Opinião

A vacina da gripe e o abutre sinistro

O objectivo é vacinar a tempo todos os doentes de risco ou mudou para vacinar menos, mas num serviço público?

Arnaldo Sampaio, um dos fundadores das políticas de Saúde Pública, alertava, nos anos 50, para o risco de encararmos a gripe como uma doença “benigna”, desleixo do qual só podem advir consequências “perniciosas”.

A gripe ataca todos os anos, em média, setecentos mil a um milhão de portugueses. Tornou-se banal e falta-lhe a valentia dos vilões solitários dos westerns, a desafiar os fortes para duelos de morte. O seu verdadeiro papel é o de abutre, oportunista sinistro a sobrevoar sedentos e moribundos. A gripe é uma ameaça séria, especialmente para os mais velhos e para os doentes crónicos, mais vulneráveis. Todos os anos morrem quatro mil a cinco mil portugueses de gripe e de doenças que a gripe directamente desencadeia, principalmente pneumonias. A gripe é um sério inimigo da economia, responsável por um milhão de dias de baixa por ano, e tornou-se no fantasma sazonal do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Todos os anos vemos na televisão como rebenta com a capacidade instalada nos centros de saúde e hospitais. Tem impactos difíceis de avaliar, mas imagináveis na morbilidade associada à degradação da capacidade de resposta do SNS durante algumas semanas de cada Inverno. A gripe causa ainda febres altas nos orçamentos para consultas, horas extraordinárias, camas de agudos e medicamentos.

Felizmente, há antídoto para o abutre. Chama-se vacina. A Organização Mundial de Saúde (OMS) garante que previne entre 70% e 90% dos casos de gripe entre adultos saudáveis. Nos idosos, evita quatro em cinco mortes. Em 2012, o actual director-geral da Saúde foi à Assembleia da República lutar pela inclusão urgente da vacina da gripe no Plano Nacional de Vacinação. Francisco George anunciou o objectivo de vacinar 75% da população com mais de 65 anos. Portugal ficou alinhando pelas melhores práticas preconizadas pela OMS e a União Europeia. A Directiva 2009/1019/EU estende o objectivo a 75% dos doentes crónicos e outros grupos de risco, como grávidas e crianças.

No passado mês de Janeiro, a UE publicou resultados. Só a Holanda e o Reino Unido atingiram o objectivo de vacinar três quartos da população com mais de 65 anos. Portugal está a caminho, embora com percalços. No ano passado registou uma cobertura vacinal de 43,4%, 10% abaixo da conseguida quatro anos antes. Entre os doentes crónicos, só cinco países monitorizaram a taxa de cobertura vacinal e Portugal está entre eles, mas com um mau resultado (31%). A desvalorização dos riscos da gripe, o medo da vacina resultante de informação errada, as questões de custos e da comodidade de acesso são as explicações encontradas para o incumprimento do objectivo comunitário.

A revista científica BMC Health Services Research publicou em Janeiro resultados de um inquérito junto dos utentes que adquiriram a vacina nas farmácias. Um em cada cinco cidadãos dos grupos de risco optou por pagar, quando podia vacinar-se de graça nos serviços do poderoso sistema de saúde Inglês. O médico de família ainda contactou metade, mas eles optaram na mesma pela farmácia. Explicação? “As razões dadas incluem acessibilidade, comodidade e preferência por ambiente farmácia”, descrevem os autores da investigação.

Em Portugal, os centros de saúde administram vacinas gratuitamente aos utentes dos grupos de risco. A maioria desses centros, contudo, só vacina duas manhãs ou uma tarde por semana, nuns casos com marcação prévia, noutros por ordem de chegada. O Estado, apesar disso, optou por adquirir por concurso público todas as vacinas que calculou necessárias, restringindo a quota da indústria farmacêutica disponível para as farmácias. A intenção era boa, mas funcionou ao contrário. Pela primeira vez houve rupturas de disponibilidade. Os doentes, com a gripe a chegar, apareciam nas farmácias desesperados. As farmácias, inconformadas, pediam mais vacinas aos fornecedores, mas já não havia, tinham ido todas para os centros de saúde. Resultado? Um sarilho e todos a ver quem chegaria primeiro, o vírus ou a vacina. Claro que os jovens, as grávidas, os adultos com emprego e até as crianças em idade escolar, mesmo que doentes crónicos, têm pouca disponibilidade para se adaptar a horários, salas e listas de espera.

A imunização da população contra a gripe é um grande desígnio nacional de saúde pública. Os anos passam e é persistente o falhanço no objectivo de vacinar 75% dos portugueses com mais de 65 anos. Os anos passam e é decepcionante a taxa de vacinação de doentes crónicos (31%). Os resultados mostram a necessidade de afinar a política, para promover a adesão dos portugueses às vacinas.

Se o Estado precisa de conquistar os cidadãos em risco para um programa de saúde pública, faz sentido sujeitá-los a todos, sem excepções, a mais um horário, uma fila, uma marcação e uma lista de espera? Para quê sobrecarregar centros de saúde sujeitos a restrições de contratação de pessoal médico e de enfermagem, com listas de espera para consultas e tratamentos? O objectivo é vacinar a tempo todos os doentes de risco ou mudou para vacinar menos, mas num serviço público? As farmácias vacinam de imediato e com os mesmos padrões de segurança. O facto é que muitos cidadãos em risco vacinam-se se for na sua farmácia, nos centros de saúde não estão para isso. Sem as farmácias, Portugal nunca atingirá as metas que em boa hora se propôs alcançar.

Presidente da Associação Nacional de Farmácias