são pequenas. Há quem não tenha máquina de lavar nem dinheiro para pagar as contas", diz o presidente da junta, Hugo Chambre. O serviço tem cerca de 150 clientes por mês e está para breve a abertura de uma segunda lavandaria, na Quinta do Ourives. 

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