Primeiro carregamento de armas químicas já saiu da Síria

Nove contentores contendo os materiais mais perigosos entregues pelo regime de Assad zarparam do porto de Latakia.

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Cargueiro dinamarquês deixou a Síria sob escolta da marinha da Noruega AFP PHOTO/NORWEGIAN ARMED FORCES/LARS MAGNE HOVTUN

O primeiro carregamento de materiais perigosos utilizados no fabrico de armas químicas pelo regime do Presidente Bashar al-Assad saiu nesta terça-feira da Síria a bordo de um cargueiro dinamarquês, dando início a uma nova fase do processo de desarmamento acordado pelo Governo de Damasco com a comunidade internacional.

Segundo a Organização para a Proibição das Armas Químicas (OPAQ), que ficou encarregada do programa de desmantelamento do arsenal sírio, um carregamento prioritário de nove contentores, contendo os materiais químicos mais perigosos entregues pelo regime, partiu do porto de Latakia, sob a escolta da Marinha da Dinamarca e Noruega. Navios da China e Rússia estavam também envolvidos na operação de segurança marítima do transporte.

Os contentores serão transferidos do cargueiro Ark Futura para um navio militar dos Estados Unidos, onde os agentes nocivos vão ser destruídos num tanque de titânio especialmente concebido para o efeito. A operação será realizada a bordo, em águas internacionais.

Os termos do acordo para o fim do programa químico da Síria previam a remoção das toxinas mais mortíferas, entre as quais gás mostarda, até ao dia 31 de Dezembro: o atraso deveu-se às dificuldades de acesso dos inspectores internacionais a algumas das unidades de armazenamento deste tipo de armamento, por causa da guerra civil em curso, e também a problemas técnicos durante o transporte por terra e ao cumprimento de burocracias antes do embarque. As condições meteorológicas e de navegação também impediram o navio de zarpar antes desta terça-feira.

Jihadistas retiram de Raqa

Os combates prosseguem entretanto na Síria, longe da costa: na capital Damasco, na região central do país e principalmente no Norte junto à fronteira com o Iraque, onde os rebeldes que enfrentam o regime de Assad alcançaram uma pequena vitória, após vários dias de confrontos contra jihadistas na cidade de Raqa.

Segundo informações avançadas pelo Observatório Sírio dos Direitos Humanos, os rebeldes montaram um cerco aos edifícios ocupados pelas milícias do Estado Islâmico do Iraque e Levante (ISIS), um grupo extremista ligado à Al-Qaeda e que tomou conta da cidade de Raqa em Junho do ano passado, impondo uma rigorosa versão da sharia sobre a população e detendo centenas de pessoas, incluindo activistas, jornalistas e pessoal de organizações internacionais.

O Observatório, sediado em Londres, reportou a descoberta de 34 corpos após o fim dos tiroteios e a aparente retirada dos extremistas. Os mortos, todos eles estrangeiros, terão sido executados, acrescentou a organização, que estima que mais de 275 pessoas tenham sido mortas na cidad desde sexta-feira.

A intensidade dos combates em Raqa levou uma outra facção islamista, a Frente al-Nusra, composta maioritariamente por sírios, a apelar a um cessar-fogo na cidade. Numa gravação divulgada noTwitter, o líder do al-Nusra, Abu Mohammed al-Golani, responsabilizou ISIS pelo recrudescimento da violência, que está a afastar os grupos rebeldes da luta contra o regime de Bashar al-Assad. “Muitas unidades rebeldes cometeram transgressões e embarcaram em políticas erradas que estão a ter um papel proeminente na propagação do conflito”, acusou Golani, citado pela Reuters.

Os activistas sírios dão também conta de intensos confrontos entre diferentes grupos rebeldes nas províncias de Alepo e Idlib, junto à fronteira turca. Nas últimas semanas, a fragmentada coligação de opositores – alguns islamistas e outros moderados – tem estado envolvida em várias frentes para travar a expansão do ISIS, que entrou na Síria a pretexto da guerra contra Assad mas está a ser acusado do envolvimento em raptos, tortura a execuções tanto de combatentes como de civis.

O movimento radical está também particularmente activo do outro lado da fronteira com o Iraque, onde tomou na semana passada a cidade de Falluja e partes de Ramadi. Os Estados Unidos e até o Irão já prometeram apoiar os esforços do primeiro-ministro, Nuri al-Maliki, contra os jihadistas.

Como escrevia a Reuters, as tensões e divisões entre os diferentes grupos combatentes da oposição síria diminuem a sua capacidade negocial perante o regime e os mediadores das conversações marcadas para o próximo dia 22 de Janeiro. As tropas do regime têm feito progressos contra os rebeldes na capital Damasco e na região central do país, embora na mesma mensagem em áudio, Abu Mohammed al-Golani sublinhasse que “ainda não era tarde” para as forças rebeldes assumirem a iniciativa e recuperarem os campos de batalha entretanto ocupados pelo Exército. “Mas isso só será possível com um cessar-fogo das facções rebeldes, e a constituição de um conselho independente”, afirmou.
 

ONU deixa de apresentar estimativas do número de vítimas

A Organização das Nações Unidas deixou de actualizar as suas estimativas relativas ao número de vítimas mortais da guerra da Síria, por não poder verificar de forma independente a veracidade do material das diferentes fontes de informação dentro do país. O último número avançado por aquela organização internacional, já há seis meses, apontava para mais de cem mil mortos desde o início do conflito, em Março de 2011.

“Foi sempre um exercício difícil, e muitas vezes arriscado do ponto de vista da fiabilidade da informação que nos era transmitida. E agora chegamos a um ponto em que já não podíamos garantir a precisão ou objectividade dessa informação”, explicou Rupert Colville, o porta-voz do Alto-Comissariado para os Direitos Humanos das Nações Unidas. “Essa é uma linha que não podemos ultrapassar, por isso ficou decidido que não seriam apresentadas novas estimativas”, acrescentou.

A contabilidade apresentada pelas Nações Unidas resultava da monitorização dos dados fornecidos por seis organizações não-governamentais reputadas como independentes e fiáveis. “Ao longo do tempo, esse número foi-se reduzindo, e actualmente só podemos contar com a informação de duas ou três das nossas fontes habituais”, referiu Colville.