Dançando e cantando, os norte-coreanos votam sem escolha

Há um único candidato designado pelo partido único para cada uma das 687 circunscrições do país.

Um candidato, duas perguntas: "Sim" ou Não"?
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Um candidato, duas perguntas: "Sim" ou Não"? REUTERS/Kyodo
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A alegria dos norte-coreanos na hora de votar REUTERS/Kyodo

Dançando e cantando, os norte-coreanos votaram este domingo numas eleições parlamentares em que para cada circunscrição há um único candidato designado, um exercício longe das práticas democráticas mas que permite às autoridades identificarem as deserções para o estrangeiro.

Os eleitores “doidos de alegria” precipitaram-se para as assembleias de voto em todo o país, dançando e tocando música em honra do homem forte do país, Kim Jong-Un, registou a agência noticiosa estatal KCNA.

As imagens difundidas pela televisão oficial mostraram centenas de pessoas com trajes tradicionais dançando em círculos nas ruas.

Há um único candidato designado pelo partido único para cada uma das 687 circunscrições. Os eleitores só têm que escolher entre o “sim” e o “não” nos boletins de voto.

E cumprem: a participação em 2009 foi de 99,98% com uma taxa de aprovação dos candidatos de 100%... A votação deste domingo decorreu na tranquilidade, segundo a KCNA, com uma participação de 91% ao início da tarde.

Os media oficiais, que sublinharam insistentemente o dever “de todos os indivíduos” se deslocarem às assembleias de voto para depositar o seu boletim – mesmo que legalmente o voto não seja obrigatório – promoveram abundantemente o escrutínio e a participação eleitoral, publicando poemas com títulos tão apelativos como “Torrentes de emoção e felicidade”.

Trata-se da primeira eleição para a Assembleia Suprema do Povo depois da chegada ao poder de Kim Jong-un, após a morte do seu pai, Kim Jong-il em Dezembro de 2011.

Tal como o progenitor, Kim apresentou-se como candidato na circunscrição 111, do Monte Paektu, situado nos confins setentrionais da Coreia do Norte, perto da fronteira com a China. O local é considerado sagrado pelos norte-coreanos e foi aí que o fundador do país, Kim Il-Sung, pai de Kim Jong-il, estabeleceu um campo de guerrilha anti-japonês durante o período de colonização da Coreia pelo Japão. A historiografia oficial do regime garante que foi nesta montanha que Kim Jong-Il nasceu em 1942.

“Eu dei o meu voto, como prova da minha lealdade, ao nosso camarada, o líder supremo”, congratulou-se um soldado entre um grupo de centenas que faziam fila para votar na circunscrição nº 111.

As eleições parlamentares realizam-se normalmente de cinco em cinco anos e a assembleia só se reúne uma ou duas vezes por ano, muitas vezes para uma única sessão de um só dia para votar o orçamento e aprovar decisões tomadas pelo Partido dos Trabalhadores.

Em busca dos desertores
A última sessão da Assembleia aconteceu em Abril de 2013, onde foi aprovado um decreto especial oficializando o estatuto de potência nuclear da Coreia do Norte.

O verdadeiro interesse do escrutínio para os observadores estrangeiros é descobrir a lista final de candidatos, susceptível de fornecer indicações sobre as graças e desgraças no interior do regime depois da purga ordenada por Kim Jung-un no ano passado.

O dirigente norte-coreano afastou algumas personalidades do coração do poder e ordenou a morte de vários quadros do regime, incluindo o seu próprio tio e mentor, Jang Song-Thaek, executado em Dezembro por crimes de traição e corrupção.

A votação serve também para o regime fazer um recenseamento da população, com os funcionários eleitorais a visitarem todas as casas para garantirem a presença ou ausência dos eleitores inscritos. “Uma eleição permite revelar a fuga de um norte-coreano para a China ou a Coreia do Sul”, explica o New Focus International, um site de refugiados norte-coreanos na Coreia do Sul.

Kim Jung-un reforçou a segurança nas fronteiras para tentar limitar as hipóteses dos candidatos ao exílio. Mais de 1500 partidas para a Coreia do Sul, via China, foram registadas no ano passado.

Para Ahn Chan-Il, um fugitivo instalado no Sul e especialista no regime norte-coreano, o recenseamento eleitoral não deverá dar a verdadeira realidade dos números de fugas, já que muitos responsáveis locais preferem omitir as deserções de que se exporem a sanções de Pyongyang.