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Jovem faz instrumentos musicais a partir de caixas de charutos

Emanuel Santos conjugou a paixão por "construir coisas" e pela música e aventurou-se na criação de cigar box guitars, um instrumento de cordas americano que está a conquistar o mundo

É “uma espécie de artesanato” feito a partir de um material usado e a “beleza” vem também dessa “segunda vida” oferecida ao objecto. Emanuel Santos lembra-se perfeitamente da sensação que experimentou ao terminar a sua primeira cigar box guitar, um instrumento de corda tipicamente americano feito a partir de caixas de charuto: “Foi espectacular. Pegar num pau, espetá-lo numa caixa, colocar cordas naquilo e fazer música. Foi inacreditável.”

Estávamos em 2010 e o instrumento — visto quase quatro anos depois — parece-lhe já “uma coisa horrorosa”, sorri: “Agora acho que não funcionava bem, mas na altura achava que sim. E as pessoas gostaram.”

O teste foi feito para o espectáculo Alan (baseado na vida de de Tom Waits) do Teatro Universitário do Porto e desenrascado com um material alternativo que Emanuel tinha por casa: “Nas pesquisas que fiz deparei-me com estes instrumentos, objectos bizarros feitos a partir de caixas de charutos, e achei que fazia todo o sentido para o espectáculo. Tinha uma caixa de jóias de madeira, por pintar, e foi assim que construí”, recorda.

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As criações do jovem portuense são todas electrificadas, para que o volume seja potenciado Fernando Veludo/ NFactos

O bichinho instalou-se e, há cerca de um ano e meio, o jovem licenciado em Escultura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto reactivou-o: “Fiz a segunda, depois a terceira, depois a quarta.... até que comecei a ter alguns comentários de pessoas amigas, que visitavam a oficina. E decidi começar a divulgar”.

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Cada instrumento demora cerca de um mês a ficar pronto Fernando Veludo/ NFactos

Das feiras ao patrocínio

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Emanuel Santos aprendeu a construir as cigar box guitars através de tutoriais online Fernando Veludo/ NFactos

Na Feira da Vandoma, em casas do ramo ou através de amigos, Emanuel Santos ia encontrando a matéria-prima para o seu projecto baptizado de Santa Cecília, “a santa padroeira dos músicos, mártir romana que morreu a cantar na fogueira”, e também o nome a sua “primeira grande criação”, a filha.

Ouve o som de uma das cigar box guitars construídas (e tocadas) por Emanuel Santos

Desde Outubro de 2013 que a descoberta de caixas de charutos deixou de ser uma preocupação: num show case em que mostrava os instrumentos apareceu uma pessoa de fato e gravata, figurino pouco habitual no meio, e apresentou-se. “Representava uma loja que vende charutos, a Cigar World, e disponibilizou todas as caixas que quisesse. Disse que gostava de fazer parte deste projecto de reinvenção de caixas de charutos depois de servirem o seu propósito”, contou ao P3 no seu atelier na Fábrica Social, no número 341 da Rua da Alegria, no Porto.

As cigar box guitar de Emanuel Santos podem ser vistas na CRU, loja de criadores e espaço de co-working na Rua do Rosário, e podem também ser encomendadas directamente ao criador, através da pagina do Facebook do projecto Santa Cecília. 

Um instrumento “nunca demora menos de um mês a ser concluído”, contando com os tempos de secagem de vernizes e colas (que é feito ao natural e não numa estufa). Por isso, os preços que o jovem de 33 anos pratica “quase não dão lucro” — vão desde os 70 até aos 250 euros.

Não é assunto que lhe tire o sono. A aventura é alimentada por paixão e vontade de dar seguimento a uma comunidade que começou a surgir nos Estados Unidos da América em meados de 1840, altura da Guerra Civil americana, e que começa a espalhar-se um pouco por todo o mundo.

Em Portugal, Emanuel Sousa conhece mais três pessoas que se dedicam à construção de cigar box guitars — uma de Espinho, uma de Viana do Castelo e uma de Lisboa.

Aprender online

A comunidade está presente também online no site Cigar Box Nation, onde se trocam ideias, se colocam dúvidas, se partilham criações. Foi assim — online, através de pessoas que já construíam estes instrumentos — que o portuense se aventurou a construir a sua primeira peça.

“Hoje em dia existem 500 mil tutoriais online para o que quer seja. Só não faz — ou não experimenta, pelo menos — quem não quiser”, opina.

Emanuel começou a tocar guitarra aos 12 anos. Fez o “percurso habitual” dos miúdos auto-didactas (“Tive bandas de garagem, passei para salas de ensaio, toquei em bares”), mas deixou a música em stand-by quando entrou na faculdade. Depois foi parar à área da cenografia através do teatro e a sua vida profissional gira à volta disso: cenografia e produção de espectáculos.

“Isto das guitarras surgiu se calhar da convergência de todas estas áreas. Foi a conjugação da paixão que tenho pela construção de coisas e pela música”, sintetiza.

As cigar box guitar podem ter um número variável de cordas (Emanuel opta normalmente pelas três ou quatro, o mais tradicional, mas tem também algumas com apenas uma) são instrumentos com “afinação aberta” e maioritariamente tocados com um slide — cada uma com o seu som particular. 

As criações do jovem portuense são todas electrificadas, para que o volume seja potenciado. Um instrumento demasiado difícil para quem não sabe música se iniciar? “Não, é relativamente simples. Pode perfeitamente aventurar-se a comprar um e ir aprendendo.”

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