Ucrânia troca pacto com a UE por aproximação a Moscovo

Recusa da Ucrânia surge na sequência de pressões da Rússia para que o país integre zona aduaneira na sua esfera de influência.

Viktor Yanukovich, Presidente ucraniano, ainda durante a campanha eleitoral, em 2010
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Viktor Yanukovich, Presidente ucraniano, ainda durante a campanha eleitoral, em 2010 Serguei Supinsky/AFP

O Governo ucraniano anunciou esta quinta-feira que já não vai assinar o acordo comercial com a União Europeia (UE), receando a reacção negativa de Moscovo. A decisão surge no mesmo dia em que o Parlamento chumbou a lei que iria permitir que a ex-primeira-ministra ucraniana, Julia Timochenko, actualmente presa, pudesse procurar tratamento médico no estrangeiro.

A Ucrânia e a UE tinham encontro marcado para 29 de Novembro, em Vilnius na Lituânia, onde seria assinado um acordo de cooperação comercial. Com a recusa, Kiev pretende agora “renovar o diálogo activo” com a Rússia e possivelmente até integrar a união aduaneira formada por alguns países da antiga União Soviética.

O acordo com a UE foi suspenso “com o objectivo de adoptar medidas para assegurar a segurança nacional”, de acordo com o comunicado assinado pelo primeiro-ministro ucraniano, Mikola Azarov, citado pela Reuters. O anúncio é encarado como uma reviravolta, dado que ainda na quarta-feira, Azarov havia reiterado a intenção da Ucrânia em assinar o acordo.

A delegação da UE confirmou a decisão através do emissário responsável, o ex-Presidente polaco, Aleksander Kwasniewski. “Foi feito um pedido de pausa nas negociações para que a Ucrânia organize as suas questões económicas”, explicou Kwasniewski, que sublinhou tratar-se de “uma decisão da Ucrânia e não da Europa”. O Governo alemão reagiu através do ministro dos Negócios Estrangeiros, Guido Westerwelle, que defendeu que a UE ainda está interessada em fechar o acordo e que “a bola está do lado da Ucrânia”.

O factor Timochenko

A notícia surgiu horas depois de o Parlamento ucraniano ter vetado a saída de Julia Timochenko da prisão para ser tratada a uma infecção respiratória no estrangeiro. O Parlamento – dominado pelo Partido das Regiões, do Presidente, Viktor Ianukovich – rejeitou as seis propostas legislativas que iam no sentido de autorizar a saída da ex-primeira-ministra.

Timochenko notabilizou-se durante a Revolução Laranja, em 2004, durante a qual foi uma das forças mais presentes na mobilização popular que levou à eleição presidencial de Viktor Iuschenko, que derrotou Ianukovich. Em 2010, Timochenko candidatou-se às eleições presidenciais, que viria a perder para o actual Presidente, apesar das queixas de fraude eleitoral levantadas pela ex-primeira-ministra.

Uma das preocupações dos Governos europeus é precisamente a prisão daquela que é uma das principais opositoras políticas do actual Presidente. Timochenko foi condenada em 2011 a uma pena de prisão de sete anos acusada de corrupção e Ianukovich receia que, caso seja libertada, se venha a recandidatar à presidência e atrapalhar a sua reeleição em 2015.

Por outro lado, Moscovo não tem visto com bons olhos a aproximação da Ucrânia à UE, ameaçando com retaliações de âmbito económico caso o acordo avançasse. A Ucrânia tem uma grande dependência do fornecimento de gás natural russo, situação que tem conduzido a vários episódios de tensão entre os dois países. Em 2009, a “guerra do gás” entre a Ucrânia e a Rússia provocou o corte do fornecimento de gás a 18 países europeus.

O Presidente russo, Vladimir Putin, tem pressionado Kiev para que se junte à união aduaneira da qual a Bielorrússia e o Cazaquistão também fazem parte, a Comunidade de Estados Independentes, o que seria incompatível com a integração da Ucrânia na zona de comércio livre da UE.

O Kremlin saudou a decisão do Governo ucraniano, definindo o país como “um aliado próximo”, através de um porta-voz de Vladimir Putin. “Saudamos o desejo de melhorar e desenvolver as relações comerciais e a cooperação económica” da Ucrânia, referiu Dmitri Peskov.


 
 

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