Putin carregou em "pausa" mas ficou com o dedo no botão

O Presidente russo falou pela primeira vez sobre a situação na Crimeia. Só usará a força "em último recurso", mas uma intervenção armada "será sempre legítima", garantiu. Moscovo também deu sinais de abertura no campo diplomático.

John Kerry foi prestar homenagem às vítimas da violência policial em Kiev
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John Kerry foi prestar homenagem às vítimas da violência policial em Kiev Mykhailo Markiv/REUTERS

O secretário de Estado norte-americano, John Kerry, nem queria acreditar no que estava a ouvir. “Ele disse mesmo que não há tropas russas na Crimeia?”, confirmou, quando um jornalista lhe pediu, em Kiev, para comentar o discurso de Vladimir Putin, no qual afirmou que os homens armados e de uniformes de aspecto russo que tomaram conta da Crimeia, com armas e veículos militares de matrículas russas, não são na realidade tropas russas. São “tropas de autodefesa”, simplesmente, afirmou o Presidente russo. “O espaço pós-soviético está cheio de uniformes desse género, eram pessoas da Crimeia.”

Apesar das ameaças que ficaram a pairar, foi como se Putin, na sua primeira intervenção pública após a fuga do Presidente Viktor Ianukovich de Kiev, tivesse carregado no botão de "pausa" - mas ficou com o dedo no botão, pronto a reiniciar o jogo.

Considerou a possibilidade de uso de força militar “um último recurso”, mas declarou que Moscovo se sente “no direito de utilizar todos os meios para defender” os cidadãos ucranianos russófonos e os russos étnicos, que vivem "aterrorizados" após o que ele considera ter sido “um golpe anti-Constitucional”. Embora não queira repor Ianukovich no poder, também não está preparado para reconhecer os resultados de eleições antecipadas, quando estão “terroristas no poder”, afirmou. Por isso, o recurso a uma intervenção armada, será sempre “legítimo”.

“Parece claro que a Rússia tem estado a esforçar-se para criar um pretexto para poder invadir mais”, comentou John Kerry, que chegou a Kiev com a promessa de um auxílio económico de mil milhões de dólares (cerca de 726 milhões de euros).

Sublinhando que “não houve um súbito aumento do número de crimes, nem de saques”, algo que justifique a argumentação de que os cidadãos russos estão em perigo na Ucrânia, Kerry frisou que a Rússia “está a ignorar a realidade”. O novo governo formado após a fuga de  Ianukovich “foi aprovado pelo Parlamento ucraniano, inclusivamente por membros do partido do Presidente deposto.”

Putin pronunciou-se de viva voz sobre a situação na Ucrânia depois de forças russas – que não trazem identificativos nas roupas, mas usam veículos com matrículas russas – terem assumido o controlo na Crimeia, e depois de um verdadeiro golpe de teatro no Conselho de Segurança da ONU, com a revelação de uma carta de Ianukovich pedindo uma intervenção militar russa para pôr fim a “uma guerra civil”.

O dia escolhido foi também aquele a que chegou a Kiev o secretário de Estado norte-americano – é o mais parecido com um confronto com a velha Nemésis da Guerra-Fria que se pode ter, à falta de um cara-a-cara com Barack Obama. Com a crise da Ucrânia, “o Presidente Obama enfrenta a crise mais difícil da sua presidência”, sublinhou à AFP Nicholas Burns, ex-embaixador dos EUA na NATO.

Mas agora que o poderoso abraço da Mãe Rússia está a apertar a Ucrânia, mostrando como pode sufocar ou apenas rodear, Putin parece disposto a mostrar alguns sinais de abertura. Barack Obama, em Washington, que falou ao mesmo tempo que Kerry em Kiev, notou-o. “Temos tido notícias de que Putin está a fazer uma pausa e a reflectir no que aconteceu”, disse o Presidente dos Estados Unidos. “Há uma opinião forte e generalizada de que a acção russa está a violar a lei internacional. Putin pode estar a consultar outros advogados, mas não me parece que ninguém se deva deixar enganar”, disse Obama.

“É verdade que carregou no botão de pausa, pelo menos para nos mostrar que é o homem que tem o controlo remoto na mão", comentou Christopher Dickey, editor da Newsweek. "Mas de facto, isso não quer dizer que Vladimir Putin esteja a recuar." 

UE paga a conta do gás
Na coluna dos sinais positivos, o primeiro-ministro do governo provisório, Arseni Iatseniuk, confirmou ontem que se iniciaram consultas entre a Ucrânia e a Rússia a nível ministerial. E a Rússia concordou em estar presente quarta-feira numa reunião com a NATO. Putin manifestou também interesse em trabalhar com o Fundo Monetário Internacional na concepção da ajuda de emergência à Ucrânia que neste momento está a ser elaborada.

Ao mesmo tempo, a Rússia está a usar a costumeira arma do fornecimento de gás natural, sacando da ameaça de cobrar a dívida de 2000 milhões de dólares da Ucrânia com a Gazprom. Avisou também que o desconto no preço do gás acordado em Dezembro deixará de estar em vigor a partir de Abril.

A União Europeia, entretanto, anunciou a intenção de ajudar a Ucrânia a pagar a sua dívida com a Gazprom – e poderá também vir a fornecer-lhe gás natural, anunciou o comissário europeu da Energia, Gunther Oettinger. “O pagamento das facturas de gás atrasadas da Ucrânia figura no topo da lista do programa de ajuda à Ucrânia da Comissão Europeia”, disse Oettinger, citado pela AFP. Um quarto das necessidades de gás da EU são satisfeitas pela Rússia e um terço do gás natural russo é exportado através da Ucrânia, que depende fortemente do gás que importa da Rússia. 

O Parlamento ucraniano ratificou ainda esta terça-feira o acordo de empréstimo de 610 milhões de euros da União Europeia, que fazia parte do acordo de associação e comércio livre rejeitado em Novembro pelo então Presidente Viktor Ianukovich. Foi essa rejeição que deu origem aos protestos de rua que levaram à actual crise político-militar.