As gravuras ou os líquenes? Felizmente, no Côa não é preciso escolher

Os líquenes não são a mais glamorosa das espécies biológicas — nem mesmo Lineu se preocupou em esconder o seu desprezo por esta flora rasteira que se instala na superfície das rochas. Alguns arqueólogos acreditam que eles são responsáveis pela destruição de gravuras rupestres em Foz Côa. Uma bióloga mostra que eles merecem um pouco mais de respeito.

Numa manhã de Novembro, com o Douro vinhateiro no seu esplendor, Joana Marques, uma bióloga da Universidade de Porto, aproximou a cara de um rochedo com crostas alaranjadas na superfície como se o fosse beijar. A rocha, maior do que ela, continha um exemplar de arte da Idade do Gelo que, independentemente dos incentivos do arqueólogo António Batarda, continuava a ser difícil de detectar. Mas não foi por isso que Joana se debruçou sobre a rocha, com uma lupa de bolso do tamanho de uma moeda. Acontece que quando se tem uma relação com líquenes, como ela, a distância não funciona. O nariz é o limite.

“Quando estivermos a respirar o pó da pedra, sabemos que estamos no sítio certo”, explicou Joana, enquanto fazia uma demonstração no Parque Arqueológico do Vale do Côa. Apesar da ubiquidade das suas manchas esverdeadas ou amarelas em troncos de árvores e à superfície das rochas, os líquenes — que não são fungos nem algas, mas uma curiosa combinação dos dois — passam despercebidos a quase toda a gente. Mas isso é só porque a maior parte das pessoas não anda com uma lupa de bolso que aumenta dez vezes aquilo que se está a ver.

“O aspecto que o líquen tem à lupa é diferente e é quando os vemos à lupa que começamos a gostar deles”, diz Joana Marques, debruçada sobre a rocha.

“É a partir daí que os levas para casa e os apresentas aos teus pais”, brinca António Batarda, coordenador do programa de conservação de arte rupestre do Vale do Côa desde 2000. Mas até ele, com a sua fisionomia de capitão Haddock, iria ficar rendido numa questão de minutos, quando espreitasse através da lupa: “Ah, que espectáculo.”

Vistos assim, os líquenes ganham subitamente relevo e minúcia, como peças de ourivesaria requintada. No caso de Joana Marques, as analogias vão sempre parar à doçaria. “As estruturas parecem tartelettes porque têm um rebordo crocante que parece massa de tarte folhada com um interior gelatinoso. Eu digo que são bolachinhas. E as pessoas concordam. Há umas bolas ocas com pintinhas brancas — parecem mesmo aquelas arrufadinhas com o açúcar em pó... É um micromundo. Havia quem lhes chamasse florestas em miniatura. Aliás, os arquitectos paisagistas usam líquenes nas maquetas quanto querem representar árvores. O que significa que algumas espécies de líquenes têm forma de árvore em miniatura.”

Até nos corredores da biologia os líquenes estão longe de ser a mais glamorosa das criaturas. Carlos Lineu, o naturalista que no século XVIII criou o sistema de nomenclatura binominal ainda hoje utilizado para classificar as espécies biológicas — dois nomes em latim, o primeiro identificando o género e o segundo a espécie — considerava os líquenes “o lixo da vegetação”. Desde Lineu a percepção “não mudou muito”, conta Joana Marques, rindo-se. Os líquenes são vistos como os parentes pobres dos fungos, que por sua vez são tidos como espécies inferiores de flora — que, se alguém perguntar a um botânico, nunca têm a atenção que merecem quando comparadas com os animais.

Não ajuda que os líquenes tenham uma tendência para aparecer em lugares indesejados – por exemplo, em santuários de arte rupestre como Foz Côa. “A maior parte dos especialistas no mundo da conservação de arte rupestre e os arqueólogos encaram os líquenes como prejudiciais” e defendem a sua remoção, nota António Batarda. As suas hifas (filamentos ou raízes) penetram milimetricamente na rocha e produzem substâncias químicas que têm uma acção de dissolução do suporte rochoso (xisto) e, consequentemente, ameaçam as gravuras rupestres do Côa.

É uma área de estudo tão específica que os conservadores do Parque Arqueológico do Côa decidiram lançar mão a uma liquenóloga (um termo que não se encontra na maior parte dos dicionários de língua portuguesa). Nos últimos cinco anos, Joana Marques, investigadora do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO) da Universidade do Porto e um dos três liquenólogos que existem em Portugal, tem visitado frequentemente Foz Côa para observar, identificar e analisar as diferentes espécies de líquenes presentes no parque arqueológico. (A viagem de duas horas e meia entre o Porto e Foz Côa tornou-se um pouco embaraçosa para esta bióloga de 32 anos, em particular quando o velho jipe da universidade protesta contra as subidas montanhosas cuspindo fumo negro.)

Um santuário de líquenes
Um estudo prévio, realizado em 1999, inventariou uma dezena de espécies de líquenes nas rochas xistosas do Parque Arqueológico do Vale do Côa. Joana Marques identificou 206 espécies. “Ainda não é um número final. Haverá mais”, diz. “Mas as que crescem nas superfícies que têm as gravuras estão inventariadas.” No Côa a bióloga descobriu uma espécie nova, a Peltula lobata (e que, se não fosse um líquen, muito provavelmente teria sido capa de uma conceituada revista científica), e outras duas espécies que eram desconhecidas no continente europeu — uma delas só existia na Austrália e na África do Sul, a outra no deserto de Sonora, na Califórnia.

O Côa, que é descrito como “um santuário de arte rupestre”, nota Joana Marques, revelou-se também “um santuário para os líquenes”. “Já desconfiávamos que isso acontecesse, pelas características ambientais deste lugar: um vale quente e seco no Nordeste do país.” Mais quente e seco do que o Algarve — quando chove no Verão, a água evapora-se antes de atingir o chão, garante Joana. A toponímia local contém alusões ao calor: Canada do Inferno, Vale do Forno.

A missão de Joana Marques consistiu em estudar a diversidade liquénica do parque, analisar de que forma as espécies são afectadas pelas variáveis ambientais e que tipo de erosão produzem na rocha. Alguns dos arqueólogos do Vale do Côa estão convencidos de que os líquenes tiveram uma acção decisiva na destruição de gravuras rupestres desde o Paleolítico até hoje. Uma das razões que apontam é a diferença visível entre as encostas rochosas expostas a norte, onde existem menos gravuras, e as encostas expostas a sul, onde as gravuras estão mais concentradas em superfícies que não foram colonizadas por líquenes.

“O que é que o arqueólogo vê: esta rocha tem uma gravura e praticamente não tem líquenes, e ali não temos gravuras e a superfície está carregada de líquenes. A partir disso estabelece a relação: ‘OK, o líquen destruiu a gravura e só os locais onde os líquenes não conseguiram crescer é que as gravuras sobreviveram.’” Mas Joana Marques detectou mais sinais de alteração da rocha por acção liquénica nas encostas a sul, onde existem mais gravuras, do que nas encostas a norte, o que contraria essa teoria. (Nem todos os arqueólogos do Parque do Côa concordam com a teoria. António Batarda e António Martinho Baptista, coordenador do Parque Arqueológico e do Museu do Côa, defendem que a maior presença de gravuras a sul resulta de uma escolha activa do artista do Paleolítico, por essas encostas estarem mais expostas à luz solar.)

Os líquenes não são o principal problema das gravuras do Vale do Coa, garante Joana Marques. Nas encostas a norte, os líquenes têm uma acção menor sobre o xisto do que outros agentes erosivos, sobretudo a água, mas também as variações de temperatura (maior contraste entre Verão e Inverno do que a sul). Na verdade, o líquen acaba por ter um papel protector da rocha nas encostas a norte, porque retarda o efeito da água. “A água desgasta física e quimicamente — funciona como um ácido”, diz. A sul, os líquenes têm um impacto maior sobre a alteração da rocha quando comparado com a acção de outros agentes erosivos.

Remover ou não remover, eis a questão
Antes de 2000 houve uma operação de limpeza de superfícies rochosas com arte paleolítica que estavam cobertas de líquenes — para possibilitar o registo documental das gravuras e mostrá-las ao público. Os processos de remoção são agressivos e podem acelerar a degradação da rocha. E a recolonização liquénica já voltou em força em certas rochas. “De 20 em 20 anos vamos estar a tirar líquenes? Daqui a cem anos, mil anos, já temos que olhar para uns traços gravados muito menos fundos”, nota António Batarda. “Há casos em que poderá fazer muito sentido retirar os líquenes. Mas de um modo geral sou contra.”

O arqueólogo considera que os líquenes fazem parte do património do vale do Côa. “O tempo geológico mede-se em milhões de anos. O tempo humano em milhares de anos. Estamos aqui há muito pouco tempo. Não sabemos quantos mais. Parece que isto é muito importante, que somos os maiores. Mas temos de ter uma certa atitude de humildade perante um continuum que é a história deste planeta connosco cá agora.”

Apontando para uma rocha no Vale de José Esteves (que não faz parte dos núcleos do Côa abertos ao público) com incisões muito finas que representam uma família de veados, o arqueólogo diz: “Esta rocha é orgânica. É bonita. Para além de ter os líquenes, a colonização macrobiológica, os símbolos postos pelo homem fazem dele um objecto total de arte. Torna isto um ser vivo quase.”

Para Joana Marques, os líquenes têm um valor estético. “A imagem que todos conhecemos do Convento de Cristo em Tomar é da janela com a pedra cor de laranja. Essas manchas cor de laranja são líquenes. Aquela janela limpa não tem o mesmo carácter da janela com os líquenes. Uma pedra limpa é igual a uma pedra acabada de extrair. Não é emotiva, não tem história.”

Felizmente, no Côa não existe o dilema da escolha entre preservar gravuras ou preservar líquenes. “Se considerasse que os líquenes estavam a prejudicar as gravuras, aconselharia a sua remoção. Se bem que se fosse o único líquen à face da Terra em cima daquela gravura teria algumas dúvidas...”, diz Joana, com um sorriso. “Mas eu sei que se for preciso remover os líquenes das gravuras, os esporos andam no ar e vão encontrar outros locais para colonizar.” Lupas a postos.