A orquídea mais rara da Europa é dos Açores

Tanto quanto se sabe, a espécie vive apenas na ilha de São Jorge, estando circunscrita ao Pico da Esperança e a alguns locais à volta. Só cerca de 250 plantas com flor foram aí localizadas pelos cientistas, que defendem agora a sua protecção.

Fotogaleria
A rara orquídea Platanthera azorica Richard Bateman
Fotogaleria
Cordilheira central da ilha de São Jorge, onde a orquídea foi encontrada em 2011 Rob Poot
Fotogaleria
Na ilha do Pico, a orquídea Platanthera pollostantha em primeiro plano, uma prima mais abundante da Platanthera azorica Richard Bateman

A botânica Mónica Moura andava em expedição pela ilha de São Jorge em 2011 quando, a certa altura, se deparou no campo com umas orquídeas cujas flores eram bem visíveis. Pareciam-lhe tão grandes – em comparação com outras, porque estas orquídeas selvagens têm todas flores diminutas – que, ao princípio, a botânica da Universidade dos Açores até pensou estar perante uma espécie nova para a ciência. Enviou fotografias por email ao biólogo com quem investigava as orquídeas dos Açores, o britânico Richard Bateman – e ele, inicialmente, achou o mesmo. Estavam longe de imaginar que iriam desvendar o misterioso caso de uma espécie de orquídea desaparecida há cerca de 170 anos e que é actualmente considerada a mais rara da Europa.

“Tinha estado horas e horas no campo a medir flores. Quando olhei para aquelas flores, chamaram-me a atenção”, recorda a bióloga portuguesa. “Eram suficientemente grandes para que as partes mais pequenas – as partes reprodutivas da planta – se verem bem a olho nu. Ao princípio, pensámos que era uma espécie diferente.”

O feliz encontro da botânica portuguesa, a 23 de Junho de 2011, com as orquídeas das flores “grandes”, iria provocar uma reviravolta na investigação. Mónica Moura, Richard Bateman (botânico independente que está ligado aos Reais Jardins Botânicos Kew, em Londres) e Paula Rudall (dos Jardins Kew) estavam a estudar as orquídeas endémicas dos Açores, ou seja, que apenas existem no arquipélago. O projecto passava por explorar as nove ilhas à procura destas orquídeas, que pertencem ao género Platanthera. “Havia uma grande confusão: uns autores diziam que eram duas espécies, outros que eram uma”, contextualiza a botânica.

Face aos novos desenvolvimentos, Richard Bateman, especialista em orquídeas e em particular as do género Platanthera, pediu emprestados os exemplares que tinham sido utilizados no século XIX como referência para descrever duas novas espécies endémicas dos Açores e que actualmente se encontravam preservados no herbário de Tubinga, na Alemanha. Esse material tinha sido apanhado em 1838, pelo botânico alemão Karl Hochstetter, durante uma viagem a seis das nove ilhas açorianas. E foi utilizado por Moritz August Seubert, também um botânico alemão, para descrever as duas espécies de orquídeas no primeiro livro dedicado às plantas dos Açores, a Flora Azorica, de 1844.

Nova reviravolta aconteceu quando Richard Bateman recebeu do herbário de Tubinga as orquídeas, secas e presas em folhas de papel: em vez dos esperados dois exemplares, vinham três. Afinal, não havia uma ou duas espécies de orquídeas dentro do género Platanthera a viver unicamente nos Açores – havia três, como agora anuncia a equipa num artigo na revista científica PeerJ, de acesso livre.

“Na realidade, chegou-se à conclusão de que são três espécies. Até ao momento, nunca se tinha colocado esta hipótese”, refere Mónica Moura. E uma dessas espécies, a Platanthera azorica, é a que foi encontrada pela botânica portuguesa em São Jorge: “É a espécie que até agora não se tinha voltado a ver no campo.”

Quando Karl Hochstetter recolheu os três exemplares, provavelmente terá pensado que pertenceriam a três espécies distintas de orquídeas. Mas, por alguma razão, Moritz Seubert só descreveu duas espécies na Flora Azorica e, além disso, trocou as descrições.

Por sinal, a orquídea do Pico da Esperança até era uma das que estava ilustrada no livro: “Mas o [seu] nome científico não estava correcto e a descrição estava mal feita. Quando as pessoas mencionavam aquele nome, não estavam a referir-se àquela espécie.”

Acresce que um dos três exemplares colhidos por Karl Hochstetter, e que até é da espécie mais comum nas ilhas, acabou por não ser nem descrito nem ilustrado na Flora Azorica. “É uma enorme confusão”, resume Mónica Moura. “Esses erros perduraram desde 1844 até à actualidade.”

Concluindo: baseando-se em diversas características morfológicas das plantas, principalmente das suas flores, a equipa classificou agora as três espécies como Platanthera azorica, Platanthera micrantha e Platanthera pollostantha.

E como são as flores da orquídea redescoberta e das suas duas primas açorianas? Muito discretas, entre o verde-pálido e o amarelado. “São flores diminutas, que não têm nada a ver com as das orquídeas ornamentais”, acrescenta a botânica portuguesa. “No Inverno, quando não estão em flor, são muito baixinhas e não as conseguimos distinguir. Na Primavera e no Verão, vê-se a parte da inflorescência, que contém o conjunto das flores, e conseguimos encontrá-la.”

Das três espécies, a Platanthera azorica é assim mais rara, uma vez que só foi encontrada pela equipa em São Jorge e, mesmo aí, restringe-se ao Pico da Esperança e a alguns locais à sua volta, na cordilheira central de origem vulcânica da ilha. “O número de exemplares é baixo. Só conseguimos localizar à volta de 250 indivíduos com flores”, assinala Mónica Moura.

Só que o exemplar recolhido por Karl Hochstetter não era de São Jorge, ilha que o botânico alemão nunca visitou. Por isso, ou a Platanthera azorica se extinguiu entretanto noutras ilhas ou ainda lá se existe, em locais muito recônditos, e quem sabe se um dia alguém terá um encontro imediato com ela.

Mesmo existindo em locais de difícil acesso noutras ilhas, isso não a torna menos rara entre as cerca de 250 espécies de orquídeas no continente europeu. “É sem dúvida a orquídea mais rara da Europa”, sublinha a equipa num comunicado de imprensa.

Quanto à Platanthera micrantha, está presente em oito ilhas açorianas, mas não é muito comum, limitando-se a pequenas áreas da laurissilva, a floresta nativa (estima-se a existência de cerca de mil plantas com flor). Mais abundante é a Platanthera pollostantha, que se encontra em todas as ilhas do arquipélago, ocupando vários habitats e altitudes, estimando-se em cerca de 70.000 as plantas com flor. É vulgarmente conhecida pelas populações locais como conchelo-do-mato.

Como as flores das três orquídeas dos Açores não são propriamente chamativas, não devem ter um uso ornamental. “Não tenho grande ideia de que tenham alguma utilização”, refere a botânica.

Mas nos Açores encontram-se ainda outras duas espécies de orquídeas (dentro do género Serapias) e essas, sim, ostentam umas flores avermelhadas mais vistosas. Já agora, além das cinco espécies presentes nos Açores, na Madeira há outras cinco e, segundo o site flora-on, em Portugal continental existem 48 espécies, o que dá um total de 58 espécies em território português.

Os três autores do artigo pretendem que a orquídea desaparecida durante mais de 170 anos seja protegida e, a este propósito, defendem uma revisão da Lista Vermelha das Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). É que esta história digna de Sherlock Holmes (“é o estranho caso da Platanthera desaparecida”, como a considera a botânica portuguesa) inclui ainda outros erros. Na última revisão da UICN, de 2011, as duas espécies de Platantheras apontadas para os Açores foram aglomeradas numa única espécie, o que Mónica Moura considera um “erro grave”.

“A recente amálgama pela UICN das Platantheras dos Açores numa suposta espécie única na sua Lista Vermelha precisa de ser anulada, porque a Platanthera azorica é indiscutivelmente a orquídea mais rara da Europa e a quase igualmente rara Platanthera micrantha é um dos melhores indicadores dos habitats seminaturais de laurissilva que restam nos Açores”, defendem os cientistas no seu artigo. “Ambas as espécies estão ameaçadas pela destruição do habitat e plantas exóticas invasoras.”