Crónica

Um ruidoso silêncio

“Papá, estás bem?”. Pouco passava das 16 horas e o meu filho interrompia o hábito de nunca me telefonar. A sua voz denotava gravidade. Com 12 anos sabia o que era a morte. A prima Cláudia tinha-nos deixado uns anos antes. Já vira o resultado de atentados da ETA e tinha brincado ao colo de quem lhes resistira. Mas tamanha bestialidade era-lhe desconhecida. Naquele dia, como jovem habitante de Madrid, viveu o mais duro. O espanto do horror.

Uma década depois, mesmo longe dos cenários da tragédia, é impossível não ter a memória nítida. O impacto foi brutal. O trauma ficou, por muitas gavetas que fechemos. Não há recaída porque, felizmente, o horror não se multiplicou naquela magnitude contraditória: irracional e planeada friamente. Mas é impossível esquecer os restos de corpos sobre os carris que conduziam a Atocha. Os olhos tristes das gentes. Como é inolvidável a resposta dos cidadãos. As dádivas de solidariedade: dos bancos de sangue aos gestos de afecto; dos taxistas convertidos em socorristas aos polícias de choque transformados em psicólogos.

“Todos somos madrilenos” foi o pensamento que percorreu a Espanha e Madrid, cidade onde os naturais da urbe são uma ínfima parte. O sinal de pertença perante a tragédia construiu laços de união. Tão inesperados como resistentes. A cidade, território de cidadãos, viveu o drama e sobreviveu ao pavor. Apesar da inconsciência oportunista da política, evitaram-se bodes expiatórios. Quando as investigações conduziram aos responsáveis, não houve vendeta. Nem contra os bascos, pela ETA falsamente imputada. Nem contra os “mouros”, que não ficaram à mercê de generalizações perigosas.

A cidadania estabeleceu a sua ordem. Solidária e de respeito. Indignada mas isenta de histerismo. Forte e cívica. Foram dias cheios de dor os que se viveram. De pavilhões de feiras transformados em morgues. De bichas de carros funerários. De restos do que fora vida em pequenas caixas. De números macabros. De identificações num mar de lágrimas. De enterros. De funerais. De repulsa.

A partir daquela manhã de 11 de Março de 2004 e durante dias, algo mais se apoderou da cidade. Abafando os ruídos do quotidiano. Calando o barulho do tráfego. Evitando as buzinas pelos engarrafamentos e os lamentos pelos empurrões. Derrotando os decibéis das discotecas que não abriram. Silenciando as orquestras que não tocaram. Foi o jazz que não se ouviu e os pregões que se calaram. Foram os espectáculos adiados. A vida que não se quis viver. O amor que se adiou. Reinou o silêncio. Tão espesso que se tocava. De respeito, talvez. De raiva, também. De dor, sem dúvida. De protesto, evidentemente. Era um silêncio único. Contido e ruidoso.