A animação de Daniel Sousa, o português nomeado para os Óscares

Feral conta a história de uma criança selvagem levada à civilização e já percorreu quatro continentes.

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Feral foi distinguido em Portugal no Cinanima com o prémio RTP2/Onda-Curta de 2012 DR

Histórias verídicas, contos de fadas e mitos foram os ingredientes da pesquisa para Feral, a curta-metragem de animação do português Daniel Sousa nomeada para os Óscares. A isto juntou-se o interesse do realizador pelas “lutas internas entre o nosso intelecto e o nosso instinto” e pela “sensação de alienação de uma criança quando é exposta a novos ambientes”. Agora, é Daniel Sousa que está num novo ambiente: “Tem sido uma semana fantástica”, diz-nos depois de uma estadia em Hollywood a promover o seu filme.

Desde 2012, Feral foi apresentado em dezenas de festivais em quatro continentes. Com a nomeação para os Óscares, o filme alcançou uma “nova audiência mainstream, que pode nunca ter ouvido falar nele” e é “estimulante ouvir as reacções de um grupo completamente diferente de pessoas”, diz por email ao PÚBLICO. A curta, que passa esta noite na RTP2 às 21h57, centra-se numa criança que vive na selva e é resgatada por um caçador que a leva para a civilização.

É um filme “que consegue sintetizar de forma graficamente muito rica a história clássica de um menino selvagem, e com uma grande sensibilidade e expressividade. Há um trabalho grande de dinamização expressiva”, descreve o realizador José Miguel Ribeiro, presidente da Casa da Animação.

Regina Pessoa, realizadora de animação e que teve História Trágica com Final Feliz (2006) na shortlist de nomeações para os Óscares, explica que “é muito raro a Academia nomear filmes tão sensíveis”. Contudo, teme “que o Óscar vá ou para o filme de um grande estúdio, com vantagem de os seus trabalhadores serem os da Academia, ou para um filme que seja apenas uma piada ou divertido”. Espera que “desta vez seja diferente e que ganhe um filme artístico”.

Daniel Sousa, que José Miguel Ribeiro considera um “excelente desenhador”, vive desde os 12 anos nos EUA, onde estudou animação na Rhode Island School of Design. Nascido em Cabo Verde, tem agora 39 anos e é professor na escola onde se formou. Ribeiro gostaria que Daniel Sousa “começasse a trabalhar com portugueses”, pela “troca de experiências e a contaminação estética e artística dos autores e técnicos portugueses”.

A partir de Los Angeles, Daniel Sousa está “ansioso para trabalhar com ou em Portugal” e espera que “a notoriedade que a nomeação criou ajude a assegurar o financiamento do próximo filme”.

Feral foi distinguido em Portugal no Cinanima com o prémio RTP2/Onda-Curta de 2012. Mas a sua narrativa inicial não era a de uma criança que vivia na selva - a ideia era contar a história verídica de Kaspar Hauser, que cresceu numa cela e foi abandonado em Nuremberga com cerca de 16 anos. Alheio à sociedade e sem vocabulário, teve que se adaptar à vida do século XIX. “Não é que a história de Kaspar Hauser não fosse boa, mas senti que precisava de criar algo original que pudesse explorar melhor os temas pelos quais me interessava”, justifica Daniel Sousa, satisfeito por ao longo do seu trabalho de pesquisa se ter tornado capaz de escrever a sua própria história.