Mariano Deidda canta Mensagem de Pessoa, “44 poemas apontados ao futuro de Portugal”

Mensagem é o quarto disco que o cantor e compositor italiano dedica a Fernando Pessoa. Hoje no Teatro Aberto, em Lisboa, às 21h30.

Nascido na Sardenha, Itália, Deidda já gravou três discos a partir da obra poética que tanto o fascina: Deidda Interpreta Pessoa (2001), Nel Mio Spazio Interiore (2003) e L’Incapacità di pensare (2005) Agora lança Mensagem, assim mesmo, titulado em português, tendo como subtítulo a morada da casa onde morou o poeta e onde é hoje a Casa Fernando Pessoa: “rua coelho da rocha 16 lisboa 1250-088”

A paixão, antiga, que o une à obra pessoana nasceu com a descoberta de Fernando Pessoa a partir de uma tradução de António Tabucchi para a Feltrinelli, Il Poeta è un Fingitore. “Era muito jovem quando o descobri, e encontrar-me com uma obra tão forte como a do Livro do Desassossego foi como se tivesse as mãos a tapar os olhos e de repente os destapasse. Pessoa abriu-me os olhos. E comecei a ver o mundo de outra maneira.” Mas a sua carreira musical começou antes disso, em 1992, com Canzoni per Ricominciare, seguindo-se mais tarde L’Era dei Replicanti (1998), onde homenageava o celebrado folk-singer inglês Nick Drake (1948-1974).

Foi só depois da sua passagem pela Expo’98, em Lisboa, que Mariano Deidda deu início ao seu intenso trabalho musical em torno da poesia de Fernando Pessoa, que ele considera “um homem extremamente projectado no futuro” e para lá do seu próprio tempo. A par da obra de Pessoa, Deidda dedicou também nestes anos dois discos a poetas italianos históricos: Grazia Deledda (em 2007) e Cesare Pavese (em 2008).

Nos seus discos anteriores, Deidda tem trabalhado com músicos de relevo, sobretudo da área do jazz, tais como Miroslav Vitous, Enrico Rava, Gianni Coscia, Stefano Bagnoli ou Nino La Piana, que volta a acompanhá-lo em Mensagem. Além dele, o disco conta com as participações de Ivan Segreto, Carlos Carega, Luca Zanetti, Diego Mascherpa, Roberto Chiriaco, Riccardo Moffa, Paola Torsi e também a portuguesa Mafalda Arnauth, que participa cantando (em português) Mar português.

Para Mariano Deidda, o livro de Pessoa que agora musicou é uma obra sem tempo: “Fernando Pessoa contou, em 44 poemas, a grande história de Portugal do passado. Mas lidos por uma óptica moderna são 44 poemas apontados ao futuro de Portugal. A mensagem de Einstein contida nessa citação de Einstein e a Mensagem de Pessoa são duas coisas paralelas. Porque as crises são cíclicas, vão e vêm, são assim. Há gerações que suportam uma, duas, três, quatro, cinco. Outras, mais afortunadas, vivem apenas uma crise em toda a sua vida. Quando há uma crise, não vale a pena esperar que alguém a resolva. Temos que ser nós a fazer qualquer coisa para ultrapassá-la.”

Com a crise económica e social da Europa em pano de fundo, Mariano Deidda vê na obra de Pessoa uma pista para entendê-la ou, pelo menos, para entender estes tempos: “O motivo que terá levado Fernando Pessoa a empregar vinte anos da sua vida para escrever estes 44 poemas é porque, nesses vinte anos, ele quis escrever uma coisa que pudesse superar esses vinte anos e alcançar o futuro. Espero que este disco (e a música é um bom auxiliar para escutar as palavras) nos ajude a compreender a crise que vivemos. E há-de ser Fernando pessoa a explicar-nos isso. Como sempre.”
 

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