A teatralidade de grandes canções

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Angel Olsen não é necessariamente a personagem de todas as suas canções: para ela, “é até libertador o facto de [os ouvintes] terem de adivinhar” quem está por trás daquelas letras Zia Anger

Muito se pode extrair do tema de abertura do belíssimo Burn Your Fire For No Witness. Unfucktheworld começa com aquela dose certa de Leonard Cohen (na parte desmaiada) e de Johnny Cash (quando trepa até territórios da country), de quem canta a sós com a guitarra sabendo perfeitamente quão irresistível é esta combinação, quão irresistível é esta voz carregada de abandono, esta postura de que o mundo bem pode desabar à volta que não há tristeza capaz de ombrear com a sua. 

Angel Olsen sabe muito bem para onde vai. Mais para a frente, há-de repetir a fórmula com igual sucesso em White fire, pegando no tema pelos versos “everything is tragic/ it all just falls apart” e colocando a fasquia nesse número de ilusionismo que consiste em conduzir-nos o olhar para onde quer enquanto o truque acontece subtilmente ali ao lado. Assim nos convence-nos de que é um íman para tudo quanto é trágico na condição humana. Só que por trás, suspeitamos, há um discreto sorriso de marionetista, de grande manipuladora.

Voltemos brevemente a Unfucktheworld. Apesar do tom de desespero pessoal, apesar de nos falar no estado de um mundo esfarrapado que nos entra pela casa e pelos olhos sistematicamente, impossível de não se deixar ver em todo o seu desfile de desgraça — “Isso é o mais devastador de tudo: olhamo-nos ao espelho, obcecados com o mundo e connosco, mas não demoramos mais do que um segundo a pensar nisso e avançamos para o nosso dia, sem nos importarmos” —, o título, confessa Angel Olsen com um riso que soaria envergonhado se tivesse um pingo de vergonha no corpo, surgiu-lhe escrito num lavatório, enquanto ensaboava as mãos e dirigiu o olhar ligeiramente para cima. Naquele momento pensou logo: “Isto daria um bom título de canção. E seria óptimo para arrancar o disco.”

É um episódio sintomático da coexistência entre o grandioso e o mundano que atravessa a sua música. Entre a verdade e a distorção da verdade, entre o sublime e o prosaico, entre o universal e o confessional, entre as verdades cruas do mundo e a roupa suja aos pés da cama.

Profilaxia contra a treta

Passou-se pouco mais de um ano desde Halfway Home, aquele que é tido como o álbum de estreia de Angel Olsen — antes houve apenas uma cassete de circulação limitada. E desde então, queixou-se há meses ao site Pitchfork, passou meses a atender telefonemas em que lhe perguntavam pelo útero. Na verdade, não era bem do útero que as editoras queriam saber. Mas era isso que Olsen sentia: dentro daquele cliché de que as canções são como filhos de quem as põe no mundo e as exibe a terceiros, o súbito interesse na sua prole cançonetista soava-lhe a “gostamos muito dos teus filhos, quando é que podes ter mais?”. Felizmente, ressalva ao Ípsilon, as medidas profilácticas contra a “treta da indústria musical” tinham sido tomadas em dose reforçada, nos anos em que integrou o Cairo Gang que acompanhou Bonnie “Prince” Billy. “Pude assistir àquilo que seria andar em digressão, a como seria viver na pele de música”, diz. “Mas também pude ver de perto a forma como a indústria musical se organiza em torno disso, o que me preparou para as oportunidades e para a treta que teria pela frente se não desistisse e tivesse algum sucesso.”

Em Halfway Home farejava-se distintamente a iminência de uma figura de relevo para o universo da música sedutoramente marginal norte-americana. Uma Cat Power em potência. Até porque o contacto próximo com Will Oldham (Bonnie “Prince” Billy) a levaria a acolher registos country para os quais não estava instintivamente desperta. Passando os ouvidos por High & wild, de Burn Your Fire For No Witness, ninguém o diria. Uma canção incandescente, febril, um quadro musical que poderia pertencer aos Mazzy Star se Hope Sandoval algum dia tivesse demonstrado interesse em sair do estado letárgico e abalar atrás das guitarras. O classicismo de uma Patsy Cline mas com fogo nas cordas vocais, a capacidade de evocar Cash, Cline ou Hank Williams para depois passar para a zona de acção da rock’n’roller primeva Wanda Jackson. 

Mas Angel Olsen é ainda mais desconcertante do que isso. Forgiven/forgotten, o segundo tema do álbum — imediatamente a seguir àquele Unfucktheworld que nos encosta à parede e nos rouba o apego à razão —, liga a distorção, arranca num tom que podia ser das Breeders e canta-o como se fosse Kristin Hersh. Teria dado algum jeito às editoras perceberem que Angel Olsen não é rapariga facilmente manobrável. Por isso mesmo, confessa, despachava os tais telefonemas como quem se livra (temporariamente) de um vendedor de seguros: “Eu digo-vos alguma coisa se estiver interessada em vocês.”

Canções-diálogos

Com Bonnie “Prince” Billy, Angel Olsen aprendeu igualmente a teatralizar as canções. Não apenas através da experiência algo gratuita dos The Babblers, um combo que tocava versões punk-rock de folk recôndita e em que todos se apresentavam de pijama e óculos de sol, mas sobretudo com as exigências de Oldham relativamente ao registo de vocal que as canções do seu alter-ego pediam. “Por vezes sentia mesmo que éramos uma companhia teatral”, reflecte Angel Olsen. “A nossa interacção dependia muito de como nos sentíamos em palco e por vezes, quando trocávamos olhares, isso implicava pedir respostas diferentes do habitual aos outros. Tenho saudades disso, mas é também essa energia e esse ambiente que procuro atingir nas personagens das canções que agora canto.”

Não é acidental a intromissão da palavra “interacção” no discurso de Angel Olsen. A cantora que nasceu há 27 anos em St. Louis, e que por lá começou a cantar nos cafés de onde a súbita carreira musical a retirou (servia às mesas e continuaria a servir, garante), toma a literatura por inspiração para a sua escrita, partindo regularmente de premissas como “o que poderia ter sido um diálogo entre duas personagens se o livro tivesse continuado e não terminado”. “Começo frequentemente por algo que li ou ouvi e construo a partir daí. Claro que não quero plagiar, mas pego numa ideia que pode ser resumida na interacção entre duas pessoas ou na exploração de uma situação por finalizar.” É isso que guia as suas preocupações interpretativas. Por exemplo, em Enemy, penúltimo tema do novo disco, uma delícia acústica que avança a passo de lesma, de forma pouco espaventosa, solitária confissão de alguém que não sabe como livrar-se de fantasmas que passaram pela sua cama e ainda sabem de cor como pressionar o botão certo para reanimar dores e ardores, não deixando o fogo extinguir-se para não perder esse poder. “Para mim é uma longa carta e é mais importante cantar aquelas palavras do que concentrar-me em piruetas com a voz ou encontrar alguma melodia altamente excitante.”

O tom por vezes soturno e fatalmente trágico em que Angel Olsen embrulha as suas canções induz uma tendência natural para imaginar uma figura a propósito da qual não espantaria uma qualquer notícia a dar conta de tendências suicidárias ou auto-destrutivas. Nada que provoque insónias a Olsen, não tendo, consequentemente, de se tratar com a toma mais ou menos moderada de comprimidos. Na verdade, diz, “é até libertador o facto de terem de adivinhar” quem é a pessoa que surge a defender estas canções. Evita ter de se explicar em demasia, joga de forma provocatória com essas suposições que parecem uma mera aplicação simples de aritmética: “Estamos constantemente a interpretar mal os outros. Não acho que haja um problema nisso: trata-se de descobrir um sentido, mesmo que estejamos sozinhos nesse sentido. Mas se for realmente sobre algo pessoal para mim, por muito que possa não parecer, estarei a festejá-lo, a dizer ‘isto é algo que não me incomoda’, caso contrário não o cantaria”, acrescenta. E diverte-se a revelar o espanto por haver quem pense mais nas suas canções do que ela própria: “Nunca fiz esse trabalho de psicanálise sobre aquilo que estava a criar.”

De resto, Angel Olsen estranha que se assuma uma dessintonia com a normalidade em quem canta e emociona tão simples e devastadoramente como ela o faz. Quase sem esforço. “Todos sofremos e fazemos erros”, tenta justificar-se. “É também a humanidade que me interessa conhecer nos meus ídolos. Gosto de vê-los a fazerem merda”, confessa numa gargalhada. “Tudo bem, eu também já fiz muita merda, é isso que temos em comum.” Com a subtil nuance de que nem todos pegam nesses falhanços da vida e nos põem a chafurdar neles, desejando-os e querendo-os para nós naquela mesmíssima forma.
 

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Angel Olsen
Burn Your Fire For No Witness
Jagjaguwar; distri. Popstock