“Mais vale degolar velhinhas do que ser um diletante”

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Dez anos depois, o chileno Jaime Collyer volta a ser publicado em Portugal. Um romance sobre os salões literários, a frivolidade e a manipulação da sociedade de hoje, mas também sobre a frustração romântica de não lutar por ideais

Licenciou-se em Psicologia para cumprir a tradição da “classe média latino-americana” e estudou Relações Internacionais, Ciência Política e Sociologia do Desenvolvimento para sobreviver no exílio em Madrid, enquanto a ditadura de Pinochet acinzentava o Chile. Porém, desde muito cedo, e “sem saber”, Jaime Collyer foi-se transformando em escritor. Assim que lhe foi permitido, pôs tudo de parte: hoje, só escreve e ensina. A Presumível Fidelidade das Partes, de 2009, é o seu quarto livro editado em Portugal, o primeiro nos últimos dez anos. Um romance sobre o débil papel dos intelectuais na sociedade do espectáculo — cínico, triste, mas com um raiozinho de romântica esperança.

Collyer tende a ser associado ao movimento que se convencionou designar por “nova narrativa” chilena dos anos 90 — e de que fazem parte, entre outros, Roberto Bolaño e Luís Sepúlveda —, um corpo heterogéneo a que aponta características comuns: “Somos todos muito convencionais e insistimos em contar uma história de A a Z, um relato transmissível a terceiros, com um enredo discernível; na temática, penso que todos abordamos de maneira mais ou menos indirecta o assunto da traição individual ou da traição das instituições face ao indivíduo. No Chile, pelo menos, a traição das convicções converteu-se num recurso de sobrevivência durante a ditadura pinochetista e depois num modus vivendi durante a transição para a democracia.”

País de dois poetas Nobel (Gabriela Mistral e Pablo Neruda), “onde toda a gente se sente poeta, mesmo que só escreva mamarrachos”, o Chile não é um leve para os seus narradores, obrigados a “carregarem” esse fardo sempre que escrevem. No entanto, diz Collyer, as marcas dessa influência poética não aparecem no estilo “mas ao nível da tertúlia literária, em que dominam os usos e costumes dos poetas locais, ou seja, a ocasional punhalada nas costas”.

Este livro começa assim, com uma punhalada de salão literário, embora não nas costas: à vista de toda a gente, a mulher de um escritor delicia-se a seduzir outro de maneira ostensiva, levando aquele a vingar-se simulando o mesmo com a mulher do outro — é a vida conjugal que se desfaz por já não ser possível presumir a fidelidade das partes; daí para a frente, Lombardi, o dito escritor, vê a vida fugir-lhe das mãos — inclusive o romance que ninguém leu e toda a gente garante que é uma biografia sobre Átila. Vai resistindo enquanto pode, bramando aos ventos, opondo o espírito aos tempos, até se deixar levar por vaidade, vingança, ego, para aquilo que tem consciência de ser apenas simulacro mas que sabe melhor.

Num tempo de aparências em que quem leva tempo a reflectir perde o comboio do soundbyte, vence quem articula primeiro, perde quem se perde a pensar, o mundo entristece-se na frivolidade da gargalhada fácil, do aplauso entusiasta, das luzes da ribalta — e o intelectual está cada vez mais fechado nas sombras ou iluminado num halo mais de brilhantina do que brilhante.

A escrita de Collyer é aparentemente desesperançada, seca, até cínica; a do intelectual ciente de que o trânsito das autoestradas da informação não passa pelas veredas letradas, mesmo quando há saídas marcadas e simulacros de entroncamentos. Collyer não é despeitado, embora as suas personagens ajam por despeito; ou melhor, também há cinismo naquilo que escreve, mas não há só cinismo naquilo que escreve. Debaixo da superfície moderna do conformado, ainda resta suficiente quixotismo para arremeter — na boa tradição do intelectualismo latino-americano — contra a visão simplista do mundo imposta por Washington e continuar a sonhar com os sonhos que as revoluções traziam e hoje já não se sonham. É feio pensar em revoluções.



Em A Presumível Finalidade das Partes há muito cinismo, alguma tristeza e a ideia de que mais vale uma luta errada do que nenhuma luta.

Estou de acordo, é melhor fazer alguma coisa, resistir à manipulação do sistema, ou tentar resistir, ao invés de permanecer de braços cruzados. Sou neto de escoceses, o que me legou, para meu pesar, uma propensão calvinista. O meu pai costumava insistir na valia per se do labor, independentemente do resultado: vale mais que um indivíduo faça alguma coisa, mesmo que seja degolar velhinhas, do que ser um diletante. Por outro lado, na conclusão sugerida pelo romance, há uma reverberação de algo que já estava em O Americano Tranquilo, de Graham Greene: numa luta hitórica de facções, não é possível ficar à margem, não optar, não adoptar uma posição, não se comprometer. Especialmente se essa luta é o confronto entre conquistadores e colonizados, que, de alguma forma, é o tema escondido do meu livro.

Este livro é uma teoria da conspiração criada antes dos acontecimentos que depois se transforma em realidade. A manipulação da informação na era digital fragiliza-nos como indivíduos e como sociedade?

O que me inquieta muito na nossa era tecnotrónica é a possibilidade que hoje existe de destruir reputações pela via da manipulação de informação — uma frase, uma palavra — sem que o imputado possa revertê-la. O grande problema da nossa época é a mistura entre o narcisismo mediático alimentado diariamente e o poder que hoje têm as redes sociais ou os meios de comunicação de massas de arrasar um indivíduo com dados falsos.

Na sociedade do espectáculo deixou de fazer sentido o papel do intelectual, ou os intelectuais ainda não descobriram o seu papel na sociedade do espectáculo?

Inclino-me mais para o primeiro, penso que há uma degradação recente do papel do intelectual como porta-voz dos oprimidos, consequência directa da sociedade performática, da cultura narcisista e mediática e da idolatria da visibilidade a qualquer preço. Se calhar foi sempre assim e o intelectual nunca ofereceu essas garantias de compromisso com a verdade e a justiça que o papel tradicional lhe atribuía, mas antes não se notava: com a sociedade do espectáculo, paradoxalmente, caem as máscaras e o intelectual revela a sua verdadeira cara de cúmplice das elites e dos poderes fácticos. Na sociedade do espectáculo só há espaço para a performance.

É como se a influência do intelectual fosse alheia ao próprio e às suas ideias, dependente da televisão e da Internet mais do que da originalidade ou interesse dos seus postulados.

Estamos reduzidos à condição de engrenagens que vociferam posturas de rebeldia na Internet ou marcam “gosto” nas causas pretensamente afins a esse inconformismo. As redes sociais, com a sua contribuição inequívoca para a democratização do debate global, cobraram o preço de vulgarizá-lo e esvaziá-lo de conteúdo. São como a zamisdat [publicação clandestina] durante o estalinismo ou o dazibao [jornal de parede] da tradição chinesa: panfletos difundidos para desabafar, uma válvula de escape que alivia a pressão social preservando o essencial da estrutura de poder existente.

Está o intelectual, o académico condenado a aproveitar as migalhas que lhe atira a sociedade do espectáculo?

O pior de tudo não é que o apresentador televisivo seja hoje mais relevante do que os académicos mas que os académicos tenham começado a frivolizar o seu discurso para se adequarem ao modelo do rating e da banalidade ambiente. O pior não é que o intelectual da nossa época só disponha de migalhas, mas que tenha começado a disfrutar dessas migalhas e a legitimá-las como forma válida de mostrar a sua inteligência e o seu saber.

Um intelectual como o francês Bernard-Henri Lévy que vai para a Bósnia durante a guerra é um exemplo do intelectual da sociedade do espectáculo?

Henri-Lévy e os “novos filósofos” foram os primeiros a entrar nesse jogo, a transformar-se em pensadores mediáticos e a colocar-se o rótulo para estar na moda. Estão nos alvores da cultura narcisista, são parte do vasto processo que a engendrou.

Em entrevista ao Ípsilon no ano passado, Mario Vargas Llosa afirmou que a nossa sociedade está ameaçada pela banalização da cultura. Está de acordo?

Muito de acordo, embora seja um diagnóstico tardio, o de Vargas Llosa. Guy Debord disse-o muito antes e com ele Christopher Lasch que, em Culture of Narcisism, no princípio dos anos 1970, anunciou a derivação performática da frivolidade que haveria de afectar boa parte dos movimentos libertadores dos anos 1960. O primeiro sintoma, dizia Lasch, manifestou-se quando os Panteras Negras posaram num estúdio fotográfico para aí fazerem os postais com a sua imagem que passaram a comercializar. Eldridge Cleaver foi por aí e acabou a posar nu numa gigantografia de Nova Iorque para vender cuecas. O slogan dizia: “As cuecas da pantera”. É, no mínimo, desolador.

A actual crise económica deriva directamente da crise da cultura ocidental, como afirma Vargas Llosa?

Penso que a crise económica é mais vasta e estrutural do que a mera degradação da vida cultural e que antes pelo contrário: o esgotamento cíclico e endémico do neoliberalismo predador repercutiu-se, por seu lado, na vida educativa e na cultura, degradando-as a serem mais um objecto na produção em série, mais um objecto perecível. Provavelmente, é um caminho de dois sentidos e, no fim, um círculo vicioso: o capitalismo selvagem degrada a vida cultural e a educação, mas a cultura e a educação degradadas só podem engendrar maior injustiça e exploração.