Editorial

Só faltou ao FMI um assumir de culpas

Os técnicos do Fundo criticam os resultados do programa, como se nada tivessem a ver com o assunto.

O relatório do FMI tem tanto de desconcertante como de realista. A parte boa é que os técnicos deixaram cair a teoria, quase obsessiva, de que Portugal precisa fazer mais para flexibilizar o mercado de trabalho. Reconhece, finalmente, que muito já foi feito para facilitar os despedimentos e sugere, ao invés, que o Governo faça qualquer coisa para baixar o custo da energia e do acesso das empresas aos portos para escoar mercadoria para o exterior.

A parte ‘mais ou menos’ é que o FMI revê em baixa as previsões do desemprego para este ano (de 17,7% para 16,8%), mas continua a dizer que a taxa vai manter-se em níveis anormalmente elevados (perto dos 15%) até 2018. E constata, com um ligeireza de quem parece nada ter a ver com o assunto, que “o desemprego continua elevado, sobretudo para os jovens e desempregados de longa duração”.

A parte má é que os técnicos mostram-se bastante descrentes em relação aos sinais e à sustentabilidade da retoma da economia, nomeadamente das exportações. A leitura que fazem dos números é que as vendas para o exterior têm sido feitas sobretudo à custa dos combustíveis da nova refinaria da Galp e do turismo. E avisam que as importações voltarão a crescer assim que houver uma retoma no consumo, o que voltará a desequilibrar a balança comercial.

Perante este diagnóstico sombrio, o que se propõe o FMI a fazer? Não se propõe a fazer nada, mas propõe que o Governo faça a reforma do Estado, que corte de forma permanente no valor das pensões e que reveja os salários e suplementos pagos aos funcionários públicos. O que faltou ao relatório foi uma nota de rodapé a explicar por que é que o próprio FMI, durante três anos, se limitou a aumentar impostos e a deixar as reformas estruturais para o final do programa de ajustamento.