Brilhantes ideias

Tendo-me eu já queixado tantas vezes que o PS não tem alternativas para Portugal, fiquei entusiasmadíssimo com esta oportunidade de analisar as brilhantes ideias de Brilhante Dias e dos seus companheiros de partido, para que todos possamos perceber qual é o programa económico de um futuro governo socialista. Eis, sem mais demoras, o decálogo do PS.

Alternativa 1: ajustamento orçamental, ou seja, o anúncio de que o PS jamais cortaria em subsídios de férias e de Natal. Em resumo: menos cortes. Alternativa 2: financiamento às PME e à economia, utilizando parte do valor do resgate. Em resumo: despesa. Alternativa 3: constituição de uma linha de crédito para as empresas, via Banco Europeu de Investimento. Em resumo: despesa. Alternativa 4: definição de uma agenda europeia, dentro da lógica “sozinhos não vamos lá”. Em resumo: nem corte, nem despesa. Alternativa 5: pagamento do Estado aos fornecedores, utilizando parte do valor do resgate. Em resumo: despesa. Alternativa 6: ataque ao desemprego jovem, com formação para desempregados, aproveitando a iniciativa europeia. Em resumo: despesa. Alternativa 7: redução do IVA da restauração. Em resumo: menos receita. Alternativa 8: flexibilização da meta do défice. Em resumo: despesa (mais défice, mais tempo, mais dinheiro). Alternativa 9: atenção à reforma do Estado, recusando “apenas os cortes”. Em resumo: menos cortes. Alternativa 10: resolução dos seguros de crédito às empresas exportadoras. Em resumo: despesa.

Deixem-me dizer que algumas destas propostas fazem todo o sentido, e deveriam ser aplicadas pelo Governo. Por alguma razão existe um Orçamento do Estado — é porque uma infinidade de despesas são totalmente justificadas e ninguém está disposto a prescindir delas. Mas o meu ponto é outro. Das 10 medidas alternativas que Eurico Brilhante Dias apresenta, seis estão do lado da despesa, duas delas implicam menos cortes e outra implica menos receita. Nem uma — uma só para amostra, uma só para disfarçar, uma só para parecer bem — implica cortes na despesa do Estado. Ciente disso, Eurico justifica-o numa adenda final: “São propostas diferentes, mas são o espelho de outra política. Possível e desejável. Não peçam é não alternativas — que aos cortes que nos empobrecem o PS acrescente ou substitua cortes. Para mal já basta assim.” Mas diante de um raciocínio tão sofisticado quanto este, não será legítimo perguntar a Eurico: mentirosos por mentirosos, não bastará também assim?

Infelizmente isto não é sério, caro Eurico Brilhante Dias, e não é possível defendê-lo sem a demagogia barata vencer por KO a honestidade intelectual. Como já disse — e repito — algumas daquelas ideias são boas e justas. Mas alguém acredita realmente que o próximo governo, enfiado (na melhor das hipóteses) num programa cautelar, estará dispensado de continuar a cortar na despesa do Estado? Então onde é que isso está contemplado nas “10 alternativas do PS para Portugal”? Não está, claro. E não está porque, na verdade, tais medidas não são “o espelho de outra política”. São o espelho da política de sempre — aquela que aldraba eleitores em tempo de oposição para depois emendar a mão quando se chega ao governo, devido “ao estado em que se encontra o país”. Onde é que nós já vimos isto?
 
 
 
 

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