Desapareceu Nelson Ned, o "Pequeno Gigante da Canção"

O cantor de Tudo passará morreu este domingo em São Paulo, um dia depois de dar entrada no hospital com uma grave pneumonia. Tinha 66 anos.

Editada em 1969, <i>Tudo passará</i> tornar-se-ia a canção mais célebre do cantor brasileiro
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Editada em 1969, Tudo passará tornar-se-ia a canção mais célebre do cantor brasileiro DR
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A voz poderosa exprimia sempre o mesmo: o amor e a angústia e o sofrimento que o amor provoca. Era isso que cantava Nelson Ned, o cantor que morreu este domingo no Hospital Regional de Cotia, em São Paulo, onde entrara no sábado com uma grave pneumonia. Enfraquecido pelo AVC que sofrera em 2003 e que o obrigara a uma vida dependente, sucumbiu aos 66 anos vítima, avança a LUSA, de um “choque séptico, sepse, broncopneumonia e acidente vascular cerebral”.

Amor, tudo amor, sempre amor. Como em Tudo passará, o seu maior êxito, a canção em que em 1969 foi o rastilho para uma carreira que lhe abriria as portas para o mundo. No Brasil, onde nasceu em 1947, na cidade de Ubá, estado de Minas Gerais, o seu imenso sucesso, porventura apenas ultrapassado, no que à música romântica diz respeito, por Roberto Carlos, foi sempre acompanhado pela sua colocação na categoria de cantor brega, ou seja músico pouco refinado, próximo do universo que, em Portugal, ganhou a designação “pimba” na década de 1990.

Não era visto assim noutras latitudes. Aquele que era conhecido como "Pequeno Gigante da Canção", devido à sua baixa estatura (tinha 1m12 de altura), e que gravou também extensa discografia em castelhano, foi o primeiro latino-americano a vender um milhão de discos nos Estados Unidos, país onde actuou ao lado de Tony Bennett ou Julio Iglesias em salas míticas como a nova-iorquina Madison Square Garden.

Há dois anos, em entrevista à Globo, afirmava com convicção ter sido “um dos melhores cantores do mundo”: “Fiz muito sucesso lá fora numa época nada globalizada. Fui o primeiro artista brasileiro a cantar no Canecão [mítica sala carioca] sozinho”. Quanto à classificação de cantor “brega”, recorreu ao exemplo da sua canção preferida, Tudo Passará, para a desvalorizar. “Quando a cantei num programa fui aplaudido de pé no meio da música. Isso é ser brega? Quem não é brega quando fala de amor? É o amor que é brega, não a minha música”.

Primeiro de sete filhos de um casal de Ubá, Nelson Ned chegou ao Rio de Janeiro aos 17 anos. O seu primeiro trabalho na cidade seria na linha de montagem de uma fábrica de chocolates. Foi tentando a sua sorte em clubes no Rio de Janeiro e em São Paulo e, em 1960, editaria a primeira canção, Eu sonhei que tu estavas tão linda. Precisaria no entanto de esperar nove anos até que a sua carreira arrancasse verdadeiramente. Garantiram-no a presença regular num popular programa da televisão brasileira, A Discoteca do Chacrinha, e a edição da canção que se tornou a sua assinatura, Tudo passará. Seguir-se-iam mais de três dezenas de discos e vendas de 45 milhões de cópias em todo o mundo.

O jornalista Paulo César de Araújo destacou à LUSA o “raciocínio rápido e visão crítica e lúcida com relação ao contexto da música”, acrescentando que, “no Brasil, Nelson Ned sempre fez muito sucesso entre as camadas mais populares, mas não há dúvidas que o seu reconhecimento e prestígio foram muito maiores no estrangeiro”.

Verdadeira superestrela na década de 1970, esbanjou a fortuna acumulada em “muita cocaína, muito champanhe, muita mulherada”, como contou em 2011 numa entrevista à TV Record. A partir da década de 1990, quando se converteu à Igreja Evangélica, deixou para trás êxitos como Tamanho não é documento, Não tenho culpa de ser triste ou Receba as flores que lhe dou para se dedicar em exclusivo à música cristã. Em 2003, o AVC que sofreu deixou-o cego de um olho, atirou-o para uma cadeira de rodas e impediu-o de continuar a sua carreira.

Homem de paixões, amante de inúmeras mulheres, dizia-se "um cantor romântico apaixonado": "sempre precisei de solidão, dor e amor para escrever". Casou-se duas vezes. Deixa duas filhas e um filho.