Grupos de autodefesa tomam bastião do narcotráfico mexicano

Milícias populares foram apoiadas pela Polícia Federal e o Exército mexicano numa ofensiva contra o cartel dos "Cavaleiros Templários", no Oeste do país.

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A cidade de Apatzingán é agora controlada pelas mílicias Edgard Garrido/Reuters
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Enrique Castro/AFP
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Ao fim de um ano de actividade, as milícias populares de luta contra o narcotráfico no estado de Michoacán – grupos vigilantes comunitários que se intitularam de autodefesa – reclamaram a sua primeira grande vitória na ofensiva contra os chamados “Cavaleiros Templários”, um dos cartéis mais violentos do México, “especializado” na produção e tráfico de anfetaminas e outras drogas sintéticas.

Em triunfo, uma caravana de paramilitares entrou pelo centro da cidade de Apatzingán, uma localidade de 130 mil habitantes no Sul do Michoacán, um dos principais territórios do narcotráfico que supostamente serve de quartel-general aos “Cavaleiros Templários”. Na praça central, as milícias anunciaram que controlavam todos os acessos à cidade – e também que, pelo caminho, tinham assumido o controlo de outros onze municípios e de dezenas de povoações da “Tierra Caliente”.

No início de Janeiro, o coordenador dos grupos de autodefesa, Estanislao Beltrán, prometeu livrar Apatzingán dos “Cavaleiros Templários” e acabar com a sua actividade. Depois de marcharem até ao centro da cidade, as milícias iniciaram uma busca porta a porta por membros do cartel, mas como escrevia a BBC Mundo, dificilmente conseguiriam encontrar os fundadores do grupo, que costumavam ser vistos com frequência – Nazário Moreno, conhecido como El Chayo; Servando Gómez, La Tuta, e Enrique Plancarte, El Kike, desapareceram de Apatzingán e estarão escondidos nas montanhas.

No entanto, entre as dezenas de detidos encontrava-se António Magana Pantoja, irmão de Nazário Moreno e primo de Enrique Plancarte. “Este é um grande triunfo, que muitos julgavam impossível”, declarou Hipólito Mora, líder do grupo de vigilantes de La Ruana. “Graças a Deus estavam enganados e estamos aqui hoje, calmos e tranquilos”, acrescentou. “Mas temos de ter precaução. Mais vale avançar pouco a pouco: a segurança ainda não foi totalmente restabelecida e a população continua exposta ao perigo”, referiu Estanilao Beltrán.

Os grupos de autodefesa já tinham realizado um primeiro raide sobre a cidade a 11 de Janeiro, tendo ocupado a praça central de Apatzingán, que além de ser o bastião dos “Cavaleiros Templários” também é o maior centro exportador de abacate do mundo. Porém, os traficantes responderam com violência, lançando fogo e destruindo muitos dos negócios da cidade e arredores. No fim-de-semana, perante o iminente regresso das milícias, os criminosos lançaram uma nova ameaça de represálias sobre a população.

Para esta nova ofensiva sobre Apatzingán, as milícias de autodefesa contaram com o apoio de forças da Polícia Federal e do Exército mexicano: há duas semanas, estes grupos assinaram um entendimento com o Governo, que aceitou conceder aos voluntários, por um período temporário, o estatuto legal de corpos de “defesa rural” (uma figura prevista na lei do século XIX) para os retirar da clandestinidade. Além das carrinhas dos vigilantes, a caravana integrava veículos blindados do Exército e apoio aéreo de helicópteros: as tropas nacionais foram destacadas pelo Presidente Enrique Peña Nieto após a escalada de violência de Janeiro.

Paralelamente, o Governo da cidade do México anunciou um plano de resgate do Michoacán no valor de 3,4 mil milhões de dólares, direccionado para a melhoria das infra-estruturas, a educação e outros serviços públicos, e nomeou um comissário, Alfredo Castillo, para supervisionar a segurança e o desenvolvimento do estado (em 2010, confrontado com o caos de segurança em Ciudad Juárez, o então Presidente Felipe Calderón destinou 565 milhões de dólares para o projecto “Todos somos Juárez”, destinado à reconstrução da cidade).

Os habitantes do Michoacán decidiram-se a formar milícias populares depois de constatarem a “impotência” ou “incapacidade” das autoridades locais para ripostar contra os abusos e violência dos grupos traficantes. Numa reacção às extorsões, violações, sequestros e assassínios atribuídos aos “Cavaleiros Templários” (no ano passado, foram reportados 990 homicídios no estado do Michoacán), as comunidades organizaram-se em grupos paramilitares, muitos dos quais munidos com armamento de guerra, para garantir a segurança das suas famílias e dos seus bairros.

A sua acção, inicialmente, mereceu críticas do Governo, que os acusou de serem inimigos do Estado, e mais ainda da imprensa mexicana, que os descreveu como “marginais disfarçados de justiceiros”. Os próprios “Cavaleiros Templários” acusam os voluntários de agir em concertação com o cartel concorrente “Nova Geração”, uma organização criminosa do estado contíguo de Jalisco nascida de uma divisão do poderoso grupo Sinaloa, e que disputa o mesmo território ocidental do México.

O narcotráfico foi responsável por mais de 70 mil mortes no México nos últimos seis anos.