Uma Mentira Mil Vezes Repetida, de Manuel Jorge Marmelo, é o Prémio Correntes d' Escritas 2014

Para o júri, esta é “uma singular parábola sobre a literatura e o seu poder redentor”. Marmelo concorria na shortlist com Rui Zink, Juan Marsé, António Cabrita e Ricardo Menéndez Salmón.

Manuel Jorge Marmelo, em 2011
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Manuel Jorge Marmelo, em 2011 PAULO PIMENTA

Uma Mentira Mil Vezes Repetida, de Manuel Jorge Marmelo, é a obra vencedora do Prémio Correntes d'Escritas 2014, anunciou esta quinta-feira a organização do encontro literário na Póvoa de Varzim. A obra é elogiada pelo júri como “uma singular parábola sobre a literatura e o seu poder redentor” que confirma “a maturidade do autor no domínio da narrativa”.

A 15.ª edição do festival literário Correntes d'Escritas decorre entre esta quinta-feira e sábado na Póvoa de Varzim e o prémio no valor de 20 mil euros é entregue na sessão de encerramento do evento. Uma Mentira Mil Vezes Repetida foi escolhido entre 15 obras finalistas e, segundo o júri constituído por Isabel Pires de Lima, Carlos Quiroga, Patrícia Reis, Pedro Teixeira Neves e Sara Figueiredo Costa, trata-se de uma narrativa “potencialmente infinita e de assumido pendor borgesiano”, que “permite lançar pontes para uma reflexão sobre os totalitarismos”.

Evocando “as palavras de Goebbels” que ecoam “desde o título”, o júri, que decidiu este prémio por maioria, destaca ainda que a narrativa de Manuel Jorge Marmelo se ancora “num quotidiano prosaico de uma cidade reconhecível na qual irrompem laivos de actualidade”. Em Uma Mentira Mil Vezes Repetida, editado pela Quetzal em 2011, o júri destaca ainda “a convocação da memória colectiva, através da atenção às múltiplas vozes que vão irrompendo”, que “propicia uma repescagem valorativa da dimensão oral da palavra”.

Na manhã desta quinta-feira, Manuel Jorge Marmelo recordou que, ao conhecer a lista de finalistas, o viu como “um grupo muito complicado” e considerou que “dificilmente teria ali alguma possibilidade de vencer”. O Prémio Correntes d' Escritas 2014 “vem na altura mais complicada da minha vida, uma vez que estou desempregado”, disse ainda o ex-jornalista do PÚBLICO, que se descreveu como “vítima da reestruturação da economia”.

Após o anúncio do prémio, Manuel Jorge Marmelo explicou que depois de ficar desempregado lançou em auto-edição um livro de contos e as Crónicas do Autocarro através da Amazon, que permite imprimir os livros após compra. Porquê? "Para me manter ocupado e porque nas editoras dizem que os meus livros não vendem, e os de contos ainda menos”, explicou. O tempo permitiu-lhe ainda terminar um romance e estar prestes a acabar um outro, mas sem “perspectivas de editar nenhum nos tempos mais próximos”. Nesta obra, que Marmelo considera o seu "romance mais maduro", “o narrador é alguém que vai inventando um livro que não existe, e que é atribuído a um judeu húngaro que terá fugido durante a II Guerra Mundial”, fuga durante a qual chega a Portugal. Sobre as alusões Jorge Luis Borges, tanto pela crítica quanto pelo próprio júri a propósito deste livro, o escritor diz que essa proximidade “não foi intencional, embora haja uma passagem do livro em que o narrador – a pessoa que vai inventando as várias histórias, as várias mentiras, inventa uma história em que se faz passar pelo Borges e depois é perseguido por uma organização secreta de pessoas que tentam evitar falsificações do Borges…”, diz. 

O Prémio Literário Correntes d'Escritas/Casino da Póvoa é atribuído anual e alternadamente à poesia e à prosa. Neste ano da prosa, a Câmara da Póvoa de Varzim seleccionara como finalistas, além de Uma Mentira Mil Vezes Repetida, A Instalação do Medo, de Rui Zink, A Luz É Mais Antiga que o Amor, de Ricardo Menéndez Salmón, A Maldição de Ondina, de António Cabrita, A Sul. O Sombreiro, de Pepetela, A Vida no Céu, de José Eduardo Agualusa, Caligrafia dos Sonhos, de Juan Marsé, Dentro de Ti Ver o Mar, de Inês Pedrosa, Diário da Queda, de Michel Laub, Metade Maior, de Julieta Monginho, O Filho de Mil Homens, de Valter Hugo Mãe, O Retorno, de Dulce Maria Cardoso, Pai, Levanta-te, Vem Fazer-me um Fato de Canela, de Manuel da Silva Ramos, Quando o Diabo Reza, de Mário de Carvalho, e Um Piano para Cavalos Altos, de Sandro William Junqueira.

Dos 15 finalistas

, o júri passou a uma 

shortlist

 de cinco nomes, que além de Manuel Jorge Marmelo incluía Rui Zink, Juan Marsé, António Cabrita e Ricardo Menéndez Salmón. 

Ao agradecer o prémio na Póvoa de Varzim, Marmelo recordou ainda o escritor Manuel António Pina, que morreu em Dezembro de 2012 e que foi a primeira pessoa a apresentar Uma Mentira Mil Vezes Repetida, em Matosinhos. Pina “faz-nos muita falta, todos os dias, pela sua forma cívica e ética de olhar para o mundo”.Nascido em

 1971 no Porto, Manuel Jorge Marmelo é jornalista desde 1989 e a sua estreia literária data de 1996 com

O homem que julgou morrer de amor/ O casal virtual

. Seguiram-se 

Portugués, guapo y matador

(1997), 

Nome de tango 

(1998), 

As mulheres deviam vir com livro de instruções (de 1999 e que teve edição em Espanha e Itália 2008), O Amor é para os Parvos (2000), Sertão Dourado (2001), Os Fantasmas de Pessoa (2004), Os Olhos do Homem que Chorava no Rio (de 2005 e com a poeta angolana Ana Paula Tavares), Aonde o Vento me Levar (2007), As Sereias do Mindelo (2008). Uma Mentira Mil Vezes Repetida foi editado em 2011 e Somos Todos Um Bocado Ciganos, o seu livro mais recente, saiu em 2012.

Além destes romances, Manuel Jorge Marmelo assinou quatro livros infantis, entre os quais A Menina Gigante (2003), escrito com a filha Maria Miguel e ilustrado por Simona Traina, que integra o Plano Nacional de Leitura. Em 2002, editou a sua primeira colectânea de crónicas e reportagens, Paixões & Embirrações, e no ano seguinte lançou o livro de contos e fotografia Oito Cidades e Uma Carta de Amor. Sobre a sua cidade, escreveu Porto: Orgulho e Ressentimento, bem como o guia Porto IrrepetívelMarmelo é ainda autor de vários livros de contos, um dos quais, O silêncio de um homem só (2004), recebeu o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco. 

Os 15 finalistas de 2014 foram apurados de mais de 180 obras a concurso e, no ano passado, o prémio foi entregue a Hélia Correia pelo livro de poemas A Terceira Miséria. Em 2012, o distinguido foi escritor brasileiro Rubem Fonseca com o livro Bufo & Spallanzani (Sextante Editora).

Além do principal galardão do Encontro de Escritores de Expressão Ibérica, o evento entregará o Prémio Conto Infantil Ilustrado Correntes d'Escritas/Porto Editora a O guarda-chuva de Mariana da turma 4.º.1 da Escola Básica de Sever de Vouga - o galardão premeia um conto inédito, em língua portuguesa, escrito e ilustrado por alunos do 4.º ano, num trabalho colectivo supervisionado pelo respectivo professor. Já o Prémio Literário Correntes d'Escritas Papelaria Locus, relativo ao melhor conto escrito por jovens, será atribuído a Jardins Vazios de Novembro, de Luísa Raquel Martins Morgado, que receberá 1000 euros. O Prémio Fundação Dr. Luís Rainha, destinado ao melhor romance, conto ou poesia sobre a Póvoa de Varzim, também no valor de 1000 euros, não foi atribuído este ano por falta de qualidade dos trabalhos apresentados.