Eurodeputada socialista Ana Gomes diz ter sido "traída" pelo MPLA

Em 2003, "como responsável pelas relações internacionais do PS", disse ao secretariado do seu partido que era o momento de "levantar as objecções" à entrada do MPLA na Internacional Socialista.

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Ana Gomes considera que "evolução de Angola e do MPLA não foi a prometida" Miguel Madeira

A eurodeputada socialista Ana Gomes afirmou sentir-se traída pelo MPLA, depois de ter ajudado à integração na Internacional Socialista do partido no poder em Angola.

Intervindo no gabinete do Parlamento Europeu em Lisboa, Ana Gomes afirmou, esta sexta-feira, que já houve "tentativas subtis" por parte do MPLA de comprar o seu "silêncio e passividade" em relação aos direitos humanos em Angola. A eurodeputada participava na sessão Diamantes, Milionários, Violência e Pobreza nas Lundas, juntamente com o jornalista angolano Rafael Marques e dois angolanos residentes na região diamantífera angolana que foram testemunhas de alegados abusos de direitos humanos.

Ana Gomes recordou que em 2003, "como responsável pelas relações internacionais do PS", disse ao secretariado do seu partido que era o momento de "levantar as objecções" à entrada do MPLA na Internacional Socialista, objectivo desejado há 11 anos pelo maior partido angolano. "Obviamente, para mim, a entrada do MPLA na Internacional Socialista significava um grau mais elevado de exigência", frisou, argumentando que "a evolução de Angola e do próprio MPLA não foi a que era prometida".

Para a eurodeputada, há um "grande desconhecimento" da situação em Angola e poucos portugueses se preocupam em "pôr a situação de Angola no mapa". "Prefere-se passar por cima. As pessoas podem não ter a coragem de dar a cara e dar o nome, mas há interesse em saber. Não noto atitude negativa ou hostil, mas há passividade. Por qualquer que seja a razão", disse ainda.

Ana Gomes mostrou-se ainda preocupada com a situação de Queirós Chilúvia, director de Informação da Rádio Despertar, apoiada pela UNITA (oposição), condenado esta sexta-feira a seis meses de prisão com pena suspensa pelo crime de difamação da Polícia Nacional.

Queirós Chilúvia foi detido na tarde do passado dia 2, junto à Divisão Policial do Cacuaco, um dos distritos de Luanda, depois de ter procurado saber junto da Polícia Nacional a razão dos gritos que tinha ouvido, provenientes do interior das instalações.

Ana Gomes afirmou ainda que vai pedir especial protecção para os três angolanos – Rafael Marques, Mwana Capenda e Linda Moisés da Rosa – que participaram no encontro sobre direitos humanos, em Lisboa. "Portugal tem responsabilidade porque tem relações humanas, históricas e políticas. Estes problemas dizem-nos respeito e sinto-me responsável pela segurança destes três angolanos e escreverei ao Governo português, [ao presidente da Comissão Europeia] Durão Barroso e à senhora Ashton [chefe da diplomacia europeia] para que estas pessoas sejam intocáveis", concluiu.