Entrevista

Santana Lopes: "Sócrates foi um primeiro-ministro com visão"

O Estado Social “vai acabar” e o sistema político tem de ser reinventado, diz Santana Lopes. Tudo muda à nossa volta menos a política. Há quase três anos provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, Santana é hoje um dos presidenciáveis à direita. Diz que é muito cedo para decidir, mas não diz nunca.

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Pedro Santana Lopes recusou falar sobre o regresso de Miguel Relvas à vida política activa Daniel Rocha
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Santana Lopes Daniel Rocha

Pedro Santana Lopes recebe-nos na solene sala de reuniões da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, onde é provedor desde 2011. É quarta-feira, 12 de Março. Há precisamente nove anos Santana vivia o seu último dia como primeiro-ministro. “Despedido” por Jorge Sampaio em 2004, reconhece ter sido o “pior momento” da sua vida. Diz que não gosta de falar do passado, mas cita-se a si próprio várias vezes ao longo das duas horas de entrevista. “Em 2004, na Universidade de Verão, eu disse...”, “a 2 de Janeiro de 2014, eu disse...”. Ao seu lado, recortes de jornais e livros onde mostra o que foi dizendo sobre “muitas das matérias que hoje são debatidas”. Diz preferir falar do futuro. E, aí, não é difícil imaginar que gostaria de ser o próximo Presidente da República. O plano, pelo menos, está feito. Santana explica qual é. Esta é a voz de um dos potenciais presidenciáveis à direita.

É contra a reestruturação da dívida, mas 75 personalidades, da esquerda e da direita, acabam de fazer um apelo nesse sentido. O “ruído” não é suficientemente alto a ponto de obrigar o Governo a reequacionar a sua posição?

Há um ponto em que estou de acordo com o Pacheco Pereira, que diz sempre que vivemos numa mistificação constante, uma confabulação permanente em que passamos ao lado de questões essenciais como a que estão a colocar. Sobre o manifesto: o acordo do pós-guerra seguiu o princípio de que a dívida seria amortizada em função dos ciclos da economia. Parece-me sensato. Defendi-o. Quando Seguro propôs que a dívida superior a 60% fosse mutualizada, manifestei simpatia pela proposta. Quem já exerceu funções de chefia do Governo sabe o quanto a União Europeia fiscalizava à lupa, já antes desta crise, as contas do Estado. Os países não se endividaram às escondidas da Europa.

Está a dizer que os subscritoresdo manifesto têm razão?

Não. Defendi o princípio da mutualização da dívida e uma modelação do acordo quando possível - quando possível -, nos termos da Alemanha no pós-guerra adaptada aos tempos de hoje. Continuamos a ser regidos por uma escola de pensamento económico muito ortodoxa, que vê as questões da competitividade, da economia, do desenvolvimento económico, fundamentalmente pelo lado da despesa e pouco pelo lado da receita. Ninguém em Portugal fala do que é o nosso maior défice: a produtividade, que é o outro lado da moeda para ganharmos competitividade. Continuamos a ser regidos por esta escola que insiste na mesma receita que levou a Europa à crise de hoje. A minha questão é o pecado original de Maastricht – a moeda única. Dar uma bicicleta pior a quem parte de trás e exigir-se que chegue ao mesmo tempo à meta. Disse isto em 2000, com esta mesma imagem da bicicleta. Pergunta pelo ruído… a questão é essa. O que aquelas pessoas dizem ali - qual de nós não gostaria? Pagarmos menos, baixarmos a taxa de juro, perdoarem-nos a dívida.

Eles não propõem o perdão da dívida.

Sim. A questão é quem diz, como diz e o momento em que diz. Não estou a dizer que não têm razão. Só que o papel deles é diferente do papel do primeiro-ministro. Acho um bocadinho
suis generis que estejam lá ex-ministros das Finanças. Daqui a uns anos, quando sair da Santa Casa, não vou pedir a reestruturação dos jogos em relação ao período em que aqui estive. Qualquer ser humano provido de um mínimo de inteligência chega à conclusão de que há aqui qualquer coisa que não bate certo. Sabendo nós o que se passou em Portugal no sistema bancário, no sistema financeiro em geral, sabendo nós o que disse Vítor Constâncio quando tomou posse como governador do Banco de Portugal em relação à divida – que não havia problema porque agora estávamos na moeda única… Já falei do meu ministro das Finanças Bagão Félix, de Manuela Ferreira Leite… São apenas exemplos. Todos podemos tomar mais tarde atitudes que até representam uma tentativa de redenção em relação a erros que cometemos. Quase ninguém deu pelo endividamento galopante, quase ninguém alertou para isso.

Estes últimos três anos foram muito particulares…

Essas pessoas já dizem o mesmo há três anos, há dois anos, há um ano. Por detrás destas posições há divergências políticas com o Governo.

O manifesto é sobretudo ideológico?

Não e eu em certa medida discordo do primeiro-ministro. O sinal que estas pessoas dão não é errado. Não é mau para Portugal que, face à troika, um conjunto de pessoas com este peso e esta responsabilidade, tome uma posição como esta. Não significa que lhes dê razão do ponto de vista do Governo.

É um diálogo de surdos. O primeiro-ministro respondeu apenas que o manifesto era “irrealista”...

Eu não diria isso, mas o primeiro-ministro não pode dar o mínimo sinal de concordância com aquela posição. Mas lembro que já houve alguma renegociação da taxa de juro desde que começámos o memorando da troika. São papéis diferentes. Mas para não falar só de pessoas ligadas ao meu partido, há ali questões irónicas, como o engenheiro João Cravinnho...

A alma do manifesto…

O engenheiro João Cravinho é um dos grandes responsáveis das PPP [Parcerias Público Privadas], lá está, é a tal mistificação. Quem lança no Governo de Guterres as parceria rodoviárias público-privadas é o engenheiro João Cravinho. Pronto, já disse que está arrependido, mas é o que eu digo: este manifesto é um acto de redenção para muitas pessoas. Quando em 2004 disse e repeti que não podíamos consentir as SCUT´s e que tínhamos de aplicar o princípio do utilizador-pagador, António Mexia - outra inteligência distinta da nossa praça -, digo sem ironia…

Não pareceu…

Mas é! Sou amigo dele. Mas Mexia trouxe uma proposta enquanto ministro das Obras Públicas elaborada no Governo de Durão Barroso para ficarmos com SCUT´s até 2035, mais ou menos a mesma data do professor Cavaco Silva. Eu disse: nós não vamos onerar as próximas gerações, não temos dinheiro para pagar isso. Fui para as eleições legislativas dizer isso e José Sócrates disse que eu era um reaccionário. Autênticas mistificações. Tínhamos poupado tanto, tanto, tanto se o país não endeusasse asneiras. Apetecia-me fazer uma pergunta a cada um dos subscritores: "Olhe, desculpe lá, e naquela altura em que decidiu isto assim-assim não tinha ali nada para ver as contas?"

Que pergunta faria a Manuela Ferreira Leite?

Como é que ela defende que se possa aplicar, à luz da ética e dos princípios da moral, que, no pagamento do IRS, possa haver pagamento especial por conta e também retenção na fonte? Milhares de cidadãos em Portugal pagam ao mesmo tempo o seu IRS do ano transacto, fazem o pagamento especial por conta do imposto que pagaram nos anos anteriores, e fazem a retenção na fonte daquilo que efectivamente receberam. É uma triplicação do mesmo imposto. Na altura, a dra.Manuela Ferreira Leite disse que era provisório e continuamos com o pagamento especial por conta em vigor. Alguém tem alguma dúvida de que se a dra. Manuela Ferreira Leite fosse ministra das Finanças hoje a política seria muito diferente? Quase todos os subscritores seguem a mesma escola, nunca os vi seguirem outro caminho que não o da obsessão pelo défice.

O manifesto usa a frase tabu: “Há alternativa.”

Alternativas há sempre, só que não há alternativa no colete-de-forças em que estamos envolvidos por força dos compromissos internacionais que assumimos. O manifesto é patriótico. Alternativa…? Há, mas...

Qual seria?

Neste momento, agora, não sei qual é a alternativa exacta de que eles falam…

O manifesto pede mais tempo para pagar a dívida e juros mais baixos…

Sim, mas nesta altura… Não quero ser antipático, mas nesta altura, quando estamos a dois meses da saída da troika, quando os juros estão a baixar para níveis satisfatórios, não se podem dar sinais errados aos mercados. Os organismos internacionais e os nossos credores também precisam de saber que muitas das nossas elites têm um pensamento muito céptico em relação ao caminho que essas organizações querem seguir. Isso pode ajudar até, em certa maneira, o Governo na negociação que tem de fazer e no modo como tem de conduzir o processo de saída da troika. Não vejo o manifesto como um acto prejudicial. Até o pode ajudar. Se me tivessem convidado para subscrever o manifesto não o teria feito. Mas neste momento devemos estar unidos em torno de quem nos representa. Era tão bom vermos o país unido nesta fase em que vamos sair da
troika.

Como se quebra a actual crispação da política portuguesa?

É muito censurável que os dois grandes partidos não tenham a capacidade de se sentarem à mesa e falarem sobre o país. O Presidente da República tem um papel muito importante, não estou com isto a empurrar as culpas para o Presidente, acho que lhe falta a força suficiente para levar os partidos a sentarem-se à mesa. Quando um Presidente não faz isto é porque não pode, não é capaz, não tem força política. Sabemos que Cavaco Silva é um Presidente contestado e isso retira-lhe margem, mas a responsabilidade principal não é dele, é dos dirigentes dos partidos.

O PSD usou os três dias do seu último congresso para desfazer o PS e, no fim, Passos Coelho apelou a um entendimento com o PS…

Não foi por acaso que não fiz nenhum ataque à oposição, nem a António José Seguro, nem a António Costa, nem sequer ao PCP. Dá muito sainete, dá palmas garantidas atacar a oposição.

Sentiu incómodo por ver que os seus colegas do partido não fizeram outra coisa senão atacar o PS?

Sim. Estive para dizer uma frase, que não disse porque não tive tempo: não subestimem os adversários.

Não teve tempo para dizer essa frase?

!Não tive. Eu fui ao congresso principalmente para falar da Europa. Eu tenho obrigação de dizer ao meu partido isto: não nos devemos entregar nos braços da ‘bela e sedutora’ Europa, muitas vezes sem sabermos as condições exactas do que aí vem. Ou seja, o que é que vamos fazer, o que é que vamos negociar, o que é que vamos exigir, quais são as cláusulas de salvaguarda. Continuamos a trabalhar um pouco à vista, em função do que vai acontecendo das crises, mas não temos política externa, não temos política de defesa, não temos língua comum. Isto não é um país federal como deve ser, mas estamos a tomar as decisões de entregar um poder à “Washington” da Europa, poderes que a Washington dos Estados Unidos tem, sem que os Estados tenham os mesmos direitos e as mesmas garantias, sem a federação. A Europa tem de falar dos direitos dos mais fracos.

Vivemos uma época de grandes egoísmos na Europa, onde só manda um e não há solidariedade. É esta a sua Europa?

Defendo a Europa da coesão social, uma Europa em que se acredita num projecto de convergência das economias e em que tem de haver mutualização de riscos, para não dizer de dívida. Uma Europa com uma economia concebida como um todo, mas não de cima para baixo. Não acredito numa Europa que começa por dizer ‘vamos tirar aos Estados o poder soberano de fazer os orçamentos, já tirámos o de emitir moeda, vamos tirar o poder soberano da supervisão do sistema financeiro’. ‘E se nós só pudermos crescer 1,5%?’, ‘Pois, isso é com vocês.’ Não faz sentido. Temos que trabalhar pelo lado da economia real e não pelos instrumentos de política orçamental e financeira.

No Congresso do PSD defendeu o Estado Social e o Serviço Nacional de Saúde, quase sugerindo que o Governo desconhece a real dimensão do impacto da austeridade. Disse “caro Pedro Passos Coelho, o meu telefone toca de manhã à noite com pedidos de ajuda”. Isto é uma leitura correcta do seu discurso?

A realidade do país é essa e vai ser cada vez mais essa. Falei do envelhecimento, dos desprotegidos. Ainda ontem falei com o presidente da União das Misericórdias para discutir o que fazer com as pessoas de idade que são abandonadas, o que fazer para abrir mais unidades de cuidados continuados que esperam há anos por verbas para abrir. Eu vou resolver isso.

Como?

Estamos a trabalhar na criação de um fundo entre a União das Misericórdias e a Santa Casa da Misericórdia que permita fazer a conclusão dos trabalhos de uma dezena de unidades de cuidados continuados que estão quase prontas e que não abrem por falta de verba. Esses são problemas reais do dia-a-dia. Qual é a resposta do Estado para as pessoas que ficam paraplégicas? É muito fraca. Pessoas que precisam de cadeiras de roda, que hoje são eléctricas. Só a cadeira custa 30 mil euros. Houve uma pessoa nos últimos anos que se esforçou por trabalhar bem nisto, chama-se Marco António Costa.

Qual é o valor do fundo?

Entre 7,5 e 10 milhões de euros.

Como provedor já sente a degradação na oferta do serviço público por causa da austeridade?

Vejo e vejo nos números. No último ano e meio tivemos um aumento de mais de 20% no número de refeições que servimos em Lisboa comparado com 2012. Ninguém devia ser membro de um Governo sem primeiro ser autarca.

No congresso, disse que ser provedor da Santa Casa lhe revelou a verdadeira dimensão dos problemas do país. Não é triste ter que chegar quase aos 60 anos, depois de todas as funções públicas que desempenhou, para descobrir isso?

Enquanto presidente da Câmara de Lisboa criei o “Lx porta-a-porta” para os idosos dos bairros sociais; na Figueira da Foz comprei carrinhas para os idosos que iam quilómetros a pé, à chuva, pela estrada, para o centro de saúde às cinco da manhã. É este interior que está a ser esquecido. Há uma dimensão do problema que só conheci depois de estar aqui, mas não reconheço a ninguém no meu partido mais preocupação na acção concreta em relação às questões sociais do que eu.

Sente-se injustiçado?

Não. Somos um grau de areia. A questão está em procurar dar um testemunho de que é possível pensar nas coisas antes de elas acontecerem. Vejo uma série de especialistas em fazer totobolas depois de os jogos acabarem. Nesta altura da troika é importante pensar não como é que vamos sair, mas como vamos entrar num novo ciclo.

Há um paradoxo no seu discurso: quer austeridade, mas critica a austeridade.

A minha função é corrigir danos. Tenho de ajudar o país a corrigir as consequências que existiram sempre de qualquer política que fosse levada a cabo no meio de uma crise de uma bancarrota como aquela em que o país está. Pode haver alternativa, mas não haveria hipótese de governar sem causar dano. Vejo o lado positivo do manifesto. Mostrar que há outro pensamento. Pode dizer: está a fazer de bom samaritano. Mas o país está num estado em que não podemos passar a vida a dizer mal do que os outros fazem. Enquanto provedor, achei que a minha obrigação era ir ao congresso e dizer: ‘Atenção com a Europa, atenção com o resto do país, os sinais da recuperação só vão chegar à grande Lisboa e ao grande Porto, e atenção com esta realidade social que vai ser cada vez mais complicada.’.

Falta sensibilidade social a este Governo?

Não vou dizer isso. Acho que o primeiro-ministro a tem, mas não a mostra em público. A possibilidade de tratar o despedimento sem justa causa como o despedimento com justa causa não passa pela cabeça…

Qual deve ser o papel do Estado na Saúde?

Nos Estados Unidos há um sistema baseado na protecção de seguro privado que assegura seis meses de subsídio de desemprego. Estou convencido que cada vez mais vamos caminhar para isso. Vai acabar o Estado Social e vai nascer uma nova forma.

Vai acabar o Estado Social?

Como existe acho que sim. Vai deixar de ser o Estado a oferecer tanto quanto oferece ou a financiar tantas situações de desprotecção como hoje. Vão ser postos à disposição das pessoas, ou por decisão arbitrária do Estado, esquemas privados de Segurança Social, planos de poupança-reforma, seguros privados de desemprego. As pessoas vão ter de encontrar os seus próprios esquemas de protecção social. Vai nascer um novo equilibro. Sou um defensor muito mais acérrimo da presença do Estado na Saúde do que, por exemplo, na educação.  Na Saúde o Estado tem de estar lá, não pode falhar. Vai passar a ser o Estado Solidário e envolver os que menos têm.

Essa reforma avança nesta legislatura?

Não sei. O primeiro-ministro já reconheceu que a reforma do Estado ficou por fazer. Não se começou por aquilo que era lógico ter-se começado, que era por uma redução efectiva da despesa, nomeadamente da primária. Há uma área de onde o Estado Social não pode desaparecer – a Saúde e os mais desfavorecidas, como as pessoas de idade, as pessoas com limitações físicas, sem possibilidade de reingresso na vida activa. Às vezes é quase pior estar vivo do que ser atirado para algumas valas comuns que as guerras geram. Hoje em dia o sistema político pensa pouco nestas matérias, não é só o Governo.

Que pessoas são hoje atiradas para essas “valas comuns”?

Os desempregados e os idosos. São esses os que mais sofrem e aí é que as minhas funções de provedor me têm permitido ver uma realidade que não conhecia. O Serviço Nacional de Saúde não pode ter 1.500 milhões de euros de défice todos os anos, mas também não pode deixar sair as pessoas dos hospitais sem saber para onde é que elas vão e é essa falta de sistematização de estrutura de ligação, de sensibilidade, que me choca. Este Estado Social vai acabar e todos temos de nos preparar para isso. O Estado não pode dar ensino gratuito às pessoas que têm rendimentos para ensino privado.

A opção é pagar mais taxas em função dos rendimentos?

Em 2004, na Universidade de Verão do PSD, como primeiro-ministro defendi o pagamento de taxas moderadoras em função dos rendimentos e levei uma tareia porque estava a dar cabo do Serviço Nacional de Saúde. Um ano depois, o engenheiro Sócrates aprovou essa mesma medida.

Parece que todas as boas ideias foram antecipadas por si e ninguém o levou a sério…

Não. Defendi algumas coisas erradas, mas em Portugal há muita parcialidade, olha-se muito para as pessoas e ouve-se pouco o que elas dizem. É uma sociedade muito preconceituosa e é por isso que hoje estão a cair muitos ídolos de pé de barro e vão cair mais.

Está a pensar em quem?

Até no sistema financeiro. Se quiser, dos banqueiros, de pessoas que há alguns anos se julgavam uns deuses
ex machina”… Alguém acreditava que toda aquela política de compra de casas, de crédito à habitação…

Era artificial…

Pois era, por isso é que se devia ter aprovado uma lei das rendas há muitos anos. E a quem é que isso interessava? À banca. Os contratos das parecerias público-privadas eram escandalosos. Eu não sou daqueles que fustiga o engenheiro Sócrates a dizer que ele é o culpado por tudo o que se passa em Portugal. Acho essa ideia absolutamente caricata e ridícula. A principal culpa pelo que se passa em Portugal são factores externos. O engenheiro Sócrates desorientou-se na parte final do mandato, tomou muitas medidas erradas, mas durante vários anos desenvolveu políticas correctas e tomou muitas boas medidas. O Governo agora até adoptou o Simplex 2. Na área da investigação científica fez muitas coisas bem-feitas e teve muita visão nessa matéria das novas tecnologias.

Sócrates foi um reformista?

Foi um primeiro-ministro com visão em várias áreas. Ele era vários deuses ao mesmo tempo, depois caiu em desgraça e passou a ser o culpado de tudo. Isso é caricato. Ele foi um primeiro-ministro com várias qualidades, um chefe de Governo com autoridade e capaz de impor a disciplina no seio do seu Governo.

Programa cautelar ou saída limpa?

É mais provável a saída limpa do que um programa cautelar.

É mais provável ou é melhor?

As duas coisas. É melhor para a posição de Portugal junto dos mercados e para as negociações que o Governo e o primeiro-ministro têm de fazer, termos saída limpa do que continuarmos sob tratamento.

Foi ao Coliseu e “levantou” o congresso. Viu esses aplausos como um incentivo a uma eventual candidatura sua a Belém?

Não. Vi aplausos ao conteúdo da intervenção. Estou a ser sincero. Enquanto em relação à intervenção do professor Marcelo admito que alguns tenham sido por isso – não estou a dizer que não estivessem no congresso pessoas que gostem de que eu seja candidato – mas acho que os aplausos foram por outra razão.

Gosta da ideia de ser candidato?

Ser-se candidato à Presidência da República é a questão mais séria do sistema político. Quem se propõe ser símbolo de unidade nacional, ser comandante supremo das Forças Armadas, ser chefe de Estado… é uma decisão, bem, quase não tem qualificativos a responsabilidade que representa. Nenhuma pessoa pode olhar para o seu umbigo a propósito de uma decisão como essa. Não estou a pensar ser, mas já aprendi o suficiente para não dizer nunca. No meu sector político há várias pessoas que se podem candidatar. Umas não serão candidatos porque não gostam de perder. Mas ainda é cedo. Em tudo na vida não se podem tomar decisões cedo de mais. Ninguém pode ter uma decisão já tomada sobre uma candidatura à Presidência da República daqui a dois anos.

Mas não afasta a hipótese?

Quero continuar a trabalhar aqui, é o que faz parte dos meus projectos de vida. Tenho poucas condições para poder tomar uma decisão como essa. Se tivesse condições, com as ideias que tenho e que defendo para o sistema de Governo português, para o sistema político, para Portugal, com o conhecimento que tenho de Portugal – conheço muito bem o poder local, a área da cultura [fui secretário de Estado cinco anos], conheço a área das misericórdias, conheço o Estado, já fui deputado europeu, até já fui presidente de um clube de futebol. Em abstracto, posso ter várias condições para poder exercer funções como essa. Não sei se sou eu que estou em melhores condições. É uma decisão muito, muito, muito complexa. Há uma coisa que não gostava nada de ver: haver só um candidato à direita e só um à esquerda. E o meu partido, se tiver dois ex-líderes ou três ex-líderes como candidatos, não deve apoiar nenhum. Seria indigno apoiar um e não outro. Imagine Marcelo Rebelo de Sousa e Durão Barroso. As candidaturas são pessoais.

Para além do currículo, o que tem para ser um bom Presidente?

Um Presidente tem de ser capaz de gerar consensos, tem de ser pró-activo, tem de conhecer realmente a sociedade portuguesa. Deve ser mais pró-activo no tratamento das grandes questões nacionais, independentemente da agenda quotidiana. Um Presidente tem se ser um elemento muito próximo das pessoas e ser dinamizador da reforma do sistema político. Tem de estar disponível para aceitar mudanças dos seus poderes. Eu defendo a limitação do poder de dissolução – já defendia antes de 2004 – quando há maioria parlamentar na Assembleia. O próximo mandato presidencial deve marcar um novo ciclo, um novo funcionamento do sistema político português, em que os candidatos a Presidente digam ao vêm, o que pensam sobre o sistema político. Nós queixamo-nos tanto do sistema político e nunca o mudamos. Tudo muda, mas o sistema político continua igual e está obsoleto. Algum dos candidatos a Presidente aceitará uma alteração nos seus poderes presidenciais que torne o sistema mais equilibrado? Somos o único sistema em que o Presidente e o primeiro-ministro discutem em público. Precisamos de mais eficácia e de dar mais valor à governabilidade.

Como Presidente, a sua prioridade seria mudar o sistema político?

É uma prioridade importante, mas em concertação com os partidos.

O dia em que Jorge Sampaio dissolveu a Assembleia da República foi o pior dia da sua vida?

Sim.

E o melhor?

Não sei dizer… A compra do S. João do Porto, criar o segundo Teatro Nacional. É uma decisão de que me orgulho muito.

É um homem com muitas vitórias, mas também com derrotas estrondosas. Para a câmara de Lisboa, para a liderança do PSD, foi afastado do cargo de primeiro-ministro... Que lições tirou desses fracassos?

Quando digo que o momento pior foi a decisão do dr. Jorge Sampaio é porque, sinceramente, estou convencido que não foi bom para Portugal, teria sido bom completar a legislatura. Eu saí de consciência tranquila, mas foi desagradável. Porquê? Tinha sido eleito presidente da Câmara de Lisboa, tenho que substituir a pessoa que vai para Bruxelas e depois tiram-me do Governo e quando chego a Lisboa dizem-me: ‘Não podes ser candidato.’ Mas isso é passado. Eu vivo bem com isso, nem ao dr. Jorge Sampaio… Não vivo com ódios. E por ter essa experiência de vida feita, às vezes penso que tenho mais condições do que outros para pensar determinados assuntos. Nessa matéria sou um privilegiado. Tinha 23 anos quando comecei a trabalhar com Sá Carneiro. Comecei por dentro do sistema político muito novo.

Sente-se injustiçado ou reconhece que não foi um bom primeiro-ministro?

Não, não gosto de falar do que está para trás. Essa análise fica para os outros.

Marcelo foi ao congresso legitimar a liderança de Passos Coelho ou vê outras razões?

Ele leu os jornais desse dia e pensou que seria um erro não ir. Não gosto de ver as pessoas errar, gosto de as ver fazer bem. Ele fez bem. Tenho pena que ele não fale de issues, de policies, que não fale das políticas concretas, falta isso ao Marcelo. Ele nunca teve oportunidade de desempenhar funções que lhe permitissem estar próximo dos problemas das pessoas, para além de dar aulas, que é muito bonito, mas isso é outra coisa. É por isso que ele analisa muito política. Mas vou apostar uma coisa: no próximo ano e meio vai haver muita gente a fazer discurso social.

Marcelo foi ao congresso reposicionar-se para ser presidenciável?

Veio reposicionar-se e fez muito bem, porque ele faz falta na corrida presidencial, embora eu continue a acreditar que ele não vai.

Não vai?

Acho que não, mas é bom se ele for. Gostava é que ele e os outros dissessem o que pensam sobre o sistema político, o sistema eleitoral, a desertificação do país. O que me irrita mais na política é que a política seja um desfile na passerelle. Agora vem aí o Marcelo, o Santana, o Durão, o Costa, qual é que escolhemos? Qual é que tens ideia que é o melhor? Acho que é aquele. E o que pensa sobre este assunto em concreto sobre o qual ele vai ter de decidir? Ai isso não sei. E o outro? Também não. Nas presidenciais há tempo para todos serem obrigados a dizer o que pensam, mesmo quando não querem falar dos assuntos. Estas vão ser as primeiras presidenciais de outra geração, de outra leva.

Imagina-se num duelo com Durão Barroso?

Acho que ninguém deve ter quaisquer prurido em travar debates seja com quem for desde que os trave com convicções.

A grande novidade do último Congresso do PSD foi o regresso de Miguel Relvas.

Isso é um tema de que eu não gosto de falar.

Foi um erro político de Passos?

Não quero falar sobre isso...

Surpreendeu-o?

Sim, muito.

Que preço o partido vai pagar com o regresso de Relvas?

Não quero falar sobre isso…

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