Exibidor Paulo Branco vai redimensionar programação e fazer itinerância pelo país

Um dia depois das últimas exibições no cinema King,em Lisboa, Paulo Branco explicou aos jornalistas as razões que levaram ao fecho da sala que explorava desde 1990.

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Paulo Branco Miguel Manso

O produtor Paulo Branco afirmou esta segunda-feira que irá manter o espírito de exibição independente do cinema King, agora encerrado, nas restantes salas que detém em Lisboa, mas lamentou o desinteresse dos portugueses no acto de ir ao cinema.

Um dia depois das últimas exibições no cinema King, Paulo Branco explicou aos jornalistas as razões que levaram ao fecho da sala que explorava desde 1990, e criticou as condições com que os exibidores independentes trabalham em Portugal.
Paulo Branco encerrou o King em consequência de um “aumento exponencial” do valor da renda do espaço, de 4.000 euros para 12.000 euros, depois de uma reavaliação do edifício para 2,2 milhões de euros.
O valor era incomportável para a Medeia Filmes, explicou Paulo Branco, tendo em conta a quebra sucessiva de espectadores nas salas de cinema e a concorrência com outras exibidoras.

Actualmente a Medeia Filmes explora em Lisboa as salas dos cinemas Monumental e Fonte Nova, onde há estreias comerciais, e a sala do Nimas, utilizada para ciclos temáticos.
Paulo Branco referiu que irá “redimensionar” os restantes espaços e utilizar equipamento do cinema King para reforçar sessões de cinema no Nimas e para fazer exibições itinerantes fora de Lisboa, “promovendo os filmes independentes” pelo país.

“Aqui comecei a minha carreira a sério de exibidor e distribuidor. Agora chamam-lhe uma sala mítica, não sei bem o que isso quer dizer. [O King] Permitiu talvez a existência do cinema português”, recordou Paulo Branco.
O produtor recordou que, quando começou na distribuição, a ideia era ser um “contraponto ao grande domínio de uma aglomeração que começava a existir à volta da Lusomundo”, mas acabou por falhar nesse propósito.
Para Paulo Branco, o encerramento do King é também uma consequência do desinteresse e da indiferença do poder político, da comunicação social e da sociedade civil perante o cinema: “É difícil chegar ao público. Não é de admirar que o público não chegue a nós”.
“Ir ao cinema é uma experiência e essa experiência tem de ser cultivada. É uma questão de educação. Conhecimento e cultura são enriquecimento”, sublinhou.

Segundo o exibidor, o cinema King contabilizou cerca de 60 mil espectadores em 2012, valor que desceu para 40 mil já este ano. Não deixa de ser curioso, referiu, que o King tenha aberto e encerrado com cinema do realizador Bernardo Bertolucci.  Abriu com o filme 1900 e encerrou com Eu e tu.

“Fechei salas, abri salas, enterrei salas, infelizmente enterrei alguns realizadores, divorciei-me de outros. Enquanto tiver pelo menos cabeça e energia vou continuar”, disse.

O Cinema King abriu em 1990 no espaço onde antes funcionou o Cinema Vox, inaugurado em 1969.
Na última década, Lisboa assistiu à abertura de multi-salas de cinema integradas em centros comerciais, como no Corte Inglés, no Campo Pequeno ou no Alvaláxia, mas perdeu outros espaços de exibição como o Cinema Mundial, encerrado em 2004, o Quarteto, que fechou portas em 2007, e o cinema Londres, que encerrou este ano.
Em 2011, Paulo Branco encerrou os cinemas Saldanha Residence.
A Medeia Filmes também tem programação no Cine Estúdio Teatro do Campo Alegre, no Porto, e no Auditório Charlot, em Setúbal.

De acordo com dados estatísticos do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA), em 2012 o distrito de Lisboa (que abrange mais de uma dezena de municípios) registava 29 recintos de cinema e 158 salas.
No que toca apenas ao concelho de Lisboa, os dados do ICA remetem no entanto para 2011, indicando que, nesse ano, existiam 14 recintos e 80 salas.