Entrevista

Na Rússia, a homossexualidade é só um acto e as pessoas podem ser castigadas ou curadas

Os Jogos Olímpicos de Sochi fizeram explodir os protestos por causa da discriminação dos gays russos. Mas esta é uma história com raízes profundas

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Na Rússia, a rejeição da homossexualidade é uma coisa séria. A lei que torna crime a “propaganda da homossexualidade” junto de menores não é apenas uma ideia do Presidente Vladimir Putin — é realmente apoiada pela população.

Segundo uma sondagem do Instituto Pew de Junho do ano passado, quando foi publicada esta lei, apenas 16% dos russos considera que a homossexualidade deve ser aceite pela sociedade. Em 2007 eram 20%, pelo que a Rússia está a tornar-se ainda mais intolerante.

Estes dados não surpreendem Laurie Lessig, professora de Sociologia e Género, Sexualidade e Estudos Feministas na Universidade de Middlebury, no estado de Vermont (Estados Unidos da América), que entre as décadas 1980 e 1990 viveu na Rússia e fez trabalho de campo a investigar a comunidade gay na União Soviética — que então se estava a desagregar. “Será preciso muito mais do que boicotes e estrelas da pop para tornar este país mais tolerante. A Rússia tem uma história da sexualidade muito diferente da do Ocidente, e o que se passa hoje é o resultado dessa história”, afirmou.

A Rússia está a ser alvo de uma intensa campanha motivada pela lei que pune com uma multa que pode ir até 10.600 euros e com penas de prisão quem faça “propaganda homossexual” — embora sem definir o que seja essa propaganda. A investigadora norte-americana, que escreveu um livro publicado em 1999 sobre o seu trabalho na Rússia — Queer in Russia: A Story of Sex, Self, and the Other — falou com o PÚBLICO sobre a forma como a Rússia encara a homossexualidade: como meros actos, que podem ser criminalizados ou tratados.

É surpreendente que as sondagens mostrem que a lei que criminaliza a “propaganda gay” junto de menores seja apoiada por mais de 80% da população russa. Por que é que a Rússia não se aproximou mais do Ocidente nas suas atitudes em relação à sexualidade?
É importante compreender que a Rússia tem uma história da sexualidade diferente da do Ocidente. Como escreveu [o filósofo] Michel Foucault, no Ocidente nasce-se homossexual. Na Rússia, os actos homossexuais sempre foram considerados apenas verbos —  nunca se transformaram em substantivos, em espécies sexuais, o homossexual e o heterossexual. Isto é potencialmente negativo: se os actos sexuais são apenas acções, então as pessoas podem ser castigadas ou curadas. De 1934 a 1993, os homens podiam ser enviados para campos de trabalho por fazerem sexo com outros homens e as mulheres eram muitas vezes internadas em hospitais psiquiátricos por desejarem outras mulheres.

Nos tempos soviéticos, a homossexualidade era tratada como a tuberculose — atravessava as fronteiras, vinda do Ocidente burguês, e podia infectar qualquer um. Qualquer pessoa mesmo. Esta visão da sexualidade reduzida a meros actos sexuais criava uma atmosfera em que qualquer um podia sentir-se atraído por alguém do mesmo sexo. Não te tornarias homossexual ou heterossexual por causa das relações sexuais que tivesses — isso humanizava as pessoas, dava-lhes uma certa dose de liberdade, em especial após a queda da União Soviética, quando as grandes cidades russas fervilhavam de possibilidades queer [gays, lésbicas, bissexuais, transgénero], de activismo e artísticas.

Os cientistas e os profissionais de medicina russos não tentam contrariar esta visão discriminatória da homossexualidade como doença ou crime?
Mas esta pode não ser a melhor maneira de combater este preconceito. Há muitos psicólogos, sociólogos e antropólogos que estão a trabalhar para combater esta ideia de “contágio gay”. Mas será esta a melhor maneira de combater este preconceito? Na América, uma coisa tão complexa como o desejo foi reduzida ao conceito “nasci assim”. Isto parece uma simplificação absoluta para muitos cientistas russos (e americanos), que fazem uma análise mais profunda, olham para os registos antropológicos e históricos e defendem que o sexo é algo bastante mais complicado.

Os cientistas russos devem investir na noção de os gays simplesmente nasceram assim? Talvez, mas não tenho a certeza de que isso poderá proteger os gays na Rússia. Afinal de contas, outros grupos que também “nasceram assim” – como as minorias raciais e os judeus – também são alvo de discriminação. Mas talvez insistir na ideia de que os gays nascem assim possa diminuir o pânico em relação aos homossexuais, reduzir o pânico de que a homossexualidade seja infecciosa. Acredito que há muitas pessoas a trabalhar no duro para contrariar este pânico – académicos, activistas, jornalistas. O que eu não acredito é que devam ser os académicos americanos a dizer-lhes o que devem fazer.

Os direitos das minorias sexuais existe como tema da agenda política? A oposição pega nele?
Sim, mas não no Parlamento, que votou unanimemente a lei sobre a propaganda gay. Mas há inúmeros grupos de defesa dos direitos humanos e dos direitos dos homossexuais que lutam contra esta forma de discriminação. Infelizmente, os media são quase completamente controlados pelo Governo e dizer alguma coisa sobre a homossexualidade pode resultar em ser multado por quebrar a lei. Portanto, se não houver uma imprensa livre na Rússia, estes grupos nunca conseguirão mobilizar muita gente.

A comunidade gay na Rússia já começou de facto a organizar-se, apesar de todas estas dificuldades?
Há organizações gay, mas têm uma eficácia limitada, porque não há uma imprensa livre, e não existe o direito à livre manifestação. Além disso, alguns líderes da comunidade gay tentaram mostrar-se como “russos autênticos”, manifestando um perturbante anti-semitismo. Outros, no entanto, estão a fazer alianças com organizações que defendem judeus e povos da Ásia Central – se se unirem, os que são considerados “poluição estrangeira” podem conseguir muito mais do que se trabalharem sozinhos.

O fenómeno dos ataques violentos contra homossexuais colocados online por um grupo que se identifica como Occupy Pedophilia, que parecem ser neonazis, é algo de novo, ou é apenas um novo rosto de uma violência que já existia em tempos soviéticos?
Nos tempos da União Soviética havia os remontniki, os “reparadores”, que andavam de carro à procura de pessoas que pareciam homossexuais ou punks, ou de alguma forma uma ameaça à pureza russa, nos quais pudessem bater. Estes Occupy Pedophilia são apenas a versão destes remontniki da Idade da Internet. Tal como no tempo dos sovietes, as autoridades ignoram esta forma de vigilantismo, desde que isso sirva os seus interesses – que é manter a população receosa e sob controlo.