Três mortes em protestos na Venezuela, enquanto Maduro culpa os chuckies

Violência é maior fora de Caracas, onde continua a haver manifestações. Foram detidos dois luso-descendentes.

Manifestação este sábado, em Caracas, contra o governo de Maduro
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Manifestação este sábado, em Caracas, contra o governo de Maduro Carlos Eduardo Ramirez/Reuters
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Polícia militar em Caracas JUAN BARRETO/AFP

Mais três venezuelanos morreram, baleados, em resultado de confrontos nos protestos da oposição contra o Presidente Nicolás Maduro neste fim-de-semana, o que eleva para 34 o número de mortos em quase dois meses de contestação nas ruas. Foram também detidas pelo menos uma dezena de pessoas pela polícia militar, em Caracas, entre as quais dois luso-descendentes. Maduro diz que a culpa é dos chuckies.

Os manifestantes de Caracas, que exigiam a libertação de simpatizantes da oposição anteriormente detidos, entraram em confronto com a polícia quando tentaram bloquear a auto-estrada Francisco Fajardo. Fontes da comunidade portuguesa local dão conta que José Gonçalves e José dos Santos, dois dos detidos, são luso-descentes, diz a agência Lusa.

Sob o pretexto de que lhes tinham sido atirados objectos, os polícias militares efectuaram uma rusga no edifício For You, onde, segundo o advogado Alfredo Romero, detiveram a filha do cônsul de Itália na Venezuela, Geraldine Falcone.

De acordo com a Lusa, os militares entraram também no apartamento da jornalista do diário venezuelano 2001 Mildred Manrique, a quem detiveram e confiscaram um computador e coletes anti-balas que eram usados para fazer a cobertura dos protestos.

As mortes aconteceram fora de Caracas. Argenis Hernadez, de 26 anos, foi atingido na barriga junto a uma barricada, numa manifestação na cidade de Valência, no centro do país. Um motociclista que tentava atravessar a barricada disparou contra os manifestantes que não o deixavam passar, ferindo mortalmente Hernandez, que acabou por morrer no hospital, relata a Reuters, que ouviu testemunha

Bandos armados em motas

Na cidade de San Cristobal, no Oeste, o condutor de autocarro Wilfredo Rey, de 31 anos, que não estava a participar nos protestos, foi baleado na cabeça durante um confronto entre manifestantes e homens armados, com a cara coberta.

Jesus Labrador, de 41 anos, foi atingido por uma bala na cidade de Merida, nos Andes. Também foi apanhado no meio de um tiroteio entre manifestantes armados que estavam a queimar pneus e um bando de cara coberta montado em motas. Quatro outras pessoas sofreram ferimentos por causa deste tiroteio.

O Presidente Nicolás Maduro não está propriamente a apelar à calma ou a tentar refrear os ânimos do que se parece estar a transformar-se numa luta de gangues, ou numa disputa em que há esquadrões armados dispostos a impor a sua própria ordem nas ruas.

O Presidente acusou os extremistas da oposição de terem incendiado uma universidade militar em San Cristobal. “Pode-se chamar a isto protesto? Isto é terrorismo. Isto é fascismo. Estes chuckies são descendentes directos dos nazis”, afirmou Maduro, referindo-se ao boneco assassino da popular série de filmes de terror – uma designação adoptada pelos líderes do regime para se referirem aos manifestantes da oposição.

Os líderes da oposição também não transigem: têm recusado repetidamente encontrar-se com o Presidente para dialogar. Afirmam que as reuniões oferecidas por Maduro serviriam apenas para que o regime bolivariano tivesse uma oportunidade de fazer propaganda. Para o Presidente, esta recusa é uma prova de que a oposição está é interessada em usurpar o poder, desestabilizando o Governo, como parte de um golpe semelhante ao que em 2002 afastou durante umas horas o falecido Hugo Chávez do poder.

Autarcas presos

Com essa preocupação, nos últimos dias as autoridades venezuelanas lançaram uma grande ofensiva judicial contra a oposição, que incluiu a ordem de detenção de dois presidentes da câmara da oposição, sob a acusação de não se terem esforçado o suficiente para manterem a ordem nas ruas (e impedirem as manifestações).

Daniel Cebalos, autarca de San Cristobal, a cidade berço dos protestos, é o segundo dirigente do Partido da Vontade Popular a ser detido, após Leopoldo Lopez, o principal líder, na prisão desde 18 de Fevereiro, sob a acusação de promover a violência. Enzo Scarano, presidente da câmara de San Diego, foi destituído pelas “falhas” no cumprimento das suas funções, adianta a AFP.

Por outro lado, a Câmara dos Deputados, de maioria chavista, votou uma resolução pedindo que a deputada Maria Corina Machado, que faz parte, tal como Leopoldo Lopez, do movimento La Salida, que visa a queda do Presidente Maduro, seja acusada por “incitamento à violência, traição, terrorismo e homicídio”.