Proposta chinesa pela Caixa Seguros mais de 200 milhões acima do fundo norte-americano

A privatização da área seguradora da Caixa Geral de Depósitos poderá entrar na agenda do Conselho de Ministros da próxima quinta-feira.

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CGD está prestes a perder área seguradora ANTÓNIO BORGES

A venda da área seguradora da Caixa Geral de Depósitos (que controla um terço do mercado português) poderá entrar na agenda do Conselho de Ministros da próxima quinta-feira. Em cima da mesa estão as propostas das finalistas do concurso de venda directa de um bloco acima de 75% da Caixa Seguros (5% estão reservados aos trabalhadores): uma da norte-americana Apollo Global Management, outra da chinesa Fosun International. A proposta chinesa é superior, apurou o PÚBLICO, em mais de 200 milhões de euros.

Para além da diferença nos montantes financeiros da oferta pela Caixa Seguros (que engloba as marcas Fidelidade, Multicare, Seguros de Saúde, Cares,Companhia de Seguros, Caixa Poupança), as condições de aquisição inscritas nas duas propostas serão também distintas. Um dos pontos que as diferencia diz respeito à carteira de negócios da Caixa Poupança (seguros de capitalização), que detém cerca de três mil milhões de divida pública portuguesa. Segundo o que tem sido referido na comunicação social, e ao contrário da Fosun (que não os exclui), a proposta da Apollo Management International coloca restrições aos activos da Caixa Poupança, procurando deste modo proteger-se de eventuais riscos.

A área seguradora do banco público tem sido avaliada num intervalo que fica entre 900 milhões e 1,1 mil milhões de euros.

Enquanto o Governo não anuncia a qual das duas companhias vai entregar um grupo avaliado entre 900 milhões e 1100 milhões de euros ou se opta pela dispersão do capital em bolsa, nos bastidores acentuam-se as movimentações para “influenciar” a decisão final. Uma fonte ligada ao processo admitiu ao PÚBLICO que por estar em causa o futuro de 30% do mercado segurador nacional, a última palavra de Passos Coelho acabe po rter forte vertente política. Isto porque as propostas não surjem do interior da indústria seguradora, mas de uma sociedade de capital risco e de um fundo de private equity, e que não são os investidores finais. No caso deste tipo de companhias, os investidores (cuja titularidade nem sempre é conhecida) aplicam o dinheiro nestes veículos para serem rentabilizados num espaço de tempo curto, ainda que possam, em certas circunstâncias, assumir posições transitórias no sector segurador.

Os adversários da proposta chinesa alertam para o facto de Maria Luís Albuquerque, se a sua opção for neste sentido, voltar a privilegiar o investimento chinês (como aconteceu nos casos da REN e da EDP). Já para os detractores da norte-americana, a Apollo ofereceu um valor “substancialmente” inferior ao da Fosun e as condições são menos abrangentes.

É neste contexto que, dentro da Caixa Geral de Depósitos, há quem defenda, ao mais alto nível, a opção da dispersão de parte da Caixa Seguros no mercado de capitais. Uma solução que um porta-voz do Ministério das Finanças já veio dizer, publicamente, não estar em cima da mesa, isto depois de o Secretário de Estado das Finanças, Manuel Rodrigues, o ter admitido.

Em todo o caso, a via alternativa (IPO- oferta pública inicial) só avançará se as propostas da Apollo Global Management e da Fosun International não forem ao encontro das expectativas do Estado/CGD, quer em termos de valores e, mais importante ainda, das condições de compra. Alvo de particular atenção serão as contrapartidas exigidas ao Estado (CGD) - por exemplo, de que os balanços/contingências são credíveis e que não terão surpresas (por exemplo, com as carteiras de divida pública). Quem negoceia em bolsa adquire acções sem pedir ao vendedor garantias de que as empresas estão saudáveis,o que agiliza o processo.  

Recorde-se que a privatização da Caixa Seguros já gerou controvérsia por constar numa das cláusulas do contrato que seja dada (ao vendedor/CGD e ao adquirente) exclusividade mútua, por 25 anos, de comercialização dos produtos da Fidelidade, após alienação, aos balcões da Caixa Geral de Depósitos (CGD). Esta cláusula amarra o banco público durante um quarto de século a uma entidade e afasta qualquer outra hipótese de parceria que venha a surgir e que possa ser mais favorável aos interesses do grupo estatal.