Governo iraquiano prepara ofensiva para recuperar Falluja à Al-Qaeda

Enquanto ganhava espaço na Síria, o ISIS ia crescendo no Iraque, onde a autoridade do Governo é questionada pelas populações árabes sunitas. Os EUA estão preocupados mas não voltarão a enviar soldados.

O ISIS declarou Falluja um "Estado islâmico" na sexta-feira, após uma semana de combates
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O ISIS declarou Falluja um "Estado islâmico" na sexta-feira, após uma semana de combates Azhar Shallal/AFP

As forças especiais já lançaram operações na cidade e um ataque aéreo matou este domingo 25 membros do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS), o grupo de jihadistas estrangeiros que tomou o controlo de Falluja e de partes de Ramadi, as principais cidades da província de Anbar, no ocidente do Iraque, entre Bagdad e a fronteira com a Síria.

O “grande assalto”, dizem as autoridades iraquianas, ainda vai demorar um pouco, mas o Exército ocupa várias posições à volta de Falluja. Assim que os habitantes tenham deixado a cidade, disse à AFP um responsável do Governo, as forças de segurança vão “lançar um ataque para esmagar os terroristas”.

É mais fácil dizê-lo do que fazê-lo: em menos de uma semana, os combatentes do ISIS declararam Falluja “um Estado islâmico” e ocuparam vastas áreas de Ramadi, algo que nunca tinham feito, nem nos anos depois da invasão norte-americana, quando o líder da então Al-Qaeda no Iraque, Abu Mussab al-Zarqawi, ordenava raptos e decapitações.

Falluja e Ramadi marcaram a insurreição contra os Estados Unidos. Zonas onde o poder das tribos árabes sunitas é muito forte – com laços que atravessam a fronteira síria –, já eram conhecidas por escapar à autoridade de Saddam Hussein, e foi ali que mais militares norte-americanos morreram.

Mas foi com a chegada de Zarqawi e dos seus criminosos que tudo começou a mudar: inicialmente bem-recebidos, os métodos e a violência extrema dos estrangeiros acabaram por virar o jogo; com a população farta de Zarqawi, os EUA ajudaram a criar e financiaram milícias tribais que permitiram expulsar os radicais e trazer alguma estabilidade ao país, depois da mortandade da guerra civil, entre 2006 e 2008.

O conflito na Síria trouxe tudo de volta. “O ISIS conseguiu aproveitar as suas redes e capacidades no Iraque para ter uma presença forte na Síria, e utilizou a sua presença na Síria para reforçar as suas posições no Iraque”, resume Daniel Byman, analista do Saban Center for Middle East Policy do think tank Brookings Institution, citado pela AFP.

Segundo o Ministério da Defesa iraquiano, há fotos aéreas que sugerem a presença de armas vindas da Síria e a intenção do grupo de reconstruir campos de treino que já teve na província de Anbar. Há meses que o ISIS tem vindo a reforçar a sua presença no Norte da Síria: sexta-feira, uma nova aliança de rebeldes e forças da oposição a Bashar al-Assad foi criada para combater precisamente estes jihadistas; só depois, diz a oposição, o regime poderá voltar a ser o alvo principal.

Enquanto ganhava espaço na Síria, o ISIS ia crescendo no Iraque, onde a autoridade do primeiro-ministro xiita, Nouri al-Maliki, é questionada pelas populações árabes sunitas, que o acusam de descriminação. No Iraque, a violência voltou a lembrar os piores anos, com mais de 8000 mortos vítimas de ataques ou confrontos ao longo de 2013. Grande parte destes mortos são da responsabilidade do ISIS, que segundo alguns observadores tem enviado todos os meses mais de 30 bombistas suicidas da Síria para o Iraque.

De visita ao Médio Oriente, o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, diz que a Administração Obama está “muito, muito preocupada” com o crescimento do ISIS no Iraque, descrevendo os seus membros como “os actores mais perigosos na região”. Mas os EUA não voltarão a enviar soldados para o país, de onde retiraram completamente em 2011, assegurou. “Ajudaremos as autoridades iraquianas no seu combate, mas é um combate que elas devem vencer sozinhas e acredito que o vão conseguir.”