Dinossauro português dos tempos jurássicos foi o maior predador terrestre da Europa

Ossos com 150 milhões de anos classificados como nova espécie de dinossauro carnívoro. Através deles, uma equipa em Portugal viajou no tempo, até à altura em que o Atlântico Norte ainda estava a formar-se.

Fotogaleria
Réplica do crânio de um torvossauro com os seus dentes afiados Serguei Krasovskii
Fotogaleria
Ilustração científica de um torvossauro Serguei Krasovskii

Eis o maior predador conhecido que pisou terra firme na Europa: um dinossauro carnívoro que, há 150 milhões de anos, se passeava pelo território que actualmente é Portugal. Tinha mais de dez metros de comprimento, pesava quatro a cinco toneladas e os dentes bem afiados, em forma de lâmina, dificilmente deixariam as presas indiferentes, ou, pior, incólumes após as suas investidas.

Os seus ossos são agora descritos pelo belga Christophe Hendrickx e pelo português Octávio Mateus, ambos paleontólogos da Universidade Nova de Lisboa e do Museu da Lourinhã, na revista científica PLOS ONE. Classificam este predador do Jurássico Superior como uma espécie de dinossauro nova para a ciência e referem que essa conclusão se baseou principalmente num maxilar, encontrado há mais de uma década por um paleontólogo amador a 70 quilómetros a norte de Lisboa, nas arribas de uma praia.

Em 2003, o holandês Aart Walen, voluntário no Museu da Lourinhã, e o seu filho pequeno procuravam fósseis nas arribas da Praia da Vermelha, no concelho de Peniche, quando se depararam com o maxilar esquerdo de um dinossauro. Associados a esse fóssil apareceram dentes, uma vértebra da cauda e uma costela. A primeira descrição científica deste material é de 2006, mas não se avançou logo que se tratava de uma nova espécie de torvossauro.

“Na altura, encontrámos diferenças, mas não eram suficientes para dizer que era uma nova espécie”, diz Octávio Mateus. Agora, a equipa já o pôde afirmar, após um estudo mais pormenorizado do maxilar.

 Até ao momento, conhecia-se uma só espécie de torvossauro: o Torvosaurus tanneri, também com 150 milhões de anos. Encontrado em 1972 nos Estados Unidos e descrito em 1979, durante muito tempo era o único torvossauro conhecido — até que, em 2000, foi revelada a descoberta de uma tíbia em Portugal.

Essa tíbia tinha sido encontrada por um agricultor em Casal do Bicho, localidade do concelho de Alcobaça. Octávio Mateus e outro investigador estudaram-na e concluíram, num trabalho publicado em 2000, que pertencia pelo menos a um dinossauro do género Torvosaurus. O osso não tinha informação para se dizer mais. Seria então uma tíbia do já identificado Torvosaurus tanneri, pelo que este dinossauro americano também teria representantes na Europa? Ou seria de um primo, do mesmo género mas de outra espécie? “O que era claro é que era um Torvosaurus. Era a primeira referência a este género fora da América do Norte”, lembra Octávio Mateus.

Agora, este paleontólogo e Christophe Hendrickx olharam novamente para o maxilar descoberto por Aart Walen e pelo filho. Afinal, vivia deste lado do Atlântico um torvossauro de uma outra espécie.

O nome científico escolhido para a nomear — Torvosaurus gurneyi — é uma homenagem ao ilustrador norte-americano James Gurney, criador da série de livros Dinotopia. Neste mundo utópico, dinossauros e humanos vivem felizes lado a lado numa ilha, ainda que isso seja uma impossibilidade histórica, devido à separação por muito tempo entre a extinção dos dinossauros (há 65 milhões de anos) e o aparecimento dos primeiros humanos (há cerca de dois milhões de anos). Mas isso é o que menos interessa numa história de ficção. “Sempre admirei a reconstrução deste mundo utópico, onde dinossauros e humanos vivem juntos”, diz, num comunicado, Christophe Hendrickx, de quem partiu a ideia a homenagem a Gurney.

O número de dentes está entre as principais diferenças entre o torvossauro americano e o seu primo português. Enquanto o Torvosaurus tanneri apresenta 11 dentes ou mais em cada maxilar, o Torvosaurus gurneyi tem menos de 11. Não seria menos assustador por isso, uma vez que os seus dentes podiam chegar aos dez centímetros de comprimento. Só o crânio podia ter mais de um metro.

“Não houve predador terrestre maior do que este no Jurássico”, refere Octávio Mateus. No mar, é possível que tenha havido ictiossauros maiores, acrescenta, mas em terra firme os torvossauros, tanto o da América do Norte como o da Europa, não tinham outros predadores à altura. Reinavam no topo da cadeia alimentar. “Era um predador activo que caçava outros grandes dinossauros, como evidenciam os dentes em forma de lâmina”, frisa ainda Christophe Hendrickx.

Olhando para outros tempos, os torvossauros nem foram os maiores dinossauros de sempre. Todos carnívoros, o Tyrannosaurus rex (com 12 metros, na América do Norte), o Carcharodontosaurus (12 metros também, na África do Norte) e o Giganotosaurus (com 15 metros, na Argentina) suplantaram-nos. Viveram num período posterior, já no Cretácico.

Que importância tem haver dois torvossauros, com a mesma idade, em dois continentes, que se afastavam e pelo meio ia nascendo o Atlântico Norte? “Quer dizer que a Europa e a América do Norte tinham de estar separadas há tempo suficiente para o Torvosaurus evoluir em duas espécies diferentes de um lado e do outro do Atlântico”, responde Octávio Mateus. “Dantes, a perspectiva era que havia a mesma espécie em dois continentes, portanto tinha de haver pontes de terra no Jurássico Superior. Nós dizemos que as pontes de terra são mais antigas do que se pensava, possivelmente uns dez milhões de anos.”

Essas ligações entre a Europa e a América do Norte terão então desaparecido há uns 160 milhões de anos, tornando o Atlântico intransponível para os animais terrestres. Esta é pois uma história real, contada pelos torvossauros e os seus ossos.